sábado, julho 28

Tendências

1. Haverá, penso eu, uma pequena explosão na área de manuais e bibliografias auxiliares; mas o MEC parece ter firmado posição, no sentido de apoiar a elaboração, a cargo da Anpof, de um livro de referência, escrito por professores renomados para professores; o MEC, no caso da Filosofia, não vai indicar livro didático; poderá haver um refinamento das sugestões de conteudos, mas sem imposições de nenhum tipo, pois a realidade não comporta isso; por outro lado, o grupo dos que entendem o ensino de filosofia como "adquirir o instrumental crítico para atuar numa perpectiva transformadora" parece ser ainda muito forte, em especial em São Paulo, e estes estão dispostos a lutar por programas mais definidos.
2. O sistema universitário está alheio ao ensino de filosofia. Nenhum professor da USP ou da PUC de SP foi ao encontro; os palestrantes, em grande parte, apenas davam a palestra e iam embora; não há um clima de produção teórica, não houve nenhuma boa vontade em criar-se uma fórmula que permitisse troca de experiências entre os participantes; é como se todos já soubessem o que fazer, bastando criar-se um momento de expressão e protesto contra problemas conjunturais, como o desinteresse do Estado de São Paulo em apoiar o ensino de Filosofia. Se isso persistir, o ensino de Filosofia no médio cada vez mais será algo que não terá nada a ver com o ensino de filosofia nas universidades; em suma, estamos à beira de um pequeno desastre.
3. Pouco se estuda, pouco se lê; apenas uma pessoa, em todo o evento, em uma das intervenções de dois minutos, fez sugestões de leituras não esperadas; foi um professor de Ribeirão Preto, leitor de Pierre Hadot. Foi comovente e dissonante, em meio aos apelos generalizados por "filosofias da libertação", ufa, ufa e mais bufa.
4. Os palestrantes, felizmente, apontaram para rumos importantes; Salles e Severino foram muito claros em falar em escola, currículo e pressionaram os participantes para sair da casinha filosófica e ler as Orientações Curriculares, as 500 páginas; Gallo, Apel e Favareto também foram objetivos em suas posições, não ficaram comendo mingau pela beirada, o que costuma ser a regra nesses debates. Mas fica-se com a certeza que o caminho vai ser comprido, há muito o que se fazer, em especial, há muito o que se estudar para sair-se da superficialidade.
5. Em especial, a escola continua sendo o alvo do dicionário das idéias feitas. Lucia Lodi teve toda a razão em chamar a atenção para o fato que a Filosofia não pode ir para a escola assim no mais, sem se dar conta dos problemas pelos quais passa o ensino no Brasil, em especial as dificuldades de ensino-aprendizagem.
6. No mais, há muitas diferenças importantes entre Sociologia e Filosofia. Enquanto os sociólogos falavam sem pudor em problemas trabalhistas e sindicais dos sociólogos, os filósofos apenas escutavam, pasmos. Para eles, que trabalham dentro de uma tradição de 2.500 anos, não faz sentido falar em sindicato de filósofos. Tampouco se pode falar em regulamentação da profissão...
7. Dos anões, como diria Mestre Guina, sou o menor; mas não me convidem para conversas gerais; nunca mais ponho meus pés em eventos que, em vez de ensino de filosofia, querem discutir apenas a filosofia do ensino.

Departamentos de Metodologia de Ensino

Uma das moções a ser votada no final do evento assim rezava:
"As disciplinas de Sociologia da Educação e Metodologia e Prática de Ensino em Sociologia devem ser ministradas por sociólogos e devem ser alocadas nos cursos de Ciências Sociais e respectivos departamentos de sociologia, bem como os cursos de Filosofia da Educação e Prática de Ensino em Filosofia devam ser lecionados especificamente por professores de Filosofia e devem ser alocadas respectivamente nos Cursos de Filosofia e não nas Faculdades de Educação das Universidades".
A redação não é boa, mas se entende o espírito. Em todo o caso, a votação da moções finais foi um dos momentos mais tristes do evento, pois era um arremedo de luta sindical com troca de acusações e disputas fúteis por detalhes.
O povo em geral ficou muito triste, pois muita gente foi para São Paulo, em pleno caos aéreo e na maioria dos casos em longas viagens de onibus, para discutir ensino, e o que se via era uma disputa tola por detalhes, sintoma de disputas entre tendências e posições políticas.

Metodologia severina

Antonio Joaquim Severino referendou as posições de Silvio Gallo. É preciso superar as posições idealizadas sobre o papel da filosofia, da educação e da escola; não podemos esperar delas mais do que podem dar, como se ouve por aí nos diversos salvacionismos invocados para solucionar os problemas da humanidade; a filosofia não pode ser confundida com messianismo ou chave universal. Ela deve estabelecer uma parceria com as demais disciplinas escolares, em espírito inter e multidisciplinar; o professor de filosofia deve conviver com a prática efetiva das demais disciplinas, conhecer seus conteúdos, acompanhá-los. A Filosofia, mais do que um acervo de habilidades ou de erudição, deve representar, no currículo, uma possibilidade de amadurecimento da experiência conceitual do educando. Nesse sentido Severino acompanhou as posições de João Carlos Salles Pires.
Os debates foram razoáveis; faltou tempo, pois a sessão começou muito tarde. Houve de tudo um pouco; as críticas a Deleuze e a essa idéia de "criação" de conceitos (que de resto havia sido amenizada por Gallo que falou, em certo momento, em "recriação" de conceitos; os projetos pedagógicos das escolas são documentos apenas formais, que nada refletem de um planejamento conjunto, coisa que se deve buscar; esse tema foi objeto da fala da presidente da Anfope, profa. Helena, que não deixou de lembrar as dificuldades e impasses na formação de professores.

A mesa da metodologia

O cardápio da mesa de metodologia foi servido por Silvo Gallo e Antonio Joaquim Severino. Foi de bom tamanho, não ficaram atrás da outra mesa. Silvio Gallo começou dizendo que é impossível dissociar o quê e como ensinar, no caso da Filosofia. Que a Filosofia não é uma só, e que precisamos tomar partido para não cair no ecletismo. Devemos declinar de qual perspectiva filosófica falamos, é preciso tomar uma posicão sobre o que é Filosofia. Entende que há três eixos para o currículo: temático, histórico e problemático. Quanto a ele, entende a Filosofia na perpectiva de Deleuze e Guatari, como atividade de criação de conceitos. Ele considera boa essa posição pois ela entende a filosofia como uma atividade de pensamento, define o objeto e o produto da mesma - o conceito - e tem a pretensão de validade universal, delimitando o campo de ação da Filosofia, criacão de conceitos. Considera que essa posição supera a armadilha contida na definição da filosofia como atitude, pois ficar nisso implica uma perda de conteúdo filosófico; evita-se, também, o conteudismo absoluto, que faz do ensino de Filosofia uma transposição de conteudos prontos. Não basta ensinar conceitos prontos, há uma pedagogia do conceito, um exercicio da paciência do conceito, contida na posição de Deleuze, entende Gallo. Depois disso ele expos os quatro passos metodológicos: a sensibilização, a problematização, a investigação e a finalização. Em primeiro lugar a aula consiste na mobilização do estudante para um problema filosófico, com os mais variados recursos, de modo que ele crie empatia com um problema; vale até usar um rap, diz ele. No segundo momento o tema vira um problema; no terceiro o estudante pesquisa na história da filosofia os conceitos criados sobre o tema; no final ocorreria a recriação do conceito do filósofo, no qual o estudante pode, em algum sentido, inventar ou reinventar um conceito que faça sentido para ele. Com isso se pode ver o professor de Filosofia como um intercessor ou mediador, que sai de cena no minuto final.

A mesa dos conteúdos


No dia 23 à tarde tivemos a mesa sobre conteúdos de ensino, na qual falaram João Carlos Salles Pires e Celso Favaretto. Salles perguntou aos participantes - eram umas trezentas pessoas - quem ali havia lido todas as Orientações Curriculares do MEC. Apenas uma moça levantou a mão. Salles convidou todos a conhecer a totalidade dos documentos, e não apenas o documento da Filosofia, em defesa de uma forma de trabalhar com Filosofia que valoriza a contextualização da escolarização do estudante. Explicou que os conteúdos listados no documento da Filosofia são sugestões que originalmente destinavam-se a avaliar os currículos de graduação, e que não devem ser pensados como conteúdos mínimos de ensino; reforçou os argumentos contrários à política de livro didático privilegiado e em favor de antologias ou livros de referência; as respostas que podemos dar sobre o que ensinar, para um país do tamanho do Brasil, são "precisamente vagas". Salles defendeu uma maior aproximação entre o sistema de pesquisa, composto pela rede de Departamentos e dos cursos de pós-graduacão em Filosofia, e o ensino de Filosofia no médio; contou que ele mesmo está empenhado em trabalhos de formação na Bahia; sem esse tipo de política haverá um progressivo distanciamento com consequencias ruins para ambos.
Celso Favaretto falou a seguir, abordando o tema das condições concretas para a legitimação da disciplina de Filosofia nas escolas. Como podemos e devemos pensar a filosofia disciplinarmente, em termos de aprendizagens filosóficas desejáveis e possíveis para alunos de ensino médio? Reconhecendo as dificuldades de se pensar em conteúdos de filosofia, já que ela, acima de tudo oferece uma certa experiência de pensamento, uma certa orientação de pensamento, ele teve a coragem de se perguntar de seria possível a gente chegar a um acordo sobre algumas funções e conceitos gerais, "coisas muito gerais, muito de base", certos conjuntos mínimos de regras, processos, procedimentos fundamentais, presentes nas argumentações humanas, para, a partir daí, se chegar inclusive aos textos e à história da filosofia. Conceituar, argumentar e problematizar seriam uma tríade de procedimentos a ser focados, valorizando-se uma certa inseparabilidade entre conteúdos e procedimentos filosóficos. Celso não defendeu um consenso sobre conteúdos mínimos, mas sim um acordo sobre uma formação básica que envolve o domínio de "regras de funcionamento que ligam os conceitos"; reconheceu o longo caminho que isso supõe que percorramos. Foi das melhores, a mesa sobre conteúdos.

Ensino Médio


Na mesa sobre ensino médio quem falou primeiro foi o Prof. Emmanuel Appel, que defendeu o ensino de filosofia no nível médio baseado nos textos dos filósofos: "A filosofia some sem os clássicos, cujos textos devem ser a primeira e a última referência do ensino de filosofia no nível médio". Essa posição, diz ele, deve representar um enfrentamento à indústria cultural e ao barateamento dos conceitos. Lúcia Lodi, do MEC, organizadora dos PCN e das Orientações Curriculares, fez uma bela apresentação sobre o estado de coisas no ensino médio, defendendo o alargamento do debate sobre o ensino de Filosofia e Sociologia. Ela explicou que a posição do MEC é pela constituição de bibliotecas escolares com obras de referência em Filosofia, sem a indicacão de manuais ou livros didáticos. O MEC vai apoiar a elaboração de um livro de referência para professores, sob responsabilidade da Anpof, mas sem a característica de livro didático. O terceiro palestrante sobre ensino médio, Edeum Sauer, da Bahia, falou sobre a falta de identidade do ensino médio - tema que havia sido abordado por Lucia -.
A posição de Apel foi recebida com receios, em nome do perfil do aluno de nível médio, eventualmente pouco afeito às leituras. Teve gente que foi direto ao ponto, dizendo que era contra essa coisa de ler os clássicos enquanto a barbárie campeava solta...
A soma das vontades individuais resultaria num impossível: uns querem que a Filosofia seja uma disciplina curricular com muitas horas de aula, enquanto outros gastam o verbo para falar contra o conhecimento fragmentado, disciplinar...

Primeiro Encontro Nacional sobre Ensino de Sociologia e Filosofia


Depois de um adiamento, finalmente saiu o encontro, entre 22 e 24 de julho. No domingo à noite tivemos apenas a mesa de abertura, sem o Ministro da Educação. Veio gente de todo o Brasil, desde Roraima até o Rio Grande do Sul, ao redor de 700 professores. A frustração foi grande, no entanto. As mesas específicas sobre ensino de Filosofia foram muito boas. Foram ótimas as falas de João Carlos Salles, Celso Favaretto, Silvio Gallo, Joaquim Severino na tarde de segunda e na manhã da terça. A mesa sobre ensino médio, com a Profa. Lucia Lodi, do MEC, Emmanuel Appel e Edeum Sauer, Secretário da Educação da Bahia, foi muito boa, mas o mesmo não se pode dizer dos debates, todo ele centrado em questões pouco pertinentes, voltadas para o mundo sindical de São Paulo. A APEOESP é o maior sindicato de professores do Brasil, e tamanho poder se transforma em fonte de disputas contínuas entre as tendências internas. Isso prejudicou muito os debates e irritou profundamente os participantes, que esperavam uma honesta conversa e troca de experiências.

sexta-feira, julho 6

Odisséia


Conheço duas traduções da Odisséia para nossa língua. A mais famosa delas é a de Manuel Odorico Mendes (1799-1864), publicada pela primeira vez em 1928. Odorico é um maranhense, que fez seus estudos em Portugal e que veio a falecer na Inglaterra, literato, político, e tradutor. A sua versão da Odisséia foi republicada em 1996, numa edição muito bem cuidada, pela editora da USP. É dificílima de ser lida, por causa da sintaxe ali adotada.
Outra tradução foi publicada pela Abril Cultural, em 1981, feita por Antonio Pinto de Carvalho, a partir da tradução francesa. Já havia sido publicada pela Difel. Nunca fui estudioso de Homero e imagino que existam outras.
Saiu agora uma nova tradução, feita por Donaldo Schüler, em Porto Alegre, e publicada pela LPM. Ontem fui na Cesma e ela havia chegado, estava ainda na caixa. Gilmar fez a bondade de me vender os três volumes. Ela saiu em três pequenos volumes, o primeiro - Telemaquia - ao módico custo de sete reais. Comecei a ler ontem antes de dormir, para ver se engrenava. Foi dificil largar o livro. Hoje dei mais duas pegadas e terminei o primeiro volume.
O texto ficou ótimo, escorreito, esplendente, auroral e com hecatombes impecáveis, como dizia Homero. O tradutor, Schüler, adotou a forma de prosa e faz do Homero um legítimo contador de histórias, que a gente vai acompanhando com o maior encantamento.
O primeiro volume conta as atribulações de Telêmaco, filho de Odisseu/Ulisses, agoniado por obter notícias de seu pai, já que sua mãe, a paciente Penélope, sofre assédio dos pretendentes, certos da morte do herói; enquanto esperam a decisão da senhora, comem todas as cabritas da família. Telêmaco faz sua pequena viagem de herói, completando sua adultez na medida em que sai em busca das notícias do pai.
As novas gerações deveriam agradecer muito ao Donaldo pelo serviço.
Na ilustração, em um vaso grego, o jovem Telêmaco conversa com o velho Mentor, que o orienta...

sábado, junho 30

O Rei

Deu no The Economist desta semana:
"Lula's Workers' Party lacks a strong candidate to follow the president, who under the constitution cannot run in 2010 (but might be able to in 2014). For now, however, Lula stands supreme in Brazil. Rather than governing, he reigns above party while “Brazil is on automatic pilot,” says Gaudêncio Torquato, a political consultant in São Paulo. Unlike some of its would-be air travellers, at least it has taken off."

sexta-feira, junho 29

Cachorrada




Deve ter sido um caso de ferormônio. Ou foi só algum descaso? Eram na volta de dúzia, infernizando nos arredores da rótula da Ufesm, na sexta, meio-dia e pouco, bem na cara dos brigadianos. Na segunda de manhã, quem sabe, eles poderão ser vistos com mais calma, quando as gentes estiverem bem trancadas na avenida Roraima.

Arco trancado


Na segunda-feira, 1 de julho, os servidores "em greve" dão uma resposta ao endurecimento do Rei de Zilbra, que mandou descontar dos salários dos brevistas os dias descansados. Os brevistas vão fechar o arco de entrada da Ufesm. Eles acham que isso de trancar os salários é uma barbaridade, tchê, e dão o troco no tranco.
Em 1981 fizemos a primeira greve na Ufesm. Uma das primeiras providências que o Prof. Sérgio Pires tomou foi formar um fundo de greve. Todos sabíamos que fazia parte das estratégias do outro lado cortar o salário da gente.
Depois, deu no que deu.
Fizemos greve de mais de oitenta dias com o salário em dia.
Aí até alguns patetas como eu começaram a desconfiar que havia algo errado.
Mas a ficha não caiu para muita gente ainda.
Bem, eles não são patetas, são?
E assim vão fechar o arco da ufesm na segunda-feira e mandar um tucufum para o barbudo.
Enquando isso as amanitas vão florescendo.
Vou convidar os amigos para um chazinho.

quarta-feira, junho 27

Amanitas


Floresceram.
O campus da ufesm está de novo com amanitas em flor.
A 'amanita muscaria' (fly agaric), como se lê nas notas de Martin Gardner para a edição comentada de "Alice no País das Maravilhas", "tem chapéus de um vermelho vívido que parecem ter sido salpicados com pedacinhos de ricota." Ver a página 50 da edição da Jorge Zahar, capítulo 5, "Conselho de uma Lagarta".
Quem me deu a dica da localização foi Dom Bressan. A identificação vem do Carrol e do blog de um dos nossos estudantes de Filosofia, o "issoeocio".
Daqui a uns dias eu coloco mais fotos das amanitas no flickr. São lindas.

terça-feira, junho 26

"Alfabetização de segunda ordem".

Ando lendo as "Orientações Curriculares para o Ensino Médio", publicação do MEC em três volumes, 500 páginas no total. Representa, em algum sentido, o estado da arte em termos do pensamento curricular aplicado ao médio. Li tudo e fiquei surpreso com muitas coisas. Para a maioria delas gostaria de aplicar o dito de Cervantes, "no quiero acordarme". Uma das coisas que me chamou a atenção foi a insistência em se falar em "alfabetização científica", "alfabetização cultural", "letramento crítico" e assemelhados.
No documento da área de Biologia, por exemplo, está a seguinte definição para a “alfabetização científica”:
“Esse conceito implica três dimensões: a aquisição de um vocabulário básico de conceitos científicos, a compreensão da natureza do método científico e a compreensão sobre o impacto da ciência e da tecnologia sobre os indivíduos e a sociedade.” (Orientações Curriculares, p. 18).
No documento da área de Artes, temos a seguinte passagem: “(...) o que se chama de alfabetização cultural: possibilitar que o aluno desenvolva competências em múltiplos sistemas de percepção, avaliação e prática de arte”. (Orientações Curriculares, p. 177).
Com pequenas variações esse conceito está presente em outros documentos oficiais do ensino básico, desde dos PCN, creio eu.
A alfabetização em sentido estrito diz respeito ao domínio de habilidades de leitura e escrita na língua materna; se poderia dizer, trata-se do domínio pleno de um código. Não se deveria falar em "código", parece rebaixar a língua materna. É preciso falar em código, no entanto, porque o aprendizado da escrita e da leitura implica muitos conhecimentos de natureza para-linguística: a correspondência entre espaços no papel e intervalos de silêncio ou não-significatividade, a direção do olhar, o ponto do papel onde o olho começa, e por aí vai. Como entender essas outras alfabetizações? Eu proponho chamá-las de alfabetização de segunda ordem. Elas se referem ao domínio de conhecimentos e habilidades que supõem a boa realização da alfabetização em sentido restrito e que vão além do domínio de informações para memorização e mesmo aplicação; posso dominar um conjunto de noções científicas mas ter poucas habilidades quando se trata de ter uma atitude científica diante de um problema qualquer porque não compreendo adequamente a natureza do conhecimento científico. Grande parte do que chamamos de 'consciência crítica' nada mais é do que alfabetização de segunda ordem, espécies do mesmo gênero, como diria McGinn.
Seria possivel pensar que a ênfase que se vê por aí nisso que chamo de alfabetização de segunda ordem indica uma preocupação com aspectos da formação curricular que tem sido desatendidos e para os quais tornam-se necessárias estratégias de trabalho que vão além dos limites de cada disciplina em particular. São raras, no entanto, as iniciativas de formação e o desenvolvimento de competências em desenho curricular que visem exatamente tal área de conhecimentos e habilidades. Aqui entraria uma honesta aula de Filosofia na escola média.
Fica aqui o copiráiti: "alfabetização de segunda ordem".

Saber sem crer

Uma das indicações dada pelo McGinn para reforçar sua tese, que em algum sentido da palavra "conhecer" a crença não fica implicada é um livro de Jonathan Bennett, Linguistic Behaviour, publicado pela Cambridge em 1976. Alguém tem? O ponto de partida do McGinn, como se sabe, é a constatação das variedades do conhecimento: saber como, saber quem, qual, onde, saber de, e, certamente, saber que p. Sua intuição é que o "'saber-que' surge como uma espécie de algum tipo mais básico de conhecimento". A nave-mãe do conhecimento é o que ele chama de "discriminative capacity".
Voltando ao Bennett. Na teoria do significado apresentado no livro, de acordo com um apresentador de seu livro, Bennett oferece uma elucidação sobre como podemos explicar de forma razoável e teleológica alguns aspectos do comportamento de criaturas desprovidas de linguagem, em termos de seus objetivos e do que ela 'registra'. "Registrar, diz o resenhista - e aqui apenas estou traduzindo - é um conceito primitivo introduzido por Bennett; registrar, diz ele, torna-se crença quando certas condições de educabilidade e (talvez) e de questionamento (inquisitiveness) se dão. Bennett mostra de forma convincente de que modo o comportamento pode tornar razoavel atribuir-se progressivamente mais crenças complexas e intenções a criaturas desprovidas de linguagem; crenças gerais, crenças acerca do passado, crenças e desejos acerca das atitudes dos outros, e finalmente, as atitudes requeridas para um caso de significado de falantes." O Alexandre, no comentário do post abaixo, lembra a possibilidade de se pensar a crença como uma relação direta com o mundo e com isso se preservar a dependência entre conhecimento e crença. Não consegui pensar isso adiante.
Dias atrás fiquei pensando que no final das contas se trata de uma coisa completamente simples. Bertrand Russell pubicou um um livrinho chamado "Deixa o povo pensar" (Let the People Think), uma seleção de ensaios. Em um deles, chamado Free thought and official propaganda" ele sugere que as escolas primárias deveriam ensinar a arte de ler os jornais com incredulidade. Afinal, diz ele, tem gente que pensa que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas, confundem a verdade com o corpo doze.

sexta-feira, junho 15

Podemos saber sem crer?

Nove entre dez filósofos dirão que isso é uma bobagem, pois evidentemente o saber supõe a crença, como reza a definição tradicional de conhecimento. Mas é essa, em algum sentido - eu friso, em algum sentido!!! - a tese implicada pelo artigo do McGinn mencionado na postagem anterior. Nessa postagem faço uma correção do final do trecho traduzido e acrescento o final do parágrafo. Demorei alguns dias para fazer isso pois havia perdido de vista o artigo. Agora já posso fazer uma cópia para a Gisele, que se interessou pelo mesmo.
Aqui vai:

"Mas o que acontece com o conhecimento proposicional? Ele não implica a crença? As considerações anteriores me encorajam a duvidar que isso ocorra: o que é exigido pelo conhecimento-que é algum tipo de atitude proposicional , mas precisamos de um argumento para nos persuadir que esta atitude deva ser a da crença. Por que não exigir somente algo como registrar e reter a informação que p, onde essas 'atitudes' são concebidas como estados cognitivos sub-racionais? Quando dizemos que o rato sabe que o gato está atrás da porta, não implicamos que ele acredita que o gato está lá; implicamos apenas que os sentidos do rato funcionaram para registrar a informação que o gato está lá. Isso me parece uma elucidação plausível de nossas práticas com tais atribuições, e ela está em harmonia com a análise do conhecimento como uma capacidade discriminativa. Se isso está correto, então o conhecimento proposicional é também mais primitivo que a crença; ele não é, como a tradição supôs, uma forma de crença especialmente rarefeita, que apela para alguma faculdade cognitiva mais elevada do que a mera crença; ao contrário, ela é uma condição que mesmo animais não-racionais podem aspirar.”

Nos dedos!

quarta-feira, junho 13

Sobre conhecimento e crença: Colin McGinn

O texto que segue é de Colin McGinn. É um trecho de um artigo intitulado "O Conceito de Conhecimento", publicado pela Midwest Studies. Eu o traduzi por provocante, como material de reflexão para, entre outras coisas, alimentar os pensamentos sobre o "minimalismo" no debate sobre "consciência crítica". Acho que uma renovação no ensino de filosofia no nível médio é simplesmente impossível sem uma renovação da bibliografia básica disponível em nosso país. O que se lê sobre tópicos como esse nos melhores manuais disponíveis na praça não é bom.

"Se a noção raiz de conhecimento é a noção de uma capacidade discriminadora, então não será uma surpresa que o conhecimento seja logicamente independente da crença. Que o conhecimento não implica a crença parece óbvio para o conhecimento não proposicional, dado que a crença é uma atitude proposicional, e esses outros tipos de conhecimento não são atribuídos completando-se ‘saber’ com uma clausula-que; se eles envolvessem crença, isso teria que ocorrer indiretamente. Parece-me, então, que estamos preparados para fazer atribuições literais de saber-como, saber-qual e saber uma coisa a partir de outra à criaturas cujo status como crentes (believers) nós somos (corretamente) relutantes em reconhecer; dizemos sem forçar (without strain) de várias espécies de animais que eles tem um tipo de conhecimento não-proposicional, muito embora um elemento de metáfora se ligue a qualquer atribuição de crença a eles. A razão dessa diferença é, eu sugiro, esta: a posse de crenças autenticas pressupõe a capacidade de raciocinar, de pesar evidencias, tirar inferências, e assim por diante; mas o conceito de conhecimento per se exige apenas uma capacidade de discriminar, de responder diferencialmente – e este tipo de capacidade é possível na ausência de uma capacidade de raciocinar.
Conhecimento, portanto, é uma realização sub-racional, enquanto que crenças são essencialmente estados cognitivos que são formados e interagem de acordo com os ditames da racionalidade. Nesse sentido, o conhecimento está junto à percepção (e também à memória), pois a percepção é também possível na ausência da crença e do raciocínio; muitos animais dos quais podemos dizer que vêem, ouvem, cheiram, etc, o que está acontecendo ao redor deles, não podem ser considerados sujeitos de crenças. Tais animais podem, é verdade, ser considerados portadores de estados informacionais que são, se você quiser, análogos à crenças genuínas; mas processar informações sobre o meio-ambiente não é a mesma coisa que raciocinar sobre ele. Assim, tanto a percepção e o conhecimento são, num sentido claro, mais primitivos do que a crença. O conhecimento e a percepção predam a crença na história evolucionista.
Mas o que acontece com o conhecimento proposicional? Ele não implica a crença? As considerações anteriores me encorajam a duvidar que isso ocorra: o que é exigido pelo conhecimento-que é algum tipo de atitude proposicional , mas precisamos de um argumento para nos persuadir que esta atitude deva ser a da crença. Por que não exigir somente algo como registrar e reter a informação que p, onde essas 'atitudes' são concebidas como estados cognitivos sub-racionais?...”

(Publicado em MIDWEST STUDIES IN PHILOSOPHY, IX, 1984)

Deflacionismo

Teorias deflacionistas tornaram-se populares na Filosofia. O caso mais relevante parece ser o que cerca a discussão do conceito de "verdade". Para finalidades de ensino de Filosofia venho tentando caracterizar o que chamei de concepção deflacionista de "consciência crítica". Como se sabe, o conceito de "formação de consciência crítica" tem sido um cavalo de batalha para muitos defensores do ensino de filosofia para jovens e crianças. Essas palavras, no entanto, perderam o gume, o canto e a plumagem, como diria Rosa. Deveríamos ser capazes de trocá-las em miúdos, como se diz, para renovar nossa compreensão do tema. O "pacote crítico", no entanto, tem muita coisa dentro, alhos e bugalhos, e separá-los não é fácil. Fiz uma postagem maior sobre o tema no outro blogue, para começar a conversa e apontar ao menos uma característica de tal compreensão deflacionista de "consciência crítica". Como diria o Prof. P., ela é um tanto desapontadora; mas é assim que são as tais "teorias" filosóficas...

quinta-feira, junho 7

O som e a fúria

Na quarta-feira, 6, por volta do meio-dia, um carro de som foi estacionado nas imedições da Afatec e um grupo de estudantes se revezou ao microfone, até por volta de três horas da tarde gritando palavras de ordem contra o que eles caracterizam como a contribuição da cuja para a "privatização da Ufesm". Alguns postes atrás transcrevi um panfleto no qual eles colocavam a afundação na alça de mira do movimento estudantil, falando em "corrupção".
Não entendo muito desses assuntos, mas parece que a coisa funciona mais ou menos assim: o projeto "x" é aprovado pelo financiador, o dinheiro vem para a Ufesm, entra na conta da Afatec e o trabalho começa. O executor do projeto, um professor da Ufesm, começa a tocar o barco; vai na empresa ou na loja que tem uma coisa que ele precisa e simplesmente a adquire ou contrata; a firma tira a nota, em nome da cujatec e passa na boca do caixa para receber. A atenção plena do executor parece ser a coluna vertebral da coisa; se ele se distrai, pode sair uma nota mal preenchida ou um serviço mal-executado.
Dizem que em Boca do Monte fechada não entra mosquito.
Entrou. Até os dormentes dos trilhos da Boca do Monte estão cansados das histórias de notas fiscais certificadas na base do olho grosso e úmido.
Vai longe esse tema, pelo jeito.

Ensino de Filosofia

Para os interessados sobre ensino de filosofia, coloquei um texto no outro blogue sobre a pretensa oposição entre a turma da lógica e a turma da política, no que diz respeito à escolha de temas para o nível médio. O material que eu coloquei ali está, como se diz, em construção. Use moderadamente.

domingo, junho 3

Tetas


Tinha nada para fazer, liguei o automático e deu o rumo da ufesm no domingo de tarde e sol. Cruzo na ponte sem rio, vejo a barrosinha pastando flor azul no verde. Pouco sei das marcas, parece uma jérsei - nem tudo que parece é, como dizem as otoridades - e ela está ali, amarrada por uma cordinha de nylon num toco bem cravado no gramado. Ela pasteja na sombra, chego perto, me olha com curiosidade e vem chegando demansinho. Se lhe permito ela gruda o focinho lambido na lente da máquina. Lhe pergunto, ô dona vaca, aqui nessas proximidades do prédio da química - ou seria das comunicações sociais - que surprêsa, não lhe pergunto o que faz por óbvio, ela pasta o que o tratorzinho lhe deixou, que a grama está baixa, lhe pergunto dona vaca, de onde vem, para onde vai, depois dessa pastada? E ela me olha, parece que com vontade de me contar alguma coisa, mas meneia a cabeça, quem sabe dessas coisas, e ruma para o pauzinho onde está amarrada a corda.
Eu fico ali como um pateta olhando as tetas gordas da vaca.
Na segunda-feira, quem sabe, ela vai dar seu leite para alguma criancinha aqui na beirada do campus.
E eu concluo que há muito mais coisas entre a ufesm e as tetas da barrosinha do que sonha a minha pobre filosofia.

sábado, junho 2

Afasta de mim esse vinho!

Não foi longe, como eu pensava. O Conselho Universitário cedeu à pressão dos ocupantes da Reitoria e retirou de pauta o processo que previa a venda do antigo hospital. Acabou uma função mas parece que outra está recém começando. A gurizada ocupante da Reitoria pedia, entre as reivindicações, que a Fatec fosse investigada (veja post abaixo). Deviam ter alguma informação privilegiada. O Diário da Boca do Monte de hoje dedicou duas páginas para as relações entre a Ufesm e sua dileta afundação, a Afatec. O título da matéria é esse: "Ministério Público investiga contas da Ufesm". A preocupação do Ministério Público é com o fato que o INEP contratou os serviços da Ufesm (do Cepedê), pagou 4,3 milhões para a criação de um software e desse troquinho 2,3 foram gastos em coisas que aparentemente não tem relação com o objeto do contrato, como pacotes turísticos para Sergipe, garrafas de vinho e carne para churrasco. Entrevistado pelo Diário, o ex-reitor da Ufesm garante que não bebeu uma gota de vinho. "Posso garantir que não bebi nenhuma gota de vinho".
Há quem garanta mais.
Que isso é só a pontinha do iceberg. Nesses tempos de aquecimento global o vinho está esquentando. O Ministério Público estaria de olho em outras facilidades que as administrações superiores criaram por meio da afundação, sem falar em outras prestações de contas entaladas no Tribunal de Contas.
Eu disse "dileta" acima, porque agora cresce a olhos vistos a outra afundação, que atende pelo nome de Afundae, para onde estão migrando recursos e nomes poderosos da cidade e da Ufesm. De modesta padaria, a Afundae está virando um supermercado.
Depois do affaire das antenas, o Diário da Boca achou, como a gurizada dizia antigamente, uma moca de notícias.
Mas felizmente, como diz um dos entrevistados, "nem tudo que parece, é."

quarta-feira, maio 30

Vai longe




Imagens do saguão da Reitoria. As barracas apenas começavam a ser instaladas. Pelo que vi não pretendem sair muito cedo.

As bandeiras


Ali vão mais alguns alunos, carregando os colchões. Eles pretendem ficar bastante tempo, ao que parece. No meio da tarde alguns grupos passaram em salas de aula, pedindo auxílio em forma de comida, por exemplo. O mosquitinho pedia a doação de arroz, macarrão (tipo parafuso), guisado de segunda, óleo, cebola, molho de tomate, geléia, manteiga, açúcar, café solúvel, chá mate, farinha de mandioca, farinha de trigo e batata inglesa.
Há muito amido e pouca proteína nessa dieta.
Um estudante me passou o panfleto com as reivindicacões. A mais importante dela é o "cancelamento imediato das negociações de privatização do Prédio de Apoio". Depois dela vem a ampliação do RU. E na sequência, mais vagas na casa do estudante para a pós-graduação, conversão de bolsal de trabalho em bolsas de ensino, pesquisa e extensão, ampliação da biblioteca, ampliação das bolsas de iniciação científica e por aí vai. Há um item que pede "o fim da corrupção da FATEC, segundo indícios já levantados pelo Ministério público Federal".

Reitoria ocupada


Desde hoje a tarde estudantes da UFSM ocupam o saguão da Reitoria da UFSM. Vão passar a noite por lá. Instalaram barracas no saguão do prédio e montaram um fogão para fazer a janta. Quando passei por ali, depois de minha aula, haviam uns quarenta estudantes, muitos já com cobertores e colchões para se garantir, que a noite promete ser fria. Pelo que entendi, a decisão de ocupar a Reitoria foi tomada hoje, na assembléia feita ao meio-dia, no RU, e materializada no meio da tarde.

quinta-feira, maio 24

Temporada de Outono


Está aberta a temporada de outono de 2007. Na terça-feira, desde as sete horas da manhã, servidores da UFSM fizeram o tradicional funil de panfletagem, para expor as razões da indignação com as "malvadezas do Governo Lula", como dizia uma senhora no megafone. Indicam o início de uma greve no dia 28 próximo, segunda-feira. A pauta, pelo que se comenta, está distribuída entre a revolta por uma classificacão de cargos muito mal feita para os servidores de nível superior e as costumeiras bandeiras gerais, entre as quais as famigeradas acusações de privatização disso e daquilo. No momento, o alvo da vez são os hospitais universitários. Parece não vai ser greve de bojo, isto é, no geralzão do serviço público, e sim localizada nas Ifes. Vai ter jogo duro, então. De um lado, é muito possível que um grupo forte-firme-e-coeso de servidores sustentem um núcleo de paralização que, congelando o RU e a Biblioteca causam um barulho danado. De outro, o Lulinha deixou de lado a paz e o amor e disse, faz poucas horas, que servidor público que faz greve e recebe salário na verdade está em férias, e acena para o corte de salários. Porta-vozes do MEC anunciam que a greve é um "problema de governo", o que significa que fica descartado um tratamento em casa, à boca-pequena.
Na sequencia, por volta de onze e meia de hoje, os estudantes trancaram a ponte da avenida principal da Universidade. Era uma assembléia de protesto contra aquilo que está escrito ali na faixa: ampliar o RU, não vender o prédio de apoio. Dali seguiram em passeata até a Reitoria onde passaram a tarde da quinta-feira rufando tambor e ufanando as causas.
Semana que vem deve ter mais, como é tradição no outono.

domingo, maio 20

Estado Laico

Domingo, meio-dia e vinte. Ligo na Rádio Universidade, 800 AM. Um pastor prega, fala sobre as atividades da sua Igreja. A Rádio da Ufesm decididamente entregou parte de sua programação para algumas confissões, e faz isso diariamente, com mais intensidade aos sábados e domingos.
Com a visita do Papa, voltou o debate sobre o estado laico. Por aqui, ao que parece, a voz da assembléia de Deus vai bem obrigado, nas ondas da Rádio. Que negócio é esse de estadolaico?

Iris Murdoch

O sítio "Crítica na Rede" (criticanarede.com), coordenado por Desidério Murcho, acaba de publicar minha tradução de Iris Murdoch, "Sobre Deus e 'Bom'".

quinta-feira, maio 17

Castoriadis e as profissões impossíveis

Tem mais sobre as "profissões 'impossíveis'" no blog sobre ensino de filosofia, link ao lado: uma releitura do "métèque" Castoriadis.

O Labirinto do Fauno


Levei um soco no estomago meses atrás, quando um estudante de Filosofia deixou escapar que sonhava com um sistema educacional no qual não houvesse lugar para contos de fadas e papai noel, no qual predominasse a realidade, simplesmente. Meu estômago ainda dói ao lembrar essa conversa e talvez o do aluno também, espero. Lembrei ao estudante que um tal sistema roubaria das crianças a própria infância, mas ele não me pareceu comover-se muito; nos despedimos e pensei em tratar do tema de forma mais demorada e sutil em outro momento. Enquanto pensava nessa condenação da imaginação humana li um texto muito bonito do Daniel Galera sobre o filme "O Labirinto do Fauno", de Guilhermo del Toro, que poderia ser o recomeço dessa conversa. Quem sabe a gente passa o filme no Curso uma hora dessas?
Vai aqui o texto do Galera:
“O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, é o filme mais triste que já vi. Saí do cinema massacrado, e acho que o mesmo deverá ocorrer com qualquer pessoa cuja história pessoal esteja profundamente contaminada pela fábula (não no sentido de fábula infantil com moral, mas no sentido mais amplo de narrativa imaginada, de aceitação visceral da fantasia como um dos componentes essenciais da vida). Muitos vão gostar do filme - é graficamente lindo, é cruel e sádico, é assustador (contendo, inclusive, a criatura fantástica mais assustadora que já vi na tela), é protagonizado por uma menina adorável, tem excelentes atores no todo, comove qualquer um até a medula e consegue, sem ser chato em nenhum instante, combinar tudo isso com uma abordagem extremamente rancorosa dos traumas da guerra civil espanhola. Mas suspeito que apenas alguns sairão abalados pelo golpe final, uma declaração quase insuportável de que a realidade e a imaginação estão divididas por um abismo instransponível e já não podem ajudar uma à outra nos dias de hoje; de que só resta, à imaginação fantasiosa, a nobre função de fuga dos horrores da vida real; de que uma e outra não podem mais andar de mãos dadas. A ficção está morrendo, ou, para não soar dramático demais, cada vez mais perdendo o valor (”O seu livro é autobiográfico?”, me pergunta um fantasminha nesse momento, com um sorriso cheio de sarcasmo estampado na cara - ele sabe, como eu, que a resposta não existe). É um diagnóstico doloroso, que consegue ser belo somente no sentido de que temos um autor de cinema capaz de reconhecer o estado moribundo em que se encontra a fábula e de transformar esse triste fato num filme implacável."

quarta-feira, maio 16

Orientar as crianças

Postei no outro blog, sobre ensino de Filosofia, as passagens de Freud sobre as profissões impossíveis; foi junto uma frase dele sobre o objetivo da educação.

segunda-feira, maio 14

Jacques Bouveresse e a patrulha ideológica

Aos poucos Jacques Bouveresse é publicado no Brasil. Há dois livros dele por aqui, "Prodígios e Vertigens da Analogia - o abuso das belas letras no pensamento" (Ed. Martins Fontes) e "O Futuro da Filosofia", Editora Atlantica. Nascido em 1940, professor no Collège de France, foi dos primeiros franceses a estudar seriamente Wittgenstein, e tem um punhado de livros dedicados a ele. Agora publicou na França um livro sobre um tema muito atual: "Podemos não crer? Sobre a verdade, a crença e a fé". No domingo, ontem, a Folha publicou uma entrevista com ele. Selecionei alguns trechos:
"FOLHA - O filósofo Renan não identifica o progresso ao desaparecimento gradual da religião e "pensa não somente como uma possibilidade mas como certo e inevitável, como um progresso da religião". O sr. pode explicar o que ele via como progresso da religião?
BOUVERESSE - Renan pensava que as religiões nasceram pelo fato de a humanidade ter necessidade de saber, num momento em que não dispunha ainda de meios suficientes. A força da ciência está justamente em ser capaz de esperar e, enquanto espera, renunciar a toda certeza prematura.
Quando se torna possível saber, necessariamente a religião se transforma, mas não há nenhum motivo para pensar que ela desaparecerá, e Renan não desejava que ela desaparecesse.
O que é difícil é saber o que subsistirá da religião tradicional e se isso merecerá ainda o nome de "religião". Para Renan, que identificava a oração à especulação racional, um pensador autêntico não pode deixar de ser, no fim das contas, um homem religioso num sentido que ainda é, provavelmente, indeterminado.
O progresso da religião, tal qual ele o concebia, consiste numa redução progressiva da religião ao seu núcleo racional.
A única religião aceitável e a que ficará no fim das contas é o que podemos chamar a "religião da humanidade" (em vez da religião da divindade)."
(...)
"FOLHA - O senhor cita Habermas, que escreveu: "As tradições e as diversas religiões conquistaram uma importância política nova, inesperada até hoje, desde a mudança marcante dos anos 1989-1990". A volta da religiosidade e o crescimento dos fundamentalismos de toda espécie seriam, então, conseqüências do fim do comunismo e da utopia da construção do paraíso na terra?
BOUVERESSE - Não são unicamente conseqüência do desmoronamento do comunismo.
Mas, na medida em que este funcionava em grande parte como uma religião da salvação de caráter leigo e profano, sua derrocada deixou um vazio que um retorno à religião, no sentido tradicional do termo, pode dar a impressão, certa ou falsa, de estar em condições de preencher."
(...)
"FOLHA - Existe hoje uma patrulha ideológica contra os não-crentes?
BOUVERESSE - Hoje, são freqüentemente os não-crentes que podem parecer atrasados (que são acusados de defender posições consideradas "cafonas", o que, hoje, é considerado o argumento mais consistente).
Mas isso não é o mais preocupante, e sim o fato de que não são as pessoas que crêem cegamente que são vistas como intolerantes, mas, sim, as que não crêem e que pedem justificações e provas.
No mínimo, o que se pode dizer é que a credulidade leva mais facilmente ao dogmatismo e à violência do que o ceticismo."

Na próxima postagem tem mais.

sábado, maio 12

O Senhor Keuner

"Ao acabar de ler um livro de história da filosofia, o senhor K. emitiu um juízo desfavorável sobre as tentativas dos filósofos para apresentar as coisas como fundamentalmente incognoscíveis. “Quando os sofistas afirmavam que sabiam muito sem ter estudado nada”, disse ele, “surgiu o sofista Sócrates a garantir com arrogância que apenas sabia que não sabia. Esperava-se que acrescentasse à frase: porque eu também não estudei. (Para se saber alguma coisa há que estudar.) Parece, no entanto, que nada mais disse, embora os estrondosos aplausos a essa primeira frase, que duraram dois mil anos, chegassem para abafar qualquer outra frase que viesse a seguir.”.
O texto acima é do Bertoldo, o Brecht, aquele chato que, entre outras coisas, não tinha medo de meter a mão nessas coisas.
(O texto está no livro "Histórias do Senhor Keuner". Tradução de Luís Bruhein, Hiena Editora, Lisboa, 1993).

Somente o amor impossivel é verdadeiro

O programa do Sétimo Forum Sul sobre Ensino de Filosofia informa 128 comunicações. Destas, apenas duas trazem palavras como "currículo" ou "didática" no título. O autor mais estudado foi Kant, que consta em 7 comunicações. Nenhum pedagogo ou psicólogo (exceto Paulo Freire, uma vez) foi objeto de estudo. O grande tema do encontro foi a impossibilidade de ensinar filosofia. Como disse um dos professores de além-mar, Prof. Giuseppe, da mesma forma que somente o amor impossível é verdadeiro, é impossível ensinar filosofia, pelo que essas conversas sobre didática da Filosofia são fiadas.
Então tá.
Começou assim.

terça-feira, maio 8

Chão da Escola

Saiu o livro "Filosofia e Sociedade: Perspectivas para o ensino da Filosofia", organizado por Sergio Sardi, Draiton Souza e Vanderlei Carbonara, publicado pela Editora Unijuí. Já tenho meu exemplar, gentilmente enviado pela Editora. Esses rapazes de Ijuí são incríveis! Com uma infra-estrutura muito enxuta, fazem proezas como essa! O livro tem 568 páginas, um tijolaço.
Folheei o livro. Fiquei com a impressão de haver mais filosofia e sociedade do que perspectivas para o ensino de filosofia, na linha do que venho dizendo faz muito tempo: mingau pela beirada. Poucos autores dialogam com o professor que está na sala de aula; a maioria quer aprofundar o debate teórico, como se diz. A menor seção é justamente a de "praxis do ensino de filosofia".
Vou ler com cuidado e volto.

Minima Moralia

Antes de começar a escrever seu manual de Filosofia para as escolas de Zilbra, ele abriu Minima Moralia ao acaso e deparou-se com a seguinte passagem: "Aquele que ajuda porque sabe mais torna-se alguém que humilha os outros com o privilégio de quem pretende ter sempre razão".
Ele sentiu correr um fio de frio pela espinha.

segunda-feira, maio 7

"Daqui para frente"

Deu no Jornal do Comércio, no dia 17 de abril passado: O título era "Primeiras medidas":
"O presidente do Detran, Flávio Vaz Netto, confere hoje em Santa Maria o Programa Trabalhando pela Vida, onde são executados os procedimentos para a obtenção da CNH. Inspecionará o centro de pesquisa ligado à Universidade Federal de Santa Maria. Vaz Netto quer transformar o Departamento de Trânsito em modelo de gestão, tarefa que será desenvolvida daqui para a frente pela Fundae."
Daqui para frente é com a Fundae.
O assunto é de foro interno da Ufesm, alguém diria. Ou do Governo da dona Ieda?
Nesse caso, alguém lembra de algum TV Campus sobre o tema? A comunidade agradeceria saber mais sobre esse triângulo amoroso, para espantar as naturais curiosidades mal-sanadas.
"Centro de pesquisa".
Eita frio danado, só mesmo indo no mercadinho da esquina e comprando um Sangue de Boi.

Afundações

Na Folha de domingo, dia 6, Maria Sylvia de Carvalho Franco critica a interferência do governo estadual de São Paulo na gestão das políticas de ensino superior. Lá pelas tantas ela escreve que "via fundações, as universidades públicas privatizam-se, mediante convênios, suplementos salariais e cursos pagos. Para bem ou mal, todo o complexo até agora esteve sob asas acadêmicas. Não mais. Atentem para esse detalhe, os adeptos do modelo."
Como se sabe, aqui na Ufesm a gente convive com esse modelo, que começou mais para bem. Não conheço muito, posso falar pouco; lendo a Sylvia lembrei de ter lido ou ouvido algo que o Detran do RS teria rompido o convênio firmado com a Fatec, por volta de 2004. É dinheiro grosso, na época os jornais disseram que entraria por mês um milhão e meio de reais na Fatec. Leia matéria do Diário de Santa Maria, do dia 23 de julho de 2004: "A Fatec recebe cerca de R$ 1,5 milhão por mês do Detran, que encaminha à fundação parte do que é arrecadado nos centros de formação de condutores (as antigas auto-escolas). Parte desse montante - 7,5 % - vai para a universidade, que recebe, em média, R$ 100 mil mensais." De google em google descobri, se entendi bem, que agora a conveniada é a Fundae, daqui de Santa Maria também.
Pobre Maria Sylvia, da missa sabe quanto?
Se ela soubesse o frio que faz por aqui não se queixaria tanto.

Verde

O post abaixo saiu verde assim porque o bloguista havia tomado muito chimarrão. Desculpem.

Manual de Filosofia em Zilbra

Vai ter filosofia em Zilbra. Em Zilbra, quem menos corre anda de avião. Mais de um grupo de professores já deu as caras no Ministério da Educação, em Zilbrápolis, para fazer propostas de manuais de ensino de filosofia para todo o país. Outros grupos, mais moderados, pretendem se reunir brevemente para, como se diz, "tirar um programa mínimo unificado" de ensino de Filosofia e Sociologia, para todo o Zilbra. Mais ao sul, na Província de São Pedro, faz frio. O clima é ótimo para filosofar, aqui no Sul.
Esses assuntos de ensino são muito chatos, comenta-se aqui no Sul.
Deleuze-me uma preguiça daquelas!
Acho que a gente devia votar.
Quem quer manual levanta a mão!
Quem quer programa, levanta a mão!
Quem está com preguiça levanta a mão!
Depois disso a gente colocava todos esses aí no mesmo avião e deixava-os nas mãos dos controladores de vôos.
E largava toda essa gente a voar por aí.
E se sobrasse alguém que ainda quem quisesse trabalhar, a solução seria ir para as escolas de Zilbra, conversar com os professores e ver o que dá para ser feito.
Tem uns que pensam que currículo é aquele negócio que lattes mas não morde, e o negócio é faturar um manualzinho depois de outro, que a professorada é burra mesmo; outros pensam que lista de assuntos é um negócio muito do progressista, um derridá por aqui e um sartre por lá que tudo vai melhorar. Me dá uma preguiça aí que já estou cansado, dizem os terceiros.
Eita Zilbra. Como diria o Marquês, vai ser preciso muito mais do que um esforço...

Marcia Angelita


Marcia Angelita Tiburi esteve em Santa Maria, na Feira do Livro, no sábado, tardezinha, o sol deixava essa pouca luz para fotografar; ela vinha muito aqui nos tempos dos seminários de estética do Prof. Hamm. Antes do lançamento deu fala nos jornais, elogiou a presença da Filosofia no vestibular aqui da casa e ganhou de novo minha simpatia. Eu, que torço por ela no Saia Justa (e pela Soninha...) torcia para que os feirantes fossem generosos; pois não é que a moça vendeu exatos trinta exemplares e virou uma das recordistas?

quarta-feira, abril 25

Um texto fundador

Hoje à tarde fui procurar um texto de Martha Nussbaum para reler e passar para os alunos. Não achei o que eu queria, me pus a ler outro, da mesma autora, um pequeno-grande trabalho, intitulado "Cultivando a humanidade na educação jurídica", traduzido por Luis Reimer Rieffel, e que me foi alcançado por Ney Silveira Gomes Filho. Lá pelas tantas ela escreve:
“Para estóicos gregos e romanos, todos os seres humanos são fundamentalmente membros de uma ordem mundial, não importando em que pais residam. Esta visão é frequentemente referida como ‘cosmopolitismo’ em virtude do fato de os mesmos sustentarem que cada um de nós é um ‘cidadão do mundo’ (em grego, kosmoupolites). Para pensadores como Cícero, Sêneca e Marco Aurélio, o fato de dividirmos com outras pessoas, em partes distantes do mundo, uma humanidade comum significa que temos para com elas obrigações morais que transcendem o alcance do direito positivo corrente. As idéias desses pensadores tornaram-se a base para o posterior desenvolvimento do direito internacional, especialmente na área da guerra e paz.
Uma vez que os estóicos acreditavam que as pessoas deviam cooperar além de fronteiras nacionais, eles acabaram por ter algumas idéias radicais sobre a educação. Sêneca, um filósofo romano nascido na Espanha e regente do Império Romano durante a juventude de Nero, estava em boa situação para refletir sobre estas questões, pois morava em uma Roma já heterogênea na sua constituição étnica e conectada de maneira complexa a diversas partes do mundo. A epistola moral nº 88 de Seneca, usualmente denominada ‘Carta sobre a educação liberal’ constitui o texto fundador da nossa idéia moderna de educação liberal."
Depois de ler essa passagem fiz uma pequena busca no Google para ver se existe alguma tradução de Sêneca desse texto, a epistola 88. Pois não é que existe uma edição integral, de mais de 700 páginas, das Cartas a Lucilio, publicada em 1991 pela Gulbenkian?
Antes que um desavisado jogue pedras no Sêneca, vai o resto do texto, onde a Martha explica o sentido desse "liberal". (Aliás, na tradução original, o Luis Rieffel opta por traduzir "our modern idea of liberal education" por "nossa idéia moderna de educação geral". Eu é que repus, por minha conta, o "liberal", até porque a Martha, na sequência, esclarece o sentido da expressão:
"Sêneca inicia sua carta, descrevendo o estilo tradicional de educação, salientando que este é chamado de ‘liberal’ (do latim liberalis, ‘conectado à liberdade’) porque o mesmo é concebido de forma a ser uma educação destinada a jovens de boa posição social e de boa criação, que eram chamados de liberales, os que ‘nasceram livres’. Ele proclama, então, que utilizará o termo ‘liberal’ de uma maneira diferente. Na sua perspectiva, uma educação é verdadeiramente ‘liberal’ somente se ‘liberta’ a mente do estudante, encorajando-o a tomar as rédeas de seu próprio pensamento, conduzindo-se pela vida examinada socrática e tornando-se um crítico reflexivo das práticas tradicionais. Sêneca continua seu argumento, asseverando que somente esse tipo de educação desenvolverá a capacidade de cada pessoa para ser completamente humana, significando que esta é possuidora de consciência própria, autocondução e da capacidade de reconhecer e respeitar a humanidade de todos os seus pares seres humanos, não importando onde nasceram, não importando a sua classe social, não importando o seu sexo ou origem étnica. ‘Logo daremos nosso último suspiro’, ele conclui em sua obra relacionada com o tema Da Ira. ‘Entrementes, enquanto vivemos, enquanto estamos entre seres humanos, cultivemos nossa humanidade."

quinta-feira, abril 19

Sobre ensino de Filosofia

No ano passado comecei um blogue para coisas sobre ensino de Filosofia. No meio do caminho surgiu uma pedra e o blogue trancou. Com o início do semestre letivo da UFSM (no final de abril...), sinto a necessidade de ter um espaço para esses temas; vou oferecer uma disciplina complementar para discutir coisas mais operacionais sobre filosofia e currículo e pensei em retomar o blogue; deixei as coisas velhas lá e recomeço. O link está ao lado.

terça-feira, abril 17

Rejane Ramborger


"É com profundo pesar que a Universidade do Oeste de Santa Catarina, Unoesc – Campus de São Miguel do Oeste, comunica o falecimento da Prof. Rejane Justen Ramborger, ocorrido às 06h desta quinta-feira (12/04), em sua residência. Segundo o laudo médico, o motivo foi parada cardiorespiratória. A professora Rejane tinha 36 anos (17/01/1971), era casada e tinha dois filhos. O corpo será velado nesta quinta-feira, das 13h às 14 horas, na Igreja Matriz São Miguel Arcanjo, em São Miguel do Oeste. Logo após, será transladado para São Luiz Gonzaga, no RS, sua cidade natal."
Por vezes é assim, um soco que nos deixa sem ar e sem fala. Foi na quinta-feira da semana passada, fiquei sabendo apenas hoje de tarde, por meio do Frank.
Rejane foi minha aluna no Curso de Filosofia. Quem a conheceu em nosso Curso pôde acompanhar uma rara trajetória de formação e de vida: sua dedicação ao curso somente perdia para o cuidado com Laurinha e Antonio. Rejane era uma ventania em busca, no início tateante e intensa, depois cada vez mais com rumo, sempre com uma gana de recuperar tempo e redefinir rumos de vida. Guardo com muito carinho e cuidado a lembrança de conversas com ela sobre crianças e filosofia e aprendizagem, nas quais, se eu procurava lhe transmitir algo, mais recebia, na forma das histórias de crianças que ela trazia e que discutíamos tardes a fio. Muito do que me motivou a estudar esses temas de ensino de filosofia saiu dessa troca com Rejane.
Ela concluiu a Licenciatura, foi em busca do Mestrado na Educação e, filhos ao lado, saiu em busca do sonho da profissão. Trabalhava na Unoesc, SC, que publicou a nota de falecimento que transcrevi acima.
Uma aluna escreveu coisas muito bonitas sobre ela em um blogue; copiei um trecho: "Uma pessoa maravilhosa, dotada de toda a bondade que uma pessoa pode ter. Alegre, espontânea e principalmente aberta a nós. Uma professora excepcional. Cada aula com ela, uma surpresa, algo inesperado. Tanto foi aprendido com ela, tanto foi vivido."
Eu gostaria de ouvir isso sobre meus alunos - que eles foram capazes de transformar uma aula em uma surprêsa - em outra situação.
Rejane era uma pessoa excepcional e deixou sua marca no mundo de muitas formas, entre as quais a forma como reinventou sua vida e, como diz a aluna, ajudava seus alunos a reinventarem as suas.
Nos vimos faz poucas semanas, quando ela veio a Santa Maria e aproveitou para dar um pulo no Campus e conversar um pouco; pediu minha ajuda para localizar um filme que queria passar para os alunos; ainda não consegui, viu?
Bruta saudade de Dona Rejane!

segunda-feira, abril 16

Raul Sullivan

Em casa nova, Raul Sullivan continua a produzir o melhor site que conheço sobre livros virtuais e toda sorte de assemelhados. E junto com isso vem o maravilho texto que ele escreve sobre toda sorte de coisa. Está excelente o relato que ele faz dos infortunios de um neo-cordobês em busca de uma linha de telefone.

sexta-feira, abril 13

Coloquio da Unisc/Ufrgs

Desde ontem funciona na Unisc (Sta. Cruz do Sul) o Colóquio de Filosofia da Unisc/Ufrgs. Serão dois dias de trabalho, com professores da Ufrgs, doutorandos da mesma universidade, e professores da UNISC e de outras universidades. Distribuímos o material de divulgação aqui na UFSM, mas o período de férias que atravessamos não ajudou muito. Boa sorte aos colegas de Santa Cruz nessa jornada!

"Filosofia e Sociologia no Ensino Medio a partir de 2008"

Deu na ZH de hoje, sexta-feira, treze de abril, página 46.
"A partir de 2008, a oferta das disciplinas de filosofia e sociologia no Ensino Médio será obrigatória nas escolas gaúchas. A medida foi aprovada pelo Conselho Estadual de Educacão do Rio Grande do Sul durante plenária em Santo Antônio da Patrulha."
Até 2012 vale improvisar: os bacharéis em Filosofia e Sociologia, que tenham alguma licenciatura, podem dar aulas; e os licenciados em História e Pedagogia com 120 horas de sociologia ou filosofia no currículo também estão autorizados a lecionar as disciplinas.
Mais um trecho da notícia:
"O CEED determina que, durante os três anos do Ensino Médio, sejam oferecidos dois períodos de cada disciplina distribuídos em qualquer uma das séries".
O Rio Grande do Sul tem 909 escolas estaduais de ensino médio. Destas, 530 oferecem filosofia.
O que eu penso sobre esse retorno é o seguinte: não podemos dizer que a reflexão sobre currículo escolar seja um hábito na comunidade de professores de filosofia. No mais das vezes predomina o que eu chamo de "princípio do presépio"; os professores imaginam-se como reis (magros) que comparecem ao presépio, cada um com seu presente; não faltam as boas intenções, etc. Mas falta a mínima relação entre os presentes... Um currículo não pode ser a mera justaposição de gestos individuais.
Acho que vou fazer duas coisas, lembrando o Tonico Gramsci (otimismo da vontade e pessimismo do intelecto); vou cultivar uma barbicha, para colocá-la devidamente ao molho, e traçar umas linhas sobre currículo e filosofia, sejaoquesócratesinspirar.

domingo, abril 1

Érico Veríssimo e Deus

No dia 10 de Outubro de 1968, em outra carta dirigida a Armindo Trevisan, Érico reflete sobre Deus.
"Se por um lado estou do lado dos que querem ver isso a que se chama realidade sem ilusões e fantasias (o que causa os distúrbios mentais, os traumas, os desencontros, as desgraças do homem adulto são as mentiras que seus avós e pais lhe contaram, as 'notícias' falsas do mundo transmitidas em contos de fadas, fábulas com moral, histórias de heróis), por outro detesto esse ar de fim de mundo que certos poetas, romancistas, filósofos e ensaístas nos transmitem em suas obras. São como guarda-livros desonestos que fazem o balanço de uma firma, computam só o passivo, esquecem o ativo e declaram a firma falida, irremediavelmente. A vida é dura? É. É trágica? É. Parece absurda? Parece. Bom, e daí? Estamos aqui, não há como fugir, senão pela porta do suicídio. Mas descartado o suicídio (por motivos religiosos, por falta de coragem, etc.), o fato inescapável é que estamos aqui e agora. Pois então amigos, vamos fazer o que melhor que pudermos com uma situação difícil. É a história judaica do Rabequista no Telhado - símbolo da vida. O pobre homem não só tem de se equilibrar direitinho para não cair como também se espera que toque uma música bonita e divertida. Nunca como agora, depois da última viagem à Europa e desta estada nos USA, tive uma sensação mais aguda de caos eminente, de instintos soltos, véspera de apocalipse, etc... Mas a esperança não me desertou. Vejo todos os dias coisas muito positivas ao meu redor. Conservo ainda uma esperança de adolescente, por mais cretino que isso possa parecer. Já estou na situação daquele velho coronel revolucionário de Uruguaiana que, no leito de morte, quando um amigo lhe perguntou como ia, respondeu: "Peleando em retirada e com pouca munição". Pois aos 63 estou já em retirada (portas fecham-se por todos os lados, mas eu abro umas e arrombo outras) e verifico com certa alegria que munição não me falta. Só espero continuar tendo ânimo para gastá-la até o último cartucho. E veja bem, não espero nada depois da morte. Pelo contrário, talvez espere o Nada. Mas mesmo assim não creio que a vida me deva alguma coisa. Ela pode me encarar e perguntar: 'Escuta aqui, velhote, que foi que Eu te prometi? Nada. Quem te fez promessas mentirosas em meu nome foram teus professores, alguns de teus autores prediletos, uma raça inteira de sonhadores que não tinham autorização de falar em meu nome'. E eu respondo: 'Está bem, velhota. Estamos zero a zero. E devo dizer-te que me deste muita coisa boa. E algumas dificuldades, que em geral os outros atribuem à tua má fé, foram causadas pelas minhas deficiências, impertinências, incontinências, fantasias, etc. E devo confessar que te quero bem. Ciao!"

Érico Verissimo e a Filosofia

Em uma carta datada do dia 15 de Julho de 1968, Érico Veríssimo relatava a Armindo Trevisan as suas leituras:
"Tenho aqui na minha frente alguns dos livros que estou lendo simultaneamente, ou melhor alternadamente. Essais Critiques de Roland Barthes, que considero um dos mais lúcidos críticos da atualidade. One-Dimensional Man, de Herbert Marcuse, o filósofo da rebeldia estudantil. Défense de la Littérature, de Claude Roy. Éloge de la Philosophie, de Merleau-Ponty. Précis de Décomposition, de E. M. Cioran. Além disso, leio aos poucos os Diários e as Cartas de Harold Nicolson, escritor parlamentar inglês. O que me impressiona nestas confissões é principalmente o fato de seu autor ser essa coisa rara: um bom homem."
O que me impressiona nesse trecho de carta é o gosto de Érico Veríssimo pela filosofia: em 1968 não seria de estranhar que estivesse lendo Marcuse que, como ele diz, estava na moda; mas ele lia Merleau-Ponty e Cioran, caramba! Para não falar do Barthes, que tinha um pé na cozinha filosófica.

sexta-feira, março 23

Érico Verissimo e Lawrence Durrell


No início dos anos sessenta um jovem escritor santa-mariense, padre nas horas da semana, inscreveu um conto em um concurso literário promovido por uma distribuidora de gasolina. Não foi além da menção honrosa, mas o fato lhe abriu as portas do mundo literário de muitas formas; dedicar-se à poesia foi uma delas. Outra foi lhe encorajar a fazer contato pessoal com um dos membros da comissão julgadora, Érico Veríssimo. Foi assim que começou a amizade duradoura entre Armindo Trevisan, o jovem contista, e o autor de "O Continente".
Armindo publicou um belo relato sobre essa amizade em um artigo publicado faz muitos anos, de raro acesso, pois está em uma revista portuguesa, "Nova Renascença" (Revista Trimestral de Cultura, publicada em Porto, Portugal, em 1995, numero 57-58, vol. 15). O título do artigo é "Érico Veríssimo, um grande homem", e uma das coisas fascinantes do mesmo consiste na transcrição de muitos trechos das cartas que Érico mandou para Armindo, entre 1964 e 1970. Ali ficamos conhecendo, entre tantas coisas, opiniões de Érico sobre escritores brasileiros, suas leituras favoritas, aspectos pessais e familiares, enfim, um rico painel de observações que incluem o que pensava sobre Deus.
Um desses comentários é sobre Durrell. Transcrevo o trecho de uma carta de 22 de dezembro de 1967, na qual comunicava ao Armindo que este já podia buscar uma lembrança de fim de ano.
"Não compre 'O Quarteto de Alexandria' porque um senhor barbudo que andou por aqui dexou esses quatro volumes para serem entregues a você na noite de Ano Bom." Armindo comenta que quando Érico lhe entregou o presente, observou: "É talvez o maior romance do século XX. Já o li duas vezes."
Armindo conta que Érico deve ter receado que a extensão do livro fosse motivo de desânimo, e "insistiu que eu lesse os quatro volumes até o fim".
A ilustração que acompanha este texto é uma dedicatória de Érico a Armindo; para alguns amigos especiais, ele assinava com um desenho de seu rosto, no qual o destaque ficava para as grossas sobrancelhas.
Qualquer dia desses vou perguntar ao Armindo como foi a leitura do romance.
Tudo isso vem a propósito da leitura que faço do romance, estimulado pelo Mestre Guina. Estou um volume atrás do mesmo, mas vamos ao encalço do prejuízo. Para quem não visita o blog faz tempo, coisa que não condeno, pague uma visita ao blogue de leituras do Prof. Aguinaldo, aqui ao lado, para sofrer da mesma provocação.

Filosofia na Cesma

Começou a circular o número 45 do "Rascunho", o jornal da Cesma, que tem por manchete "Filosofia começa a retomar seu espaço"; trata-se do tema principal do jornal, que tem um caderno central (quatro páginas) com uma entrevista com Gisele Secco e este escriba, e artigos de Andrei Cerentine e Franco Nero Soares. Gostei muito dos dois artigos. Andrei abordou com rara propriedade alguns aspectos das propostas de transversalidade que foram aplicados no vestibular; o artigo de Franco, mais clássico, também está muito bom. E tem a conversa no caderno central; se ficou boa, não sei, cabe a outros o juízo, mas que ficou um caderno bonito, isso sim. Foram feitos mil exemplares, distribuidos gratuitamente na Cesma.

quarta-feira, março 7

Nicholas Fearn

Há uma nova leva de livros de filosofia nas estantes do país. Faz algum tempo que quero recomendar alguns, mas por alguma razão a mão travou. Ainda anda meio paralítica, mas vamos ver se pega no tranco.
Li hoje dois capítulos ao acaso do livro de Nicholas Fearn, "Filosofia: novas respostas para antigas questões", publicado pela Zahar no ano passado. Um deles é dedicado ao "problema do significado". Em poucas páginas o rapaz faz uma apresentação criativa do externalismo semântico, comentando Putnan, Burge, Davidson, de forma a situar o problema e provocar o interesse do leitor. O mesmo se passa com o capítulo "idéias inatas", onde o herói da vez é Chomski.
O exemplar que estou lendo é do Prof. Frank, a quem agradeço pela indicação. Já encomendei o meu e mais alguns pela Cesma. O livro é uma boa introdução às diversas abordagens contemporâneas para alguns temas clássicos da filosofia.

terça-feira, fevereiro 13

O Poder do Mito

Na próxima quinta-feira, dia 14, às 14.00 horas, na sala 2374, haverá a projeção de um documentário com Joseph Campbel, intitulado "O Poder do Mito". Campbell é o autor de diversos livros dedicados à interpretação do papel das narrativas mitológicas, como, por exemplo, "O herói das mil faces".
A entrada é livre.

sábado, fevereiro 3

Semblante e sotaque

O gauchinho passou na prova do brete, descansou da viagem, cevou vários mates e depois quis dar uma volta nas redondezas; lhe emprestaram a chave do apartamento, para poder voltar na hora que quisesse; mal acostumado com as modas paulistas, inventou de perguntar pelas outras chaves, a chave do edifício, a chave do portão de fora, como vai fazer para entrar? Ou sempre tem vivente lá na entrada? Lhe foi explicado que em São Paulo, nesses campos de Jardins e Moemas, ninguém tem direito a ter a chave do edifício onde mora; ninguém pode ter a chave do portão; e, finalmente, ninguém tem direito a ter o controle de sua própria garagem; e mais lhe explicaram: tem que mostrar o semblante e o sotaque se quiser que o porteiro lhe abra a garagem. Sabe como é, o perigo pode estar no assento do passageiro com um tresoitão no colo. "Mas o índio comprou o apartamento, é dono e tudo o mais, que barbaridade é essa que nem pode ter as chaves completas"? Pois é, mas é assim que são os costumes nesses campos das Moemas.

Mangueiras e bretes

Nas mangueiras para o trato de gado, no Rio Grande do Sul, ainda se usam as mangueiras; algumas servidas pelas gigantes banheiras. A coisa funciona assim; o gado entra em enormes cercados, as mangueiras; depois de colocada a tropa ali dentro, um grupo menor de reses é colocado em um cercado menor, e ali elas entram, uma por uma, em um corredor, que, se não me falha a memória, se chama brete; ali cada rês pode ficar presa, imobilizada, para o trato; dosagem, vacina, uma serrada na ponta da aspa; bicheira não se trata ali, no mais das vezes, porque depois tem o banho; aberta a seringa o bicho se vê empurrado para uma rampa que se projeta numa enorme banheira, com água e uns preparados fedorentos, à base de criolina, é o que lembra meu nariz. Sem escolha, o bicho nada uns cinco metros e sai pelo outro lado, se sacudindo todo; está banhado, pronto para ir ao campo de novo, livre dos carrapatos.
Pois tá cheio de carrapato, aqui pelos campos do tal de São Paulo. Conto que andando aqui nos campos de Moema dei com uns muitos edifícios que copiaram a moda da gauchada. Funciona assim. O índio chega no portão do edifício e uns tipos que ficam em umas casinhas escuras parece que adivinham a intenção do vivente e já vão perguntando, por meio de uns microfones escondidos lá quem sabe donde quem é e a que vem. Se gostam da resposta a porta abre e o índio pode entrar, mas somente para descobrir que entrou em um brete, desses bem estreitinhos; ali o índio fica preso no mais, mais perto da casinha de janela preta, e ali espera para que telefonem para dentro do edificio e especulem bem especulado se é pizza ou se é pão ou se é o quê afinal que a casa espera; e o índio ali, depezito no mais, lhe aguardo, espero! Aí vem as licenças e o brete abre; o índio passa pela casinha preta e ainda lhe olham bem, assim meio no desconfiado.
Lhe reparo que visita, aqui nessas Moemas, só bem anunciada, e uns dias antes.
Se os carrapatos diminuíram, eu esqueci de perguntar.

Cortina para o coletivo

Saimos da Avenida Paulista, oito e pouco da noite, tomamos um ônibus para Santo Amaro, rumo a Moema. Naquela hora da noite de uma sexta-feira as ruas e os ônibus já estão mais vazios, há lugares para sentar depois da roleta. Pagamos, passamos, sentamos. Depois de alguns minutos P. me chama a atenção para uma cortina de pano amarrada perto do assento do cobrador; um pano verde, amarrado com um fio de plástico, coisa muito bagaceira e improvisada, separa o cobrador dos passageiros de trás; com facilidade ele fica meio escondido, sem ver o que se passa nos fundos do seu coletivo. O visitante distraído, como eu, não entende muito o que se passa ali. Nesse meio tempo um sujeito passa por baixo da roleta e depois mais outro; não dizem nada ao cobrador, apenas fazem uma cara feia e passam, se aboletam no fundo; um deles fica fuçando no telefone celular. P. explica que as cortinas se multiplicam nos onibus paulistas; por meio delas os cobradores fazem vista grossa ao que acontece dali para trás; alguns se recusam a dar informações aos passageiros que não conhecem a linha e a cidade; a maioria dos passageiros usa cartões magnéticos; poucos, como eu, pagam em dinheiro, e isso por vezes muda a rotina deles, que nem precisam ficar sentados na cadeira que controla a roleta.
A cortina verde, diz P., é uma invenção dos cobradores, para se incomodarem menos; retiram sua autoridadezinha de cobrador sobre o fundo do seu ônibus, que se virem os passageiros; incomodam-se em dar o troco a quem paga em dinheiro; um dia desses alguém há de perguntar para que, afinal das contas, servem os cobradores.

Tom Dwyer

Tom Dwyer é o presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia. Deu uma entrevista ao Jornal da Tarde (SP) no dia 31, quarta-feira passada, na qual aborda o tema do ensino de Sociologia e Filosofia. O jornal o procurou para conversar sobre a volta dessas disciplinas ao currículo escolar, "duas aulas por semana durante um dos três anos do Ensino Médio", diz a articulista Maria Rehder, que lhe perguntou sobre as diferenças entre essas duas disciplinas e a psicologia. Ele responde: "A psicologia não pretende estudar a complexidade das mudanças sociais no mundo, como o fato da globalização estar afetando as coisas no meu bairro, por exemplo. A sociologia, sim. Já a filosofia é o estudo do indivíduo, o que é muito diferente de sociologia, que estuda os agregados. A filosofia trata das questões mais antigas da Humanidade como a diferença entre o bem e o mal e a busca pela verdade."
Tom Dwyer é professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.
Sobre o preparo das escolas para atender essa obrigatoriedade: "No momento vivemos o desafio de escolher qual tipo de sociologia deve ser adotado no currículo do Ensino Médio".
Sobre a metodologia de ensino ideal para o ensino de Sociologia: "Isso eu não posso responder em nome da Sociedade Brasileira de Sociologia (...). A seguir ele diz que "a boa educação deve se organizar em torno das quatro aprendizagens fundamentais estipuladas por Jaques Delour, da Unesco: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto, aprender a ser.
"Indivíduos e questões mais antigas" e os "agregados". Como diria aquele jornalista, então tá.

domingo, janeiro 28

Bento Prado, Jr.


A última vez que vi Bento Prado Jr. foi em agosto de 1997. Estávamos no mesmo hotel em Belo Horizonte, participando do "Seminário Internacional de Filosofia Analítica e Pragmatismo". Ele levava na mão o livro de Giovanna Borradori, The American Philosopher (UCP, 1991), que lia com interesse. Comentei que estava lendo livros de Arthur Danto e isso valeu longas conversas, em caminhadas no campus da UFMG. Eu já o conhecia de outras oportunidades, mas foi ali que pude ter esse privilégio de conversar muitas vezes com ele, no bar do hotel, tentando acompanhá-lo no johnnie red, nos almoços e jantares do encontro. Não imagino, em nossas catacumbas filosóficas, quem possa ombrear com ele na amabilidade. Uma de suas tarefas era coordenar uma mesa de debates na qual os palestrantes se mobilizavam para apresentar propostas de fundamentação da ética. Com a maior simplicidade ele abria os debates perguntando a todos se, afinal, a ética era de fato carente de alguma fundamentação. Precisamos mesmo fundamentar a ética?
Eu estava contente e triste naquele encontro; pude conversar bastante com Susan Haack e apresentei meu paper para Richard Rorty, que foi de uma atenção particularmente surpreendente; ao final veio conversar comigo, fazendo sugestões para enriquecer a abordagem que apresentei. Mas eu estava triste porque meu pai, em Santa Maria, estava muito doente. Na ultima noite do colóquio houve um jantar na casa de um dos organizadores, findo o qual fomos, em um pequeno grupo, para uma casa noturna da moda em BH; ficamos lá até altas horas; Bento fez questão de pagar a conta. Quando chegamos no hotel, já madrugada, havia um bilhete para mim, de minha mulher, dizendo que meu pai havia falecido. Reparti a notícia e minha dor com Bento, Ghiraldelli e outros; não havia como viajar de volta na madrugada; no outro dia, cedinho, fomos para o aeroporto.

sexta-feira, janeiro 12

Bento Prado Jr.

"Colegas e amigos:
A ANPOF acaba de receber do Professor João Carlos Salles uma triste
notícia, e aqui reproduzimos seu texto, que toca no coração de toda a
nossa comunidade: "Lamento informar o falecimento do professor Bento Prado de Almeida Ferraz Junior, neste dia 12 de janeiro. Colega e grande amigo, Bento é também um exemplo em requinte e em profundidade do que melhor se produziu em Filosofia no Brasil, destacando-se tanto por sua escrita quanto por sua fala. Além disso, é também um exemplo de compromisso institucional, de empenho pela comunidade filosófica nacional, tendo sido, aliás, por duas vezes, Presidente da ANPOF. Como personalidade pública, sua corajosa história é bastante conhecida, sendo ele, além de profissional da Filosofia, um destacado intelectual brasileiro."
A ANPOF perde então um de seus grandes Presidentes, e muitos de nós perdemos um grande amigo, mas a memória de sua inteligência excepcional, de seu humor finíssimo e de sua afabilidade com os mais jovens deve permanecer.
Álvaro L. M. Valls".

quinta-feira, janeiro 11

Prova 3: o que é mesmo a Filosofia?

A prova 3 (Filosofia, Matemática, Língua Portuguesa e Língua Estrangeira) contribuiu para o enriquecimento das lendas urbanas sobre as questões de Filosofia. Um grupo de professores de Matemática teria se atracado com a questão 4, tentando resolvê-la. Ao cabo de vários minutos um deles arriscou o palpite: "Mas isso não é uma pergunta de Matemática, isso é da Filosofia...".
Enquanto isso - continua a lenda urbana - alguns professores de Filosofia procuravam chegar a um consenso sobre afinal, quais eram MESMO as cinco questões de Filosofia na prova do dia.

A Pragmática

Uma senhora francesa, Françoise Armengaud, professora de Filosofia da Linguagem em Paris X-Nanterre, escreveu um livrinho de apresentação da pragmática, intitulado "A Pragmática". O livro teve sua primeira edicão na França em 1985 (pela PUF), uma segunda, com revisão em 1999, e saiu agora no Brasil, em tradução de Marcos Marciolino, por uma "Editora Parábola" (www.parabolaeditorial.com.br). O livro começa com um capítulo histórico, Peirce, Frege, Wittgenstein, Morris, Carnap, Bar-Hillel, Stalnaker, Hansson. A seguir, o que ela chama de pragmáticas de primeiro, segundo e terceiro graus, e um capítulo de conclusões. Está muito bem escrito; creio que a professora tem tudo a ver com os franceses que se ocupam com o tema, como Recanati, Francis Jacques e outros. Vou dar um jeito de encomendar alguns exemplares pela Cesma. Falando nela, já está funcionando a nova ala da filosofia, sociologia e artes. Vale a pena visitar. Acho que ainda cabe uma bela mesa para expor as novidades. Vamos pressionar o Télcio.
Agradeço ao Frank pelo empréstimo do exemplar do livro da dona Armengaud. Devolvo assim que chegar a minha encomenda. Devolvo?

quarta-feira, janeiro 10

A transversalidade pedestre

Como dizia Dom Bressan ontem, em conversa particular, quase sempre que a gente ouve alguém falar em interdisciplinariedade ou tranversalidade no ensino, a vontade que a gente tem é de ir saindo de fininho, para escapar dos lugares comuns e do vazio de idéias.
Os corredores das escolas ilustram essa dificuldade; os projetos de inter ou transversalidade se resumem à enésima repetição de recortes de revistas sobre problemas de meio-ambiente, no mais das vezes, ou da importância da ética.
Se algo sobrar dessas questões do vestibular de Filosofia, eu espero que seja uma ponta de flecha indicando a possibilidade concreta de uma transversalidade pedestre; no horizonte estaria um projeto de currículo de Filosofia para o ensino médio que, entre outras variáveis (eu disse OUTRAS) consideraria certas relações internas e possíveis entre a Filosofia e as demais disciplinas e atividades do ensino médio.
A transversalidade pedestre se ocupa com conceitos que desempenham papel importante em muitas disciplinas particulares (a idéia de "taxionomia" é fundamental não apenas na Biologia, pois outras áreas do conhecimento humano fazem classificações), mas nenhuma disciplina em particular se ocupa com ela. O mesmo vale para "definição", "abstração", "infinito", significantes que transitam na cabeça dos guris e gurias, mas que ficam à deriva nas disciplinas particulares.
Eu insisto nessa idéia de "transversalidade pedestre" como a porta de entrada da tal da "contextualização". Muitos professores de Filosofia, quando ouvem falar em "contextualização" querem logo falar do Saddam ou da Cicarelli, e esquecem de contextualizar com o que o aluno estava estudando minutos antes, em Biologia ou Física.

Momento Espiritual

Na 800 AM, Rádio da Universidade Federal de Santa Maria, há, por volta das 18.00hs, um programinha chamado "Momento Espiritual". Até aqui tudo bem. Na apresentação do mesmo, o locutor informa que a produção do programa está sob a responsabilidade da "Federação Espírita do Paraná". Pilulas de sabedoria, as de ontem perguntavam se valia mesmo a pena a separação no casamento. Tem cópia para os conselheiros do Cepe ouvirem, se quiserem.
Afinal, é extensão universitária, não?
Atenção demais denominações religiosas: abriu geral, vamos lá reivindicar nossos momentos.
Em outros tempos o idiota pensaria em reivindicar, na portaria da Rádio, um "Momento Material", para expor as bases do seu agnosticismo ou coisa que o valha.
Outros tempos se foram. Com eles se foi certa vergonha republicana.
No quinto andar, a Virgem Medianeira (há no Gabinete do Reitor uma imagem dela) está triste. Ela não gosta dessas idéias de ressurreição da tal Federação Paranaense.

terça-feira, janeiro 9

Questões de Filosofia

Alguns professores de Filosofia estão virando corujas, no melhor dos sentidos, orgulhosos de seus alunos; e não apenas nos cursinhos e no nível médio, diga-se de passagem.
No folclore da prova de hoje há uma história sobre um professor de Filosofia que teria reclamado que, ao invés de cinco questões, havia apenas uma.
Fora do folclore, nas entrevistas com alunos que ouvi, esse foi um dos comentários em tom positivo: as questões de Filosofia nem sempre eram evidentes como Filosofia, e o aluno tinha uma surprêsa intelectual agradável, ao ver um tema de outra disciplina ser abordado de modo diferente.
Essa deveria ser uma (eu disse UMA) característica importante da presença da Filosofia no currículo escolar: praticar uma transversalidade pedestre e efetiva.

Homens, mulheres, vinho e signos

Ao que parece, a questão de número trinta e dois da prova de hoje é uma homenagem aos estudos de semiótica e filosofia da linguagem.
Em um texto de natureza autobiográfica, Charles Peirce escreveu que "... desde o dia em que, na idade de 12 ou 13 anos, eu peguei, no quarto de meu irmão mais velho, uma cópia da Lógica de Whateley e perguntei a ele o que era a Lógica, ao receber uma resposta simples, joguei-me no assoalho e me enterrei no livro. Desde então, nunca esteve em meus poderes estudar qualquer coisa - matemática, ética, metafísica, anatomia, termodinâmica, ótica, gravitação, astronomia, psicologia, fonética, economia, a história da ciência, jogo de cartas, homens e mulheres, vinho, metrologia, exceto como um estudo de Semiótica".
Lembrei desse texto ao lembrar o que pode ter sido o espírito da questão 32 da prova de vestibular da UFSM de hoje, que pede ao aluno para aplicar o conceito de signo - em alguma de suas especificacões, como índice, ícone ou símbolo - ao diagrama de uma questão de física, que fala na representação de um olho. Como não existiam, no gráfico usado na questão de Física, elementos que caracterizassem relações de semelhança ou contigüidade/imediatidade, a resposta certa apenas pode ser a que fala em símbolo e arbitrariedade (ou convenção, não me lembro agora).
Nas questões que serviram de exemplo, meses atrás, no sítio da Coperves, havia uma aplicação desses conceitos a tipos de inteligência ou raciocínio.
Parece ter sido essa a única questão da prova de Filosofia que provocou alguma polêmica. No mais, as pessoas estão dando depoimentos bons sobre a prova. Vamos ver amanhã.

segunda-feira, janeiro 8

Filosofia no Vestibular

Hoje, 8 de janeiro, no almoço, conversei brevemente com uma vestibulanda e linda que presta para Medicina pela primeira vez. Disse que adorou as aulas de Filosofia no Cursinho, pensa até em fazer Filosofia um dia, como uma segunda formação.
Tá vendo? Precisa mais? Deve ter muito mais. Amanhã, terça-feira, 9 de janeiro, é dia.

Desmotivação

A Folha de São Paulo do domingo (7 de janeiro, C1) traz uma matéria sobre educação que toca numa das grandes feridas da área. A matéria tem como fundo uma pesquisa do INEP. A pesquisa visa encontrar as razões que levaram 1,7 milhão de jovens entre 15 e 17 anos a não estudar no ano de 2005. As principais conclusões são essas:
a) três em quatro jovens não completaram o ensino fundamental, mas a maioria (68%) ao menos chegou até a quinta série;
b) ter filho diminui a probabilidade de a jovem estudar. Entre as que vão a escola, apenas 1.6% é mãe, percentual que sobe para 28,8% entre as que estão fora;
c) mais do que a falta de vagas, de transporte ou mesmo a necessidade de trabalhar, é a falta de vontade de estudar que empurra a rapaziada prá fora da escola. Essa razão foi identificada em 40% dos casos entre os que não estão em sala de aula.
Até aqui, os dados do INEP, na minha opinião, apenas ratificam algo que a imensa maioria dos professores insiste em fazer de conta que não vêem: a escola está mal preparada, didatica e pedagogicamente.
A alguns dos grandes especialistas ouvidos foram atribuídas opiniões bem curiosas. Rubem Alves, segundo a Folha, disse que "o próprio sistema em que as escolas funcionam é pouco atrativo. Usa como exemplo o fato de as disciplinas serem ministradas separadamente". Outra pesquisadora diz que "uma nova forma de avaliação dos estudantes, que valorize aprendizagem e não simplesmente a nota obtida na prova, é um dos pontos que podem ajudar".
Assim me caem os butiás do bolso!
A gurizada se manda da escola porque as aulas são um saco de mal preparadas; não se pesquisa didática, em suma. O resto é conversa prá guri dormir.

domingo, janeiro 7

Ser chefe

O texto maior de João Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas" está ainda disponível para baixar, em
http://www.novafronteira.com.br/grandesertaomec/
A Cesma já tem a edição comemorativa dos 50 anos, coisa mais linda, cento e vários de reais.
O bom do arquivo em pdf é a gente poder localizar a jato as passagens que se quer. Dei azar na primeira que fiz. Gosto muito de algumas frases do livro e saí em busca de uma delas. Digitei as palavras chaves e neca. Erro meu, pensei. Fui de novo, restringi um pouco mais as palavras. Achei a passagem, e junto com ela um erro de digitalização. A passagem é essa:
"Ser chefe - por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores."
Na versão em pdf, página 84: "rosinhas fôres".
Numa frasezinha dessas o Rosa pega uma baita fresta para espiar o jeitão dos bípedes despenados.

sexta-feira, janeiro 5

CAP

CAP é a sigla adotada pelo Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Estive ontem lá, para falar para os professores. Eu ainda não conhecia a nova sede (desde 1996 o CAP não está mais na Oswaldo Aranha e sim no Campus do Vale). Fiquei surpreso com a qualidade das instalações. Mesmo com 10 anos de uso o Colégio está em bom estado e tem tudo o que uma escola merece, desde armários individuais para os alunos (daqueles que eu só conhecia em escolas de filme americano) até um teatro igualzinho ao Caixa Preta.
A visita me fez lembrar que um dia o Centro de Educação discutiu um projeto de criação de um Colégio de Aplicação na Ufesm. O projeto ficou uma beleza e foi enfrentar os debates. Entre os pomos de discórdia apresentados estava o processo de seleção dos alunos. Uns queriam que as vagas fossem destinadas aos filhos de professores, servidores e alunos. Outros queriam que as vagas fossem para os moradores populares do entorno. Outros queriam sorteio. Deu impasse. Ficou por isso mesmo, não saiu do papel.
Os Colégios de Aplicação supunham uma forte conexão com pesquisa em currículo e metodologia de ensino. Nos anos oitenta, no entanto, as poucas linhas de pesquisa que haviam por aqui nessa área foram diminuindo mais ainda; havia um mestrado em currículo (a "Faculdade Interamericana") que foi implodido, em nome de estudos pedagógicos mais politizados. Deu no que deu: aplicar o quê?
O CAP está muito bem, materialmente. A seleção dos alunos é feita por sorteio. Quanto à aplicação propriamente dita, não tenho elementos para avaliar. Fiquei com a impressão, no entanto, que o CAP paga um preço aos tempos bicudos que vivemos na área educacional e federal.

quarta-feira, janeiro 3

CDN

Acabou a CDN. Depois de meses de negociação, deu em nada. Não houve acordo entre a CDN e a Gaúcha, e volta, no 93.5 o antigo sinal da Antena 1 "via satélite, para todo o Brasil". Nesses anos de sinal da Gaúcha em FM na cidade, e mais os horários locais, criou-se um hábito de ouvir rádio que agora acaba; vai demorar um tantão para que volte, ao que dizem. Eu já andava meio sem criatividade nos debates do meio-dia, mas de vez em quando saia alguma conversa razoável.
A cidade perde um tambor. Gostei de ouvir o mestre Guina, por exemplo, na entrevista das quatro da tarde, falando sobre o Bloomsday. O Sérgio Assis Brasil se saiu muito bem naquele espaço e soube promover muita coisa boa por ali.
Acabou.