quarta-feira, agosto 31

Explica, mas não justifica

A decisão do sindicato dos professores municipais de Santa Maria, de não levar os alunos para o desfile de sete de Setembro me fez lembrar uma frase que meu pai usava, de vez em quando. Ele deve ter aprendido ela com o meu avô, que deve ter aprendido com meu bisavô e assim por diante. A frase é essa: “explica, mas não justifica”. A gente usa essa frase quando escuta alguma explicação que mais parece uma desculpa. Por exemplo, alguém faz alguma coisa que, em algum sentido pode ser polêmica, discutível ou mesmo condenável, mas mesmo assim a pessoa acha que pode explicar o que fez. Ou seria melhor dizer que a pessoa acha que pode justificar o que fez? Alguns políticos do PT, por exemplo, dizem que todo mundo fazia caixa dois, porque as campanhas são caras e as leis não são boas, etc, e se todo mundo faz, nós somos mundo também, etc. Aí vem o ditado: até explica (a carne é fraca, etc.) mas não justifica.
Os professores municipais estão com raiva do prefeito, do secretário, porque não tiveram aumento nenhum; e uma pessoa com raiva normalmente faz coisas para desabafar ou descontar a raiva, e essas coisas podem ser debitadas na conta da raiva, mas nem sempre se justificam. Por exemplo, quando eu dava uma porrada no meu irmão menor, meu pai primeiro me perguntava porque eu tinha batido nele. Aí eu dizia que tinha batido nele porque ele tinha me xingado. Aí meu pai dizia, “explica, mas não justifica”. Explica, porque se xingam a gente, a gente fica com raiva, etc. Mas não justifica, isto é, uma pessoa maior não deve se aproveitar de seu tamanho e força para descer o braço no baixinho. Fazer isso era covardia (“Tamanho homem batendo num pequenininho!”) mesmo que a raiva fosse grande. Eu podia ter motivos para bater, mas não tinha razão; ter motivos é uma coisa psicológica e pessoal: ter razão é uma coisa objetiva, pública, argumentável.
Os professores tem todos os motivos do mundo para protestar contra o governo municipal. Mas a festa é federal, mais do que federal, a festa é da pátria. E ninguém tem razão quando se trata de privar os alunos de sua semana da pátria. A gente até entende a explicação do sindicato. Eles explicam, mas não justificam. E desde quando se coloca criança no meio da briga de gente grande?

A pontuação da morte

Reparto com os leitores do blogue um poema de Antonio Augusto Ferreira, dos melhores de sua obra. Acho que minha simpatia para com esse texto não se restringe à beleza literária do mesmo, é uma questão de turma. Leia e veja qual é a tua turma. Lembrei do texto até pela proximidade da palestra de segunda-feira, do Prof. Tugendhat.


A PONTUAÇÃO DA MORTE

Leia-se bem a MORTE:
morte, vírgula ou morte, ponto.
Atente-se à pontuação:
depois da vírgula, segue
mas depois do ponto, não.

Para os da vírgula
é preciso crença.
O ponto, não,
o ponto dispensa.

Há quem pontue a morte
com uma interrogação,
estes, estão no escuro.
Há também os reticentes...
morte em cima do muro.

E eu, afinal?
depois da morte,
ponto final.

Antonio Augusto Ferreira
19.12.01

Palestra do Prof. Tugendhat em Santa Maria

Está confirmado. Dia 5, segunda-feira próxima, o Prof. Ernst Tugendhat estará em Santa Maria, para dar uma palestra. O local é o Auditório Pércio Reis, no prédio da Engenharia, no Campus da UFSM, às 10.00 horas. O título da palestra é "O nosso temor da morte". O Prof. Tugendhat dispensa apresentações. Trata-se de uma oportunidade imperdível de conhecer um dos maiores filósofos da atualidade. A palestra será em português.

terça-feira, agosto 30

20 de Setembro?

Empresto o blogue para um texto de Russel Vaz Moraes, visitante quem vem das bandas do Alegrete. Russel é professor de Língua Portuguesa e Literatura em Alegrete (também conhecida por uns poucos como Nova Hereforde! O blogue está ficando intermunicipal, como se pode ver!) Com a palavra o Russel:

Quase de arrasto, mas gaúcho

Na vida, há coisas que precisam ser ditas. Coisas que todo mundo sabe, todo mundo vê. Coisas que, porém, poucos ousam a dizer, a difundir, pois, ao propalá-las, pode-se, como escrevera Thiago de Mello, em "Canção para os fonemas da alegria", despertar "o bicho de quatrocentos anos", cujo "fel, espesso", pode gerar abalos sísmicos mesmo em geografias praticamente inertes, a exemplo desta em que vivemos.
Pois, mesmo assim, para propagar o que muitos afirmam ser "indizível", José Carlos Queiroga está de volta. E mais incisivo, como se esperava. Ora presente, ora retroativo, "Tratado Ontológico acerca das Bolas do Boi", lançado em outubro de 2004, pela Editora Méritos, meche na ferida e deixa à mostra o pus que, há tempos, vem, qual tsunami, sobrepondo-se ao verde campestre. O pus que vem arrasando vidas e deixando a la suerte milhares de Otacílios, cotidianamente abocanhados (e esgualepados) por estes imensos cinturões de miséria, com os quais já se deparavam, entre outros, o Chiru e o João Guedes, na profética trilogia do gaúcho a pé, de Cyro Martins.
Depois de "Viagem aos Mares do Sul" (Mercado Aberto, 1999), o jornalista discute, com maior ênfase, a questão do latifúndio, analisando suas origens arcaicas e seus desdobramentos presentes. Em quinhentas e vinte e quatro páginas, o calvário de Otacílio, em busca de um cavalo para desfilar no dia 20 de setembro, decantada como "data magna da identidade pampeana", é um fiel retrato do momento por que passa o gaúcho, expurgado da lidas, pós-a-pé, quase de arrasto, perambulando pelas sangrias da vida, bebendo canha e virando o mate, cuspindo de laçaço, sem eira nem beira, debatendo o preço da arroba bovina e da saca do arroz alheio.
Segundo o professor e crítico literário Marcelo Backes, o "Tratado de Queiroga é um romance-tese (...). E o autor é conseqüente, crítico, materialista, dialético, tem noção profunda do mundo que o rodeia. Ele vê e assimila tudo (...)." Tanto é verdade que um tal Movimento Sepé Tiarajú surge, no front de sua literatura, para protagonizar um incessante duelo com o Grunhe (Grêmio Ruralista de Nova Hereford), que serpenteia o referido grupo de infelizes - grupo que derrete sob lonas de cor funesta, cor de carvão, assim como o carvão que, logo em brasas, assa a picanha e a costela de primeira que, somadas a inevitáveis tragos, abastecem a vigília, à margem do acampamento.
E eis que surge Galdino, paladino, personagem que defende a tese (catequese, por supuesto, of course), levanta literalmente a bandeira (vermelha), mateando com Tunica: Otacílio, como outros tantos, milhares, é uma "vítima" – vítima, na verdade, de uma circunstância alheia à sua vontade de analfabeto, como no "tempo dos farrapos". A ignorância (em seu ponto mais íntimo), assim, alimenta a idolatria. No ar, paira Marx: o peão endeusa o patrão, que, com isso, alicerça suas cercas de pedras. Galdino, claro, rechaça qualquer aproximação e quer o confronto – direto, se for preciso. E a luta continua, companheiro!
De fundamental leitura, em busca de necessárias interpretações, "Tratado Ontológico acerca das Bolas do Boi" surge como "o outro lado da moeda": a visão abnegada em relação a interesses minúsculos, que contemplam parcelas cada vez menores de uma sociedade prestes a ser coberta por uma erva daninha que se chama ganância.

Russel Vaz Moraes
russelvazmoraes@gmail.com)

segunda-feira, agosto 29

Ser e ser percebido

Ao menos um filósofo, se vivo fosse, ficaria honrado em defender seu ponto de vista diante das perguntas levantadas por Cornélia. O Bispo Berkeley (um irlandês que viveu entre 1685 e 1734) dizia que "ser é ser percebido". Ele dizia que existem apenas duas coisas: as idéias, que são objetos de nossa consciência, e a nossa consciência. Mas e o mundo, você perguntará, como fica? O mundo, como dirá mais tarde um outro filósofo, é nossa idéia.
Berkeley tratou do tema no livro chamado "Três Diálogos entre Hilas e Filonous", no qual suas idéias aparecem nas falas de Filonous. Acho que valeria a pena tentar expor o espírito dessas idéias para Cornélia.
E os números, hein, que bicho estranho é o tal do número?
E pensar que tanto faz a gente saber ou não saber (se é que alguém sabe...) o que é "número" para levar pau na matemática.

O Seu Descartes

Passo a palavra para a leitora Cornélia, 11 anos. Transcrevo um trecho de sua carta:
"Sabe, assisti o fantástico e as minhas perguntas não são filosóficas mas cornelióficas: queria saber se os filósofos entendem o que é dito lá? Sabe se para o tal do DeKarte, não sei se escreve é assim , só existe o que se pensa. Então a casa não existe? Pensando na Emília no país da matemática: então o 2+2 existe, mas eu penso casa não como penso os números. Uma casa é para se morar e elas existem para a gente morar e os números existem para quê? E se são a unica certeza como é que pode? A gente não come número, a gente não planta número, a gente não acha número, é um desenho, ou pior que desenho,porque o desenho é uma coisa que está no mundo que as pessoas colocam dentro delas e depois vai para a ponta do lápis e o número? Sabe, na Olimpíada Matemática só tive 6 acertos, tenho a impressão que tem uma rebelião dos números querendo dominar o mundo e parece que o tal do Dekarte tem culpa disso."

sexta-feira, agosto 26

Zorro e Tonto

Retomando o assunto: Zorro e seu fiel escudeiro, o indio Tonto, estavam pocotó, pocotó, etc, quando hostis hordas de hediondos indios os cercaram, por razões que o roteirista mal esclareceu, o desleixado. A hostil tribo (close na indiada) deixa bem claro a intenção de fazer a cabeça dos invasores (sacodem lanças, agitam as rédeas dos matungos, gritam ulalá, coisas assim). Corte para Zorro, que olha para Tonto e diz qualquer coisa como : "Acho nós estamos, digamos, mal na fotografia!" (Tem criança que lê o blog, respeito!) Tonto, que de tonto nada tinha, puxando o cavalinho dele para trás e já entortando a rédea em direção às ordas, responde ao Zorro: "Nós quem, cara-pálida?".
Reconheço que a história é batida do que a cara do Maguila, mas não deixo de pensar nela quando vejo gente triste com a história do PT, pensando que com essa crise toda do governo ficam mal as idéias normalmente anotadas na caderneta da esquerda. Os pensamentos e as ações dirigidas contra a injustiça, a miséria, a opressão nunca dependeram desse ou daquele partido. Esses pensamentos e essas ações foram criadas pelos homens desde que ficou claro que a matéria-prima do vivente humano não é flor de cheiro, que no menor descuido sempre tem uns poucos prontos para ferrarem os demais. Teve "esquerda" desde os tempos mais antigos, e ela incluiu todos os que ergueram voz e braço contra esses sofrimentos descabidos, desde Buda e Cristo.
Vão-se os partidos, ficamos nós, os insetos menores, fazendo nosso trabalho.
A esquerda está em crise? Qual esquerda, cara-pálida?
Bem fez quem leu Castoriadis, desde 1979 (o primeiro texto do careca saiu no Brasil pela PLM em 79). Muitos dos que o descobriram a partir de 85 chegaram tarde demais, o que mais queriam era dar uma aparelhadinha no careca, entrou por uma orelha e saiu pela outra!
O que eu queria mesmo era escrever sobre a seguinte pergunta: o que tem a ver a perda das utopias com a crise das esquerdas? A minha respostas é impublicável, mesmo nesse blog. Ela se assemelha à resposta que damos para a seguinte pergunta: o que tem a ver as nádegas com as calças? Como se sabe, a resposta popular é que a relação entre ambas é totalmente contingente.
O assunto é longo, no entanto, fica para outro dia.
Diabo, ninguém mais comenta nada?

Do Alegrete


Do Alegrete, no meio da tarde, recebo um chasque de José Queiroga, que os leitores deste blog já sabem quem é, o homem das bolas do boi, do tratado ontológico. Até refiz o laço ali no lado para quem não lembra. O logotipo acima é de uma ONG que está sendo lançada no Alegrete, cujo manifesto acabo de ler e que dá um nó no coração da gente, de tão bonito. Vou copiar uns trechos depois aqui no blog. Eu já tapei o índio de elogio aqui no blog, pois o homem tem o texto mais agudo e criativo que já li na tradição do Cyro Martins e demais. O Otacílio do homem é descendente direto do Chiru do Cyro, comendo o pó das Mitsubicho. Queiroga é bom demais, e agora vai atacar de ONG, com revista e coleção de livros.
Mas eu só conto o resto depois que alguém levar o exemplar do "Tratado Ontológico..." que está ali na mesa de exposição da
Cesma. Compra que eu garanto!
Prá gente poder trazer mais.

quinta-feira, agosto 25

Ibsen

Não é o Pinheiro. É o do teatro. Na peça "O Inimigo do Povo", há um trecho que faz uma provocação aos avanços sociais e políticos da época:
"Um partido? É uma salsicharia onde se reduzem cabeças a guisado. Guisado de carne ou guisado de galinha, de todos eles."
E mais adiante:
"Os programas de partido exterminam todas as novas verdades viáveis."(...) O que é preciso exterminar são os chefes de partidos. Por que um chefe de partido, compreende, é uma espécie de lobo, sim, é como que um lobo devorador que para viver precisa de umas quantas ovelhas do rebanho, todos os anos."
Mas o tema é mais complicado que parece. Ibsen foi um dos tantos intelectuais que desconfiavam das conquistas sociais.
(Da série de 1995)

A política e o tempo

Fazer, agir, transformar o mundo: esses verbos são legítimos representantes da dimensão da prática humana, dimensão que nos instala diretamente na temporalidade. Se a nossa "boa alma" (veja o post anterior) se acha comprometida com a transformação da sociedade, latu sensu , desde logo ela passa a ter uma relação especial com o tempo. Ela deixa de ter todo o tempo do mundo, ela tem pressa, urgência, impaciência. Aos poucos a alma boa cria certos esquemas de administração da vida humana que talvez possam apressar e garantir a eqüidade, a justiça, o fim da exploração do homem pelo homem. Ora, ocorre que nesse momento a boa alma sofre a tentação da teoria, a tentação de encontrar algum tipo de verdade sobre a história e a sociedade que cimente e garanta, com alguma cientificidade, as boas razões e fins que santificam os meios.
Surge então um dilema. No domínio das práticas da vida, a temporalidade é uma condição absoluta, é um componente ou constitutivo absoluto, no sentido trivial de que nossas vidas duram: temos fome, sede, tristezas e alegrias dia depois de dia. Para o que importa nos assuntos da prática humana não temos todo o tempo do mundo: temos apenas o tempo que temos, breve, curto, fugaz; o que deixei de dizer hoje para alguém talvez não possa dizer amanhã, o que fiz hoje talvez não possa desfazer amanhã. Corremos contra o tempo, matamos o tempo, não temos tempo e o tempo nos cobra o que fazemos sem ele.
Ora, se no domínio do fazer humano o tempo é um constitutivo absoluto, no domínio do conhecimento as coisas se passam de modo diferente.
Suponhamos que nossa boa alma, depois de muita reflexão (coisa que lhe tomou muito tempo) finalmente nos comunica que compreendeu o mundo, que já possui a teoria correta sobre a história, que já está de posse da crença verdadeira sobre como deve ser organizada a vida dos homens na face da terra. Seu trabalho será, a partir daí, uma questão de conversão de almas, de levar até às outras boas almas a novidade descoberta, que permanecerá, como toda boa verdade, intocada, externa e alheia aos inconvenientes da duração da vida.
Ora, será este um bom modelo para pensarmos a política? Creio que é nesse tipo de problema que Weber está pensando quando insiste na discussão do vício clerical de querer sempre ter razão, vício característico de tantos intelectuais que se metem na política, pensando-a como verdade descoberta (e não construída...), como conversão das almas (e daí os temas correlados, da fé, traição, boas intenções, pureza de princípios ou convicções e a salvação de si mesmo).
(Segue, ainda de 1995, recuperado das traças)

Intenção e gesto: os fins justificam os meios? (1995)

"Na concepção da esquerda tradicional sempre imperou a máxima de que os fins justificam os meios."
A frase é de José Genoino, publicada em 1995 (ver postagem anterior).
Essa convicção não é privilégio da esquerda tradicional. Desde o clássico trabalho de Max Weber, "A Política como Vocação", (1919) não podemos mais pensar que os paradoxos éticos que envolvem a relação entre meios e fins na política sejam privilégios desta ou daquela tendência ou crença política. O que eu quero discutir é se pode haver alguma relação peculiar entre o desejo de ter sempre razão, em política, e as posições conservadoras, de esquerda ou direita. Essa discussão weberiana sobre o que ele designa como o vício clerical de querer ter sempre razão é uma das passagens mais relevantes do ensaio dele. Em que consiste este vício e de que forma se relaciona com nosso tema?
Weber dá o exemplo do homem que, tendo deixado de amar uma mulher para amar outra, sente-se obrigado a justificar-se diante de si mesmo, dizendo que a primeira mulher não era digna de seu amor, ou que o decepcionou ou qualquer outra razão parecida. Ao invés de simplesmente admitir para si (e para ela) que não gosta mais dela, esse bom homem procura criar uma legitimidade em virtude da qual ele pretende ter razão para fazer a troca de mulheres. Como se não bastasse deixar a antiga mulher, esta ainda é considerada culpada pela separação. Essa mesma alma, quando compete com outro homem pelo amor de uma mulher e o vence, fica convencido do valor menor do rival, pois afinal foi derrotado! Esta alma boa, na política, quando ganha, é porque tem razão, e quando perde, é porque... tem razão! A ética, para essa boa alma, é apenas um meio de se convencer que a razão está sempre com ela. Ela nunca perderá um embate, seja uma guerra, uma eleição ou uma greve. Santificado pelos fins que persegue, a alma boa sacrifica os valores do cavalheirismo para com nossas mulheres, os valores da objetividade e da dignidade.
Até aqui com a descrição do vício, seguindo Max Weber. Mas o que isso tem a ver com nossa discussão?
Creio que podemos acompanhar um pouco mais Max Weber, na lembrança de que quando acreditamos que o trabalho político consiste na imposição da justiça absoluta na terra por meio do poder, precisamos lembrar do que acompanha isso: um partido, centenas ou milhares de partidários ou militantes, que não apenas precisam de recompensas materiais, mas também de recompensas morais de “satisfação do ressentimento e da paixão, falsamente ética, de ter razão”. (Weber, p. 133) Uns tantos militantes conservarão por muito tempo a fé na causa e na pessoa dos grandes líderes, mas o dia a dia da vida aos poucos cobrará seu preço: afinal, é humanamente impossível fazer política sem conversarmos com as potências do diabo e quanto mais conversações com o diabo, mais buscaremos a santificação pelos fins, mais buscaremos a absolvição de nossas ações concretas por meio da pureza das intenções professadas.
Antes de ser um privilégio da esquerda tradicional, a idéia de que os fins justificam os meios pode representar uma tentação para todo tipo de gente, em muitos contextos políticos. Por exemplo, o Brasil, colocado sob a seguinte descrição: um país com enormes injustiças e desigualdades sociais (sob a forma da distribuição de renda e de terra); com enormes massas de miseráveis e excluídos de toda a sorte; com uma pequena classe média, por vezes afluente, por vezes estacionada; com uma elite menor ainda, no mais das vezes insensível ao quadro de exclusão social; com uma economia complexa; com um parque industrial vigoroso; com um sistema educacional e científico deficitário numa das pontas mas sofisticadíssimo noutra. Pensemos agora num certo tipo de alma, pertencente a essa pequena classe média, e que pelos mais diversos caminhos da vida tornou-se solidária para com a sorte dessas grandes massas de excluídos. Um belo dia essa alma conclui que o estado de miséria e exploração é produzido pelos homens e que as coisas não precisariam forçosamente ser assim como são. É preciso, pois fazer algo para mudar esse estado de coisas.
(Escrevi isso em 1995! Segue)

quarta-feira, agosto 24

"Manter os financiadores nas sombras"

Acho que foi em 95 que participei em um ciclo de palestras chamado "Pragas da Primavera", creio eu. Ou teriam sido os "Sentimentos de Outono"? Bueno, escrevi um texto com o titulo "Democracia com teu desafeto ou ditadura com teu predileto", que depois de apresentado foi entregue às traças. Nunca o publiquei. Me lembro que cheguei a mandar, santa ingenuidade, para uma revista dirigida pelo José Genoino, pela natureza do tema.
Hoje, em meio a essa conversa sobre o silêncio dos intelectuais e a pretensa crise da esquerda, fui ver se as roedoras tinham deixado alguma coisa. Lá estava o dito, que começava com um problema de conjuntura da época. O problema de conjuntura era o pedido público de desfiliação de um fundador do PT, Cesar Benjamim, que saiu atirando e dizendo coisas como essa que transcrevo:

“Durante a campanha, sugeri a um alto dirigente que abríssemos nossas contas e pedíssemos que os demais candidatos fizessem o mesmo para que a opinião pública conhecesse os financiadores de cada um. Soube então, vagamente, que não poderíamos fazer isso, tínhamos de manter nossos financiadores na sombra. Senti-me traído. Ao ir à tribuna do 10º Encontro estava determinado a dizer coisas duras. Mas eram muito menos duras do que o que se diz nos corredores. Minha frase sobre a Odebrecht não foi dúbia, nem irônica. Não houve desvio individual de conduta. Tudo decorreu de uma lógica, a das máquinas eleitorais (que, aliás, só no PT, entre os grandes partidos, ainda pode ao menos ser questionada).
Dirceu é inocente, mas não o sistema de poder que governa o PT, aliás com apoio das bases. Boa parte do que resta delas está cooptada.” (Cezar Benjamin, Folha de S. Paulo, 23 de Agosto de 1995)

O César saiu tapado de críticas. Uma delas foi escrita pelo José Genoíno, dias depois. Veja esse trecho:

“Os eventuais erros que o PT possa ter cometido no financiamento das campanhas não devem ser debitados a essa ou àquela corrente. O próprio partido, no seu todo, é responsável por não adotar um conjunto de regras de conduta dos candidatos e das direções em relação a essa questão. A rigor, quando se trata de finanças, o PT funciona à base da informalidade.” ( ...)

Repare na atualidade da última frase! Mais adiante ele escreve:

“Um partido não pode defender um conjunto de regras para os outros e adotar práticas que as contradizem. A coerência é incompatível com um sistema de dupla moral: uma para ser pregada e outra para ser praticada. Se o discurso que fazemos para os outros deve valer para nós mesmos, na questão que diz respeito ao financiamento de campanhas o PT deve praticar aquilo que ele entende deva ser válido, legalmente, para todos os partidos. Claro que o PT deve levar em conta a legislação para viabilizar-se eleitoralmente. Mas, se a legislação é falha, o PT deve pautar sua conduta em um conjunto de regras corretas a serem propostas e institucionalizadas para todos. É na discussão sobre legislação eleitoral e regras de financiamento de campanhas que o PT deve encontrar a solução para seus dilemas sobre essas questões. A solução, portanto, é pela via da política, evitando-se o vale-tudo do eleitoralismo, e não via purgação moral. Nesse particular, acredito que o critério da transparência, da publicidade e da limitação das doações para campanhas é o melhor ponto de partida para o PT definir sua posição sobre o tema." (José Genoino, Folha de S. Paulo, dia 31 de agosto de 1995).

Falou e escreveu. Não parece ter lido.

Eu aproveitei o escrito de Genoíno, nos idos de 1995, para criticar a pressa e a superficialidade de alguns pretensos representantes da esquerda brasileira, para quem certos fins justificavam certos meios. Tudo isso agora é história, não?
Em todo caso, vou ver o que as traças deixaram do meu artigo de 95 e pendurar na rede. Por essas e por outras, quando me falam em crise da esquerda, lembro do Tonto, falando para o Zorro, que, apreensivo, dizia que estavam em apuros, cercados pelos índios: "- Nós quem, cara-pálida?"


terça-feira, agosto 23

Ernst Tugendhat em Santa Maria?


Ontem a noite o auditório do Goethe Institut, em Porto Alegre, transbordou de gente interessada no tema da morte. Marcada para começar às 19.00 horas, a palestra que foi divulgada como "Reflexões Filosóficas sobre a Morte" começou com um atraso de vinte minutos, para que fosse instalado um telão do lado de fora do auditório.
O titulo da palestra na verdade era "O nosso temor da morte", e concentrou-se numa reflexão sobre as atitudes que temos diante da morte, os distanciamentos que estabelecemos em relação a ela, e o que ocorre nas situações de proximidade da morte, quando muitas vezes ocorre a pergunta sobre o modo como temos vivido.
Tugendhat ofereceu uma hora de uma densa e original reflexão sobre um tema que não deixou de atrair a atenção dos filósosos (ele lembrou Kierkegaard, "a morte é o mestre da seriedade"), mas que segue sendo um dos mais difíceis de tratar. Valeu a pena a viagem. Tugehdhat deverá estar em Santa Maria no dia 5 de setembro, uma segunda-feira. Aguarde notícias. O tema provavelmente será esse mesmo.

domingo, agosto 21

Os trilhos do pensamento

Novamente cheguei no meio do quadro da Viviane Mosé. Ela estava segurando uma manga, em uma feira de frutas e verduras, e perguntava se a manga podia ser a manga e podia não ser a manga, ao mesmo tempo. Mencionou Aristóteles. Era uma deixa para falar no principio da não-contradição, uma espécie de condição do pensamento com sentido. Logo depois ela começou a falar da lógica como sendo uma espécie de trilho do pensamento, num tom relativamente neutro, apontando para os antigos trilhos de bonde do Rio de Janeiro, como a dizer que o pensamento humano precisa como que de certas regras ou condições.
Ela se deu ao trabalho de dizer que a lógica não dizia respeito ao conteúdo do pensamento, mas sim à sua forma, mas uma frase de tal porte ficou sem maiores explicações, apenas que há uma diferença entre "o quê" se diz e "como" se diz. E logo deu um pulo no roteiro para se perguntar se o "discurso lógico" pode ser mantido no mundo dos afetos. A resposta foi convencional e simplificadora: "pensar é criar, pensar é mais do que seguir o correto". É simplificadora e convencional porque sugeriu, se acompanhei bem, uma relação excludente entre as condições de pensamento "correto", de um lado, e "criador", de outro. Mas isso é um um pseudo-conflito. Os personagens dos maios criativos dramas somente fazem sentido para nós porque estão construídos de acordo com os "trilhos" . Se um ser humano se contradiz, isso nada tem a ver com as "condições da linguagem". Como diria Walt Wittmann, a gente se contradiz porque dentro de nós habitam multidões. O tópico não ficou bem caracterizado.
No próximo final de semana, tchamm, "penso, logo existo!"
Mas foi legal no final, uma ceninha com Aristóteles, em "Alexandre" e a dica do site da Globo, com dicas de livros sobre o tema.
Quem viu o início para contar?
Comentários?

Homenagem ao Prof. Arno

Um visitante que não quis se identificar deixou este comentário, lá embaixo, que reparto com os leitores do blog. Aqui em Santa Maria a morte de Arno Viero continua pesando entre nós com a mesma intensidade com que ele nos cativou, nas muitas vezes que esteve aqui.
"O Professor Arno deu sua última aula para a turma de Biblioteconomia (2* período), a qual eu pertenço. Ele terminou por volta das 17:40. E parecia se despedir de todos nós, brincou muito, deu conselhos e exaltou a auto-estima da turma, muito discriminada por outros cursos. Enfocou a necessidade de um esforço extremo para mantermos nosso CR, sempre elevado, a fim de termos condições de ingressar de forma mais eficaz no mercado de trabalho, cada dia mais exigente. Se pôs a disposição da turma e pediu total empenho da mesma. Contou alguns casos da sua vida docente e se despediu com um até logo. Fiquei chocada ao chegar pela manhã e saber do acontecido. Não pensei duas vezes: fui prestar uma última homenagem àquele, que de forma bem breve, marcou minha vida para sempre! É uma grande perda!"

Deu a louca nos ipês


Deu a louca nos ipês amarelos do Campus. Eles florescem na primeira semana de setembro. Este ano, na metade de agosto já ofereceram todo o amarelo que podiam nos dar.
Ao fundo está o prédio que no ano que vem abriga o Curso de Filosofia, no terceiro andar, e mais o Curso de História, Arquivologia e Ciências Sociais, na primeira etapa. Depois vem os demais Cursos do CCSH.

Concurso


Quem adivinha de onde é essa foto?

sexta-feira, agosto 19

Gosto se discute

A questão do gosto volta. Nos dias 25 e 26, no Campus da UFSM, ocorre o quinto colóquio da série sobre o gosto, intitulado "Juizo de gosto e experiência estética". Veja a programação:
Quinta-feira, 25.
9.00: Christian Hamm (UFSM) - Notas introdutórias sobre o gosto e o conceito de experiência estética.
10.30: Cristel Fricke (Univ. Oslo, Noruega) - A definição kantiana da beleza na Critica do Juízo. Duas variantes de leitura.
14.00: Sandra Rey (UFRGS) A natureza híbrida da arte contemporânea.
15.30: Christian Klotz (UFSM) Reflexão estética e condições de conhecimento na Crítica do Juízo.
17.00: Jorge de Almeida (USP) Sobre a parcialidade do método da estética da recepção.
Sexta-feira, 26.
9.00: Pedro Costa Rego (UFPR). Schiller e a Estética de Kant.
10.30: Marco Aurélio Werle (USP) Lógica do Gosto ou experiencia produtiva da arte.
14.00: Monica Herrera (UFSM) A percepção da espontaneidade na forma da obra de arte.
15.30: Nara Cristina Santos (UFSM) Arte e tecnologia: emergencia de uma estrutura dinâmica no projeto de Diana Domingues.

O evento será no Auditório Pércio Reis, no prédio da Engenharia, no Campus da UFSM.
O organizador do evento é o Prof. Christian Hamm, do Departamento de Filosofia da UFSM.

quinta-feira, agosto 18

A morte, segundo Tugendhat

Recebi o seguinte convite, do Prof. Draiton:

Palestra: "Reflexão filosófica sobre a morte" Palestrante: Prof. Dr. Ernst Tugendhat (Berlim)
Local: Auditório do Instituto Goethe (Rua 24 de outubro, 112) Data: 22 de agosto de 2005 (segunda-feira) Horário: 19h Entrada franca. A palestra será proferida em português.

"Nosso medo da morte: talvez eu tenha dito demais,
ao falar de nosso medo da
morte. Eu queria ao menos indicar que eu também
tenho medo da morte. Há
pessoas que dizem que não têm medo da morte. Será
que isso significa que
elas não conhecem esse medo ou será que querem dizer
que se desviam desse
medo ou o superaram? Abordarei, no final desta
palestra, a questão de como
se pode superar esse medo; mas, para poder superá-
lo, tem-se, primeiramente,
de tê-lo. A maior parte da palestra ocupar-se-á com
a questão de como deve
ser descrito o medo da morte" (Ernst Tugendhat).

Ernst Tugendhat é, sem dúvida, um dos maiores filósofos contemporâneos, sendo o segundo filósofo alemão mais citado da atualidade (o primeiro é Jürgen Habermas). Nasceu em 1930, em Brno (Tchecoslováquia), transferindo-se, posteriormente, com sua família, para a Suíça e depois para a Venezuela. Estudou nas Universidades de Stanford (Estados Unidos) e de Freiburg (Alemanha), onde concluiu o doutorado em 1956, com um trabalho sobre a filosofia aristotélica intitulado TI KATA TINOS. Uma investigação sobre estrutura e origem dos conceitos fundamentais
de Aristóteles (TI KATA TINOS. Eine Untersuchung zu Struktur und Ursprung aristotelischer Grundbegriffe, 1958). A tese de habilitação foi escrita em Tübingen e teve como título O conceito de verdade em Husserl e Heidegger (Der Wahrheitsbegriff bei Husserl und Heidegger). Foi professor catedrático de Filosofia nas Universidades de Heidelberg (1966- 1975) e de Berlim (1980-1992), depois de ter trabalhado, de 1975 a 1980, juntamente com Jürgen Habermas, no Instituto Max Planck de Starnberg.

Esteve várias vezes no Brasil, ministrando cursos e palestras, e, em 1998, lecionou, a convite do Prof. Dr. Ernildo Stein, durante um semestre, no Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCRS, do qual é professor visitante. Em abril e maio de 2003, ministrou, no referido PPG, um curso sobre o Livro azul de Wittgenstein.

Na sua produção filosófica, publicada em prestigiosas editoras alemãs, figuram obras que se tornaram clássicas, tais como as Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem e Autoconsciência e autodeterminação, que tratam, sobretudo, de problemas ligados à filosofia teórica.

Após a palestra proferida na PUCRS, em 14.05.2003, Prof. Tugendhat autografou o livro Diálogo em Letícia, publicado pela EDIPUCRS em 2002 e que pertence, por sua vez, às obras do autor que tratam de temas da filosofia prática (assim como Problemas da Ética, Ética e política e Lições sobre Ética). Diálogo em Letícia, cuja tradução foi coordenada pela Profa. Dra.
Maria Clara Dias (UFRJ), ex-doutoranda do autor em Berlim, aborda temas altamente relevantes e atuais, tais como a questão da fundamentação da moral, do universalismo moral, a questão da justiça e da corrupção, na forma de um diálogo que transcorre na cidade colombiana de Letícia. Publicada em 1997, essa obra constitui-se num exame crítico minucioso de posições defendidas pelo autor em obras anteriores; a propósito, a postura crítica e autocrítica é, notoriamente, um traço marcante das obras de Ernst Tugendhat.

Algumas de suas obras já traduzidas para o português, além de Diálogo em
Letícia (EDIPUCRS, 2002; Dialog in Leticia, 1997): Não somos de arame rígido (Ed. da ULBRA, 2002); O livro de Manuel e Camila. Diálogos sobre a moral (Ed. da UFG, 2002; Wie sollen wir handeln, Reclam,
2000); Lições sobre ética (Vozes, 1996; Vorlesungen über Ethik, Suhrkamp, 1993); Propedêutica lógico-semântica (co autora: Ursula Wolf, Vozes, 1997; Logisch-semantische
Propädeutik, Reclam, 1983) e Lições introdutórias à filosofia analítica da linguagem (tradução parcial, Ed. da UNIJUI, 1992; Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische Philosophie, Suhrkamp, 1976).
No segundo semestre de 2003, Prof. Tugendhat publicou o livro Egocentricidade e mística (Egozentrizität und
Mystik) pela renomada editora Beck, de Munique.

As greves brancas

Ao contrário dos demais anos, parece que neste os servidores públicos federais adotam uma estratégia diferente quanto ao calendário de greve. Ao invés de uma greve unificada de servidores públicos, que era o procedimento usual (o índice reivindicado é o mesmo) parece que cada setor do funcionalismo entra em greve isoladamente, como vimos no caso da greve da previdência, que durou 76 dias. Desocupado o calendário, outro setor começa sua greve, e deve ter um prazo semelhante de duração, uns dois meses e pouco.
Outro caso é o da greve de professores, uma realidade mais complexa, pois um professor hoje muitas vezes está envolvido em projetos que não podem parar. Pense, por exemplo, no caso dos professores envolvidos nesse projeto da antena ali de São Martinho, nos prazos da pós graduação, no eventos, colóquios, simpósios, etc, muitos deles internacionais.
O quadro político não é bom. Pela primeira vez uma pesquisa indica que Lula perde para qualquer outro candidato. O que ele vai fazer daqui para frente é tentar terminar o mandato. Os apoiadores das greves pertencem a oposição “ de esquerda” ao governo, e as greves devem ser cada vez mais políticas, no sentido de começar a gritar o tradicional “Fora quem está no Palácio do Planalto”.
As greves no setor do funcionalismo publico Greve de SPF são greves brancas, sem rastros nas fichas funcionais. Funcionam mais na base da paixão, como protesto, atendido nas beiradas, para que as partes continuem perseverando.

quarta-feira, agosto 17

Hans Sluga

O filósofo Hans Sluga é papa em alguns assuntos da filosofia contemporânea, e em dezembro virá a Santa Maria. É a primeira vez que vem ao Brasil. Pois é, desta vez parece que tudo vai dar certo e Hans Sluga (entre outras, é o editor do Companion da Cambridge sobre Wittgenstein) estará em Santa Maria, nos dias 7 a 9 de Dezembro, em um simpósio sobre a concepçao fregeana da verdade. Digo "desta vez" porque ele deveria ter vindo no ano passado, e por problemas com seu green card ele não pode sair dos EUA.
O Simpósio está sendo organizado pelo Prof. Dirk Greimann, do nosso Departamento de Filosofia.
Façam as reservas.

"Senhores Usuários"

Fui pegar um material na Biblioteca Central da UFSM agora de tarde. A porta estava fechada, com um cartazete pelo lado de fora. Dizia assim:
"Senhores Usuários: greve dos servidores públicos federais a partir de 17/08/05 por tempo indeterminado".

Mais um blog na rua

No quadro ao lado há um link chamado "Filosofia da Linguagem Comum". Trata-se de um blog criado para a disciplina sobre o mesmo tema, com postagem de textos para os debates em aula. Os alunos da disciplina participam como membros. Quem quiser espiar as conversas, fique à vontade.

terça-feira, agosto 16

Carnaval, filosofia e anarquismo

No ultimo domingo a Folha de S. Paulo publicou duas páginas com um debate sobre o sentido da rebelião no mundo de hoje, sobre a eficácia dos movimentos de antiglobalização e as perspectivas da democracia. Um dos textos na verdade é uma entrevista com Joseph Heath, um filósofo canadense que diz que o capitalismo "precisa da rebelião para se reproduzir e que os valores criados pela contracultura além de serem absorvidos pelo mercado são o motor de sua expansão". O outro texto é um artigo escrito pelo antropólogo David Graeber, que além de ser um grande antropolólogo é um dos teóricos contemporâneos do anarquismo. No texto, Graeber defende os movimentos antiglobalização, "associa a democracia majoritária com a capacidade do Estado de coagir as minorias e diz que o verdadeiro anarquismo é feito de escolhas consensuais".
Acho que o debate ali feito vem ao encontro das perguntas que muita gente tem se feito, sobre o que e como pensar sobre as perspectivas de participação politico-social no mundo de hoje, quando as tradicionais grandes bandeiras se esfarrapam. O que tem de petista em crise, não é mole. Pensando nisso eu postei as matérias da Folha nos meus Arquivos. O nome do arquivo é "O Carnaval está em marcha".
Para os alunos de Prática em Filosofia: dá um bom tema para debate e ensaio. Quem se candidata?

Tchekov e a mentira

Tomo a liberdade de postar aqui um comentário feito por Frank Sautter:

Numa carta endereçada ao seu irmão Nikolai, o escritor Anton Pavlovitch Tchekov diz o seguinte a respeito das pessoas cultas: "Elas são sinceras e têm horror à mentira, como se fosse o fogo. Elas não mentem nem em relação às pequenas coisas. Uma mentira é um insulto àquele que ouve e o deixa numa posição inferior aos olhos daquele que fala" (Fonte: Lendo Tchekov, de Janet Malcolm).

segunda-feira, agosto 15

O silêncio dos intelectuais

"O silêncio dos intelectuais" é um ciclo de conferências, de uma série intitulada "Cultura e pensamento em tempos de incerteza". Datas: de 22 de agosto a 5 de outubro, transmitida em tempo real, na forma de videoconferências, para as principais universidades federais do país. Não sei se Santa Maria está nesta lista!!!
O evento foi concebido e organizado pelo Adauto Novaes (lembra de Os sentidos da paixão, O olhar, O desejo, Ética? Alguns dos participantes: Marilena Chaui, Francisco de Oliveira, Marcelo Coelho, Jean-François Sirinelli, Sérgio Paulo Rouanet, Renato Janine Ribeiro e José Miguel Wisnik.
A hipótese do Adauto é que haveria um marasmo na cena pública. Será? O argumento dele parte da idéia que há uma crise dos ideais universais, que sempre foram a matéria-prima dos intelectuais. "Quem nega que vivemos, hoje, problemas com os conceitos de Liberdade, Justiça, Razão e mesmo com os Direitos estabelecidos pelo Iluminismo e pelo republicanismo? Domínio quase absoluto do relativismo (na cultura, na política, nas artes etc. tudo se equivale. Nunca a idéia de Verdade foi tão negada); pragmatismo; ceticismo na política; submissão do trabalho intelectual aos interesses da tecnociência e à demanda política.” (...) “É preciso também descobrir até que ponto a crise é causa, até que ponto ela é conseqüência da decadência do intelectual. Nesse sentido, é importante questionar a relação que a ‘inteligência’ tem mantido com os meios de comunicação, em especial com a televisão. Se antes o intelectual debatia a Felicidade ou a Liberdade, por exemplo, hoje quem pensa é chamado a falar sobre poder, luta de interesses, economia doméstica, jogos amorosos etc. Há um reflexo disso na imprensa. Quando Sartre – pensador que muito nos inspirou na concepção do ciclo – veio ao Brasil, em meados da década de 1960, saíram sobre ele mais de duzentos artigos; hoje o que dá mais de duzentos artigos é uma loja da moda, que vende pulseiras da moda.”

A primeira palestra é de Marilena Chauí: "Intelectual engajado, figura em extinção?"
Por sinal, com essa fala, ela rompe o silêncio, creio.
O tema não poderia ser mais polêmico.

Filosofia da Mentira (III)

No início de julho houve uma discussão aqui no blog sobre a Filosofia da Mentira. Retomo o tema, ainda mais atual, para indicar um outro escrito sobre a mentira. Lembrando: o texto clássico sobre o tema é do Santo Agostinho, De Mendacio, (Sobre a Mentira), escrito em 395. Agostinho parece não ter gostado do texto, mandou queimar (felizmente mentiram para ele e não queimaram o texto) e escreveu outro (Contra a Mentira). Um outro texto é o de Montaigne, um ensaio publicado no volume 1 dos Ensaios (tem nos Pensadores). Chama-se "Dos Mentirosos". Veja um trecho:
Sabe-se que os gramáticos estabelecem uma diferença entre dizer uma mentira e mentir. Dizer uma mentira é, na opinião deles, adiantar uma coisa falsa que a gente crê verdadeira, ao passo que na língua latina, da qual provém a nossa, mentir é falar contra a própria consciência."
Pensando agora no comentário do Adriano: o tema da mentira tem mais do que uma inversão do conceito de dizer a verdade, como sugere o texto de Bonhoeffer. A idéia de resolver o problema dizendo-se que a mentira é o contrário da verdade não dá conta de muitos aspectos do tema: mentiras brancas, placebos, etc.
Pensando agora sobre ensino de filosofia: acho que a gente perde um tema e um gancho importante quando a gente elabora aulas sobre o tema da verdade, a partir dos manuais de segundo grau. Se estou bem lembrado, todos os bons manuais do ramo sempre abordam o problema da verdade, e ele nem sempre diz a que vem, pois estão centrados nos aspectos semânticos do tema (relação com a 'realidade'). Junto com o problema semântico, que é central na discussão tradicional sobre 'verdade', deveríamos nos dar conta que o tópico tem uma dimensão pragmática essencialíssima, na qual surge, com naturalidade, a filosofia da mentira.
Essa foi uma das razões de nosso interesse pelo texto de Bonhoeffer, que está nos Arquivos ao lado.

sábado, agosto 13

O Presidente pediu desculpas?

Todos os jornais estão dizendo que o Presidente Lula pediu desculpas ao povo brasileiro, no discurso de ontem. Uns poucos comentadores acham que não. Creio que esses poucos tem razão. Isso me fez lembrar um clássico da filosofia contemporânea, John Austin(1911-60) que escreveu um artigo chamado "Em favor das desculpas" (A plea for excuses).
Austin escreveu e publicou pouco. Seus escritos foram reunidos em um pequeno livro, Philosophical Papers, que contém doze textos escritos por ele. O outro texto conhecido dele, Como fazer coisas com palavras foi editado por amigos a partir das notas que deixou.
Austin tem um lugar garantido na história da filosofia porque foi o primeiro filósofo, em 2.000 anos, que se deu conta de uma certa falha em nossa maneira de pensar as ações humanas; a falha está em não se perceber que fazemos coisas com palavras, em um sentido forte. Toda a área de estudos sobre os performativos, na filosofia e na lingüística contemporânea, foi descortinada por ele.
Eu me lembrei de Austin, dizia, porque todo mundo está dizendo que Lula pediu desculpas ao povo brasileiro no fraco discurso de ontem. O discurso foi fraco em muitos sentidos, até na estudada e falsa calma com que foi proferido. O aspone que escreveu o texto escolheu uma forma indireta para apresentar as desculpas que, ao fim e ao cabo, não caracteriza o pedido de desculpas.
Trata-se do seguinte: é preciso distinguir, neste caso, o proferimento declarativo do proferimento performativo. No declarativo, por assim dizer, apresentamos um estado de coisas. Se alguém diz: "Temos que comprar uma cafeteira nova", você se sente autorizado a concluir o quê? Que o fulano está assumindo um compromisso, expressando um desejo, manifestando sua tristeza diante de sua própria preguiça em mandar arrumar a que estragou? Digamos que o fulano está assumindo um compromisso. O que se segue? Que ele vai cumprir? E quando? Quando o salário permitir, quando sair o empréstimo do Marcos Valério?
A frase do Presidente Lula foi: "Eu não tenho nenhuma vergonha de dizer ao povo brasileiro que nós temos que pedir desculpas. O PT tem de pedir desculpas. O governo, onde errou, tem de pedir desculpas."
Repare: a primeira frase é um primor de dupla ambiguidade. Diga qual é o tema da frase, o ter vergonha ou a necessidade de pedir desculpas? A segunda frase é menos ambígua: ela diz que o PT tem de pedir desculpas. A frase, portanto, se dirige ao PT, convida o PT a pedir desculpas. Da mesma forma, a segunda.
Donde se conclui que a primeira também: o presidente se dirige aos seus ministros, ele se inclui e conclui: "Nós temos de pedir desculpas".
Pois então que peçam.
Repare: você pisa no pé de alguém, sem querer, no Expresso Camobi. Aí você olha para o sujeito e diz assim: "Pisei no seu pé. Eu tenho de pedir desculpas." Você não acha que o sujeito vai ficar olhando e esperando, "pois então peça, vivente!".
Aí você olha no olho do gauchinho e diz:
"Me desculpa!"
Tá feito.
Lula não fez isso, infelizmente. Para fazer coisas com palavras, como disse Austin, existem umas regrinhas não-explícitas, mas que todos nós conhecemos.

quinta-feira, agosto 11

"Sou gaúcho macho e nunca tive celular".

Niterói, Jornal "O Fluminense"
(Publicado em 09/08/2005)

Estudante assisitiu à morte de professor

Liriane Rodrigues e Andréa Uchôa

Aluna da Universidade Federal Fluminense (UFF) assistiu ao assassinato do professor de filosofia da faculdade Arno Aurélio Viero, de 45 anos, pelo retrovisor de seu carro. A testemunha, segundo informações de uma fonte da Polícia Civil, é a peça-chave para a elucidação do crime, ocorrido na tarde da última segunda-feira, no Ingá. Apesar desse e de outros casos de violência já registrados na região, a Polícia Militar continua a tomar providências tardiamente. Uma viatura só foi deslocada para o local um dia após o homicídio.

A estudante, que estava parada em um sinal de trânsito, no cruzamento das ruas Tiradentes e Visconde de Moraes, no carro da frente ao da vítima, é a esperança de que um retrato-falado do criminoso seja feito. Segundo o delegado-titular da 76ª DP (Centro), Reginaldo Guilherme, policiais civis tentam localizar outras testemunhas. A principal linha de investigação da polícia é tentativa de assalto, delito comum no bairro.

"Essa área é tensa, com muitos focos de assaltos, principalmente à noite. Mas dessa vez, foi muito descaramento. Um professor foi assassinado em plena luz do dia, com a rua movimentada", disse indignado José Maurício Álvarez, coordenador da pós-graduação em Artes e Produção Cultural da UFF, que chegou a ver Arno Viero poucas horas antes do crime.

O vice-reitor da universidade, Antonio José Peçanha, confirmou que assaltos, furtos e seqüestros-relâmpagos se tornaram parte do cotidiano de quem freqüenta e mora na região. A gravidade da situação é tanta que a universidade solicitou inúmeras vezes um policiamento ostensivo e constante.

"Há um tempo, pedimos a colocação de uma viatura fixa próximo ao Instituto de Artes e Comunicação Social (IACS). Porém, o comando do batalhão da época disse que não era necessário, alegando que ali não tinha grande movimento", revelou Peçanha.

Segundo ele, há cerca de dois anos, a UFF chegou a arcar com as despesas para reforma de uma viatura da PM para que pudesse haver ronda no local. Entretanto, o patrulhamento durou apenas um ano. Há quase dois meses, o comandante do 12º BPM (Niterói), tenente-coronel Marcus Jardim, se reuniu com representantes de universidades para conhecer as necessidades da região. Mas, segundo o superintendente de administração da UFF, Mário Augusto Ronconi, até agora nada foi feito.



Faixas pretas

Faixas pretas, algumas salas de aula sem alunos e portas fechadas no Departamento de Filosofia da Universidade Federal Fluminense (UFF). Assim, a faculdade, seus funcionários e estudantes manifestaram a dor e a indignação por perder o professor do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (ICHF), assassinado às 17h30min da última segunda-feira, com um tiro no tórax, após reagir a um assalto. A bala atravessou o coração e se alojou no fígado.

Em comunicado oficial, o diretor do ICHF, professor Francisco Palharine, informou que o instituto "estará de luto por três dias, de modo a manifestar sua solidariedade a todos os familiares e amigos, mas também protestando contra a falta de segurança de Niterói e, particularmente, nas imediações do campus (...). Hoje (ontem), também, a UFF estará hasteando suas bandeiras de forma a expressar este luto".

A funcionária da biblioteca da UFF, Miriam Cruz, de 50 anos, foi aluna de lógica de Arno e contou que o professor tinha a fama de ser muito exigente com os estudantes.

"Ele não era aquele típico gaúcho intempestivo, mas não agressivo", disse ela, completando: "Uma outra aluna contou que ele já tinha sido assaltado no semestre passado e reagiu". A versão de reação ao assalto não é aceita por Palharine.


Despedida - Apaixonado pelo Rio de Janeiro e fanático pelo Botafogo, o professor da UFF Arno Viero teve seus últimos desejos realizados. Viero foi sepultado ontem à tarde no Cemitério São João Batista, em Botafogo, vestindo uma camisa do seu time do coração, como era de sua vontade. Amigos do professor confeccionaram uma coroa de rosas brancas com a inscrição "Sou gaúcho macho e nunca tive celular". Viero escreveu esta frase e disse aos mais próximos que fazia questão de que ela fosse exposta no dia de seu enterro.

"É hábito da maior parte dos filósofos, não gostar de celular. Ele preferia o diálogo frente a frente", revelou Francisco P alharine.

Segundo ele, o professor – que saiu de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 1992, mesmo ano em que começou a lecionar na UFF - costumava debater o tema violência em sala de aula.



Filosofia

Lá se vão quatro anos, mas parece que foi ontem que entramos pela primeira vez na sala de aula do Instituto de Filosofia da UFF e encontramos aquele professor estrábico, sotaque gaúcho, cabelos compridos e didática impressionante. Éramos calouros de Comunicação Social e Arno Viero fez questão de mostrar – como poucos no meio acadêmico – que universidade pública é coisa séria. Sempre pontual, ensinava, indicava leituras e, por isso, exigia.

Se suas animadas aulas cativavam a maioria dos alunos, despertavam tremendo mal estar em outros – tem gente que acha filosofia inútil? Mas, com certeza, ele se despede deste mundo com uma legião de admiradores, como nós. Não é qualquer um que consegue transmitir idéias de Platão, Descartes, Hume e Kant sem rodeios. Brincalhão – certa vez, comparou as orelhas do filosofo austríaco Karl Popper às do ratinho Topo Giggio! –, Arno atraía alunos de outros cursos para suas aulas.

Só temos a lamentar profundamente seu assassinato. Arno foi um dos professores dos quais mais nos recordamos com saudade.

Todo mundo está cansado de saber que assaltos e mortes são em nossa cidade, em especial nos arredores da UFF, onde, inclusive, outros professores já tiveram seus carros roubados. Já enviamos abaixo-assinados pedindo policiamento. E nada (Emanuel Alencar e Manoela Cesar)

terça-feira, agosto 9

Prof. Arno Viero


O Professor Arno Viero faleceu.
Ao sair da Universidade, depois de uma aula, foi assassinado por pessoas que tentavam roubar seu carro.
A Universidade Federal Fluminense, onde trabalhava, divulgou a seguinte nota:

"É com profundo pesar que a administração superior da UFF, em nome do reitor em exercício, professor Antonio José dos Santos Peçanha, comunica o falecimento do professor Arno Aurélio Viero. Neste momento, estamos consternados e revoltados pela brutalidade da morte deste professor de Filosofia que ensinou e defendeu princípios da ética e da não-violência.
Arno Aurélio Viero, que tinha 45 anos, engrossa agora a triste estatística de cidadãos niteroienses mortos ou feridos por bandidos que agem impunimente a qualquer hora do dia. A UFF lamenta, pois, reiteradas vezes, tem solicitado a todas as instâncias governamentais uma segurança para as áreas dos "campi", tendo dado subsídios, inclusive materiais, para que tais atos não acontecessem.
Toda a comunidade da UFF repudia o ocorrido e se solidariza com a família do professor Arno Aurélio Viero.
O sepultamento será realizado hoje, às 16h, no cemitério São João Batista, em Botafogo, Rio de Janeiro."


O Prof. Arno Viero deixa muitos amigos em Santa Maria; ele participou de todos os Colóquios de Filosofia das Ciências Formais, organizados pelo Prof. Abel, e se tornou conhecido entre nós não apenas pela competência profissional, mas também pela irreverência bem-humorada e simpática que marcava suas intervenções, mesmo nos temas mais áridos.
Estamos em luto.

Dom Quixote

Em 2002 um juri de 50 grandes escritores votou em Dom Quixote como "a maior obra de ficção de todos os tempos", marcando o início do romance moderno.
A passagem sobre o combate com os moinhos de vento, quem não ouviu falar nisso? E vejam, no livro todo ocupa apenas uma página.
Há 400 anos foi publicada a primeira edição de Dom Quixote. Seu autor, Miguel de Cervantes, é considerado por muitos como sendo da mesma estatura de Shakespeare e Dante, um maior entre os maiores, e o livro é um dos mais citados na resposta para a "pergunta da ilha deserta": se pudéssemos levar apenas um livro para uma ilha deserta, qual seria? Os mais citados: A Bíblia, Shakespeare, Cervantes.
Em português, a edição mais ao alcance era a da Abril, na tradução de Viscondes de Castilho e Azevedo. Mas agora temos outra: a de Sérgio Molina, pela Editora 34. E mais uma, a mais recente, da LPM, baratinha, em dois volumes. Não há mais desculpa para não se ler um livro fundador.
Mirem-se na leitora Cornélia, 11 anos.

Os moinhos de vento


Capítulo VIII
Do bom sucesso que teve o valoroso Dom Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação

Quando nisto iam, descobriram trinta ou quarenta moinhos de vento, que há naquele campo. Assim que Dom Quixote os viu, disse para o escudeiro:
- A aventura vai encaminhando os nossos negócios melhor que o soubemos desejar; porque, vês ali, amigo Sancho Pança, onde se descobrem trinta ou mais desaforados gigantes, com quem penso fazer batalha, e tirar-lhes a todos as vidas, e com cujos despojos começaremos a enriquecer; que esta é boa guerra e bom serviço faz a Deus quem tira tão má raça da face da terra.
- Quais gigantes? disse Sancho Pança.
- Aqueles que ali vês - respondeu o amo -, de braços tão compridos, que alguns os têm de quase duas léguas.
- Olhe bem Vossa Mercê - disse o escudeiro -, que aquilo não são gigantes, são moinhos de vento; e o que parecem braços não são senão as velas, que tocadas do vento fazem trabalhar as mós.
- Bem se vê - respondeu Dom Quixote - que não andas corrente nisto das aventuras; são gigantes, são; e, se tens medo, tira-te daí, e põe-te em oração enquanto eu vou entrar com eles em fera e desigual batalha.
Dizendo isto, meteu esporas ao cavalo Rocinante, sem atender aos gritos do escudeiro, que lhe repetia serem sem dúvida alguma moinhos de ventos, e não gigantes, os que ia acometer. Mas tão cego ia ele em que eram gigantes, que nem ouvia as vozes de Sancho nem reconhecia, com o estar já muito perto, o que era; antes ia dizendo a brado:
- Não fujais, covardes e vis criaturas; é um só cavaleiro o que vos investe.
Levantou-se neste comenos um pouco de vento, e começaram as velas a mover-se; vendo isto Dom Quixote, disse:
- Ainda que movais mais braços que os do gigante Briareu, heis de mo pagar.
E dizendo isto, encomendando-se de todo o coração à sua Senhora Dulcinéia, pedindo-lhe que em tamanho transe o socorresse, bem coberto da sua rodela, com a lança em riste, arremeteu a todo o galope do Rocinante, e se aviou contra o primeiro moinho que estava diante, e dando-lhe uma lançada na vela, o vento a volveu com tanta fúria, que fez a lança em pedaços, levando desastradamente cavalo e cavaleiro, que foi rodando miseravelmente pelo campo fora. Acudiu Sancho Pança a socorrê-lo, a todo o correr do seu asno; e quando chegou ao amo, reconheceu que não se podia menear, tal fora o trambolhão que dera com o cavalo.

- Valha-me Deus! - exclamou Sancho. - Não lhe disse eu a Vossa Mercê que reparasse no que fazia, que não eram senão moinhos de vento, e que só o podia desconhecer quem dentro da cabeça tivesse outros?
- Cala a boca, amigo Sancho - respondeu Dom Quixote; as coisas da guerra são de todas as mais sujeitas a contínuas mudanças; o que eu mais creio, e deve ser verdade, é que aquele sábio Frestão, que me roubou o aposento e os livros, transformou esses gigantes em moinhos, para me falsear a glória de os vencer, tamanha é a inimizade que me tem; mas ao cabo das contas, pouco lhe hão de valer as suas más artes contra a bondade de minha espada.
- Valha-o Deus, que o pode! respondeu Pança.
(...)

Tudo passa



"Eu queria dizer que eu assisti aquele negócio da filosofia e sabe o que eu aprendi? Que tudo passa, que o que era não é mais, e tudo passa, tanto que eu já nem lembro direito o que aquela pessoa que aparece como filósofa disse. Seria tão bom se os meus professores lessem um pouco esse tal de Heráclito, daí eles iam entender que o que eles dizem passa na cabeça da gente, igual ao caminho do camioneiro. Eu tive uma idéia: já pensou fazer um Big Brother na filosofia, aí a gente vai eliminando aquilo que a gente acha sem importância, o líder disputa, o anjo protege, aí ia ajudar, os meus professores iam ver que tem coisa dentro dos livros que não merece cair nas provas. Bem, eu terminei de ler o D. Quixote e agora estou com os Doze trabalhos de Hércules."
O texto acima é de uma leitora que se assina Cornélia, 11, leitora deste blog; agradeço a ela, de coração, esse belo texto. Em homenagem a ela vou postar a passagem mais famosa de Dom Quixote.

Textos para as aulas

Nos Arquivos (clicar ao lado) já estão disponíveis textos para as aulas deste semestre. O primeiro deles é uma tradução do Livro Azul. Sobre ele, em breve espero fazer uma postagem dando maiores instruções de uso.

domingo, agosto 7

Tudo passarinho.

Quando liguei a tevê, era tarde; a Viviane Mosé já estava no bondinho, dizendo que tudo passa, tudo passará, tudo muda, tudo mudará, o bondinho se movia mas a montanha de pedra se movia também, pois tudo está em movimento e transformação. E logo depois entrou um caminhoneiro, achei que estava carregando a mudança dela, mas não, era para conversar sobre a estrada, que era que nem o rio, o famoso rio do Heráclito, o herói filosófico da noite. A estrada, a cada viagem, mudava um pouquinho, dizia o simpático motorista mineiro, ao que parece. E surge a palavra "devir" escrita na tela, e uns skatistas descendo uma ladeira, e umas crianças fazendo castelos de areia na praia, e uma família fazendo uma refeição, e antes disso um físico dizendo que Heráclito era um pensador muito atual, porque as moléculas se movem dentro da montanha de pedra e voltou o caminhoneiro e eu fiquei com uma pena danada do Parmênides, coitadinho, acho que a Vivi não lembrou dele! Ufa e mais bufa, tudo passa, tudo passou muito depressa, foi muita transformação para tão pouco tempo. Quem assistiu tudo, por favor me conte!

Ibrahim Ferrer (1927-2005)

Morreu hoje Ibrahim Ferrer.
Dizem os biógrafos que ele nasceu em um salão de baile, em Santiago, Cuba. Mais tarde foi morar em Havana. Escreveu algumas canções, mas destacou-se mais como intérprete. Foi um dos musicos cubanos retirados do esquecimento por Wim Wenders e Ry Cooder.
Entre as interpretações mais emocionantes que deixou, fico com "Aquellos Ojos Verdes" e "Silencio", de Rafael Hernández. "Silencio, que están durmiendo los nardos y las azucenas. No quiero que sepam mis penas porque si me ven llorando morirán".
A Cesma tem "Buena Vista Social Club", de Wenders, onde podemos vê-lo cantando.

Aulas

Volta às aulas.
O blog diminuiu o ritmo nas ultimas semanas. A partir de manhã, com a volta às aulas na UFSM, o ritmo deve voltar. Nas férias, muita vagabundagem boa. De produto, pouca coisa, uma versão melhorada da tradução da primeira parte do Livro Azul, de Wittgenstein, que preparei para a DCG sobre Filosofia da Linguagem.
O sindicato deve discutir uma proposta de greve dos professores a partir do dia 15 de agosto. Até que faz sentido, depois dos treze por cento dos militares. Mas é só ver o que acontece com a greve dos previdenciários para arrepiar. Nessa crise, uma greve de professores universitários federais será apenas uma tolice, eu acho. Me convençam se estiver errado.

quarta-feira, agosto 3

Mais vagas no vestibular para Filosofia?

O Prof. Reitor, na manhã de hoje, deu uma entrevista para a Rádio CDN sobre a situação da moradia estudantil. Lá pelas tantas o assunto enveredou para o novo prédio do CCSH, que está sendo construído nas proximidades do Planetário da Universidade, e que deverá estar concluído até o final deste ano. Isto mesmo, no ano que vem as aulas da Filosofia já serão no novo prédio. Pergunta vai, resposta vem, o Prof. Reitor disse que certamente todos os cursos que se mudarão para o novo prédio poderão ter suas vagas ampliadas já para o próximo vestibular, pois as salas de aula serão maiores, melhores e mais numerosas. Isso inclui, disse ele, os cursos de Filosofia, Arquivologia, Ciências Sociais e História, numa primeira fase.
Ele vai fazer essa proposta nos próximos dias.

terça-feira, agosto 2

"Ser ou não ser?" (3)

Como lidar com um sofrimento demasiado, que julgamos não merecer? Esse foi o tema do terceiro quadro do "Ser ou não ser?" Ou seja, uma das tantas formas de se lidar com o tema do mal, por exemplo, e, sem duvida, uma questão clássica da filosofia. Na linguagem da tevê, para ligar o espectador, o roteirista parte de uma situação particular, que poderia ser a de qualquer um de nós. No caso, um mecânico, Marcos Mariano, é preso e fica na cadeia por 19, respondendo por um crime que não cometeu. Em nossas vidas - essa é a provocação - podemos ter visto coisas assim ou passamos por algo parecido, mesmo que em ponto muito menor. O que fazer? Apertar os dentes? Apelar para Deus e o Diabo? O roteiro evitou discutir a segunda alternativa, e só por isso já merece algum respeito. Ou você diria que o roteirista fugiu da raia? Não sei. Podemos ver o quadro de um outro ponto de vista. Ele faz uma sugestão - diria o Giannotti - uma insinuação. O quadro insinua que o tema do sofrimento, que é tão facilmente resolvido por uma religiosidade povoada de diabos, pode ser enfrentado e discutido em outros termos de referência.
A segunda parte do quadro é mais complicada. O tópico era "a importância da arte na vida". Seguiram-se menções a Nietzsche, Grécia Antiga e a forma como a arte é capaz de tornar a vida mais intensa e alegre, tudo isso em poucos segundos, o que gera um certo pastel de batata conceitual. Volta do Mariano, o preso injustiçado: ele se pergunta, afinal, porque uma desgraça dessas acontece comigo? É a dica para entrar o conceito de tragédia, e da tragédia grega, e o roteiro cita sófocles, Ésquilo e Eurípides; para ligar a memoria do telespectador, o roteiro leva em conta a memória novelística do espectador: "Lembra da novela do Dias Gomes, aquela de 1987, com a Vera Fischer, sobre o cara que sem saber, mata o pai, o tal do Édipo?" Pois é, Grécia!
E tome mais Antígona e Schiller, e tome a arte como sublimação da dor, a arte como um mecanismo para a criação de um espaço de afastamento da dor. Pois "podemos nos relacionar com a dor por meio da arte".
Essa segunda parte dá a impressão que ninguém queria abrir mão do que julgava importante, e socaram no roteiro muito mais do que seria adequado para o pouco tempo disponível. Bom material, mas a cada segundo a gente podia sentir a atenção ficando mais frágil, porque mais perdida diante de tantos nomes e situações.
Final: "para sobreviver, o ser humano precisa de conhecimento, mas para viver precisa de arte." Como conclusão de um silogismo, seria frágil, pois as premissas não foram apresentadas; como frase para fechar o quadro, no espírito de Nietzsche, está bem.
Agora, se você é professor de filosofia, diga lá: como você trataria uma pergunta sobre o sofrimento demasiado, injusto, se fosse feita por um aluno, depois de assitir o programa?

"Ser ou não ser?" (2)

Outro filósofo, de coturno ainda maior, diz que "uma coisa é jornalismo filosófico e outra é a reflexão, que implica em ócio, sossego e tempo. Não sou contra, o problema é não confundir uma coisa com outra. Não haverá uma discussão filosófica de conceitos filosóficos, apenas insinuações".
O Professor José Arthur Giannotti, autor da frase, não pretenderia, por certo, que o projeto da Globo fosse o de fazer "uma discussão filosófica de conceitos filosóficos". Aí sim, como se diz no fundo do Formigueiro!
Os editores do quadro de filosofia, Eugenya Moreira e Bruno Bernardes, estão apostando no quadro, exatamente no espirito de uma "incitação".
As declarações estão na Folha de São Paulo, do dia 17 de julho passado.

"Ser ou não ser?”

Assisti o terceiro episódio da série de Filosofia no Fantástico, no domingo passado. Não vi o segundo. Continuo achando interessante. Mas eu sou o menor dos anões, como diz mestre Guina.
Nesse meio tempo, filósofos de alto coturno baixaram a lenha. Roberto Romano (Unicamp) disse que: “Não que o meio não tenha condições nem o público. O problema é que a filosofia exige raciocínios longos e uma lógica dedutiva e indutiva completa. É um projeto difícil de ser exposto.” Assim, segundo Roberto Romano, os meios mais adequados para a filosofia são o teatro, e o cinema.
Bueno, no dia em que fazer filosofia somente seja possível a partir de uma “lógica indutiva completa”, estaremos perdidos e sem filosofia. É evidente que o RR foi pego no meio de um assunto “difícil de ser exposto”, pois ele mesmo parece ter feito uma declaração capenga. Mas atirou na direção certa, a meu ver.
Por outro lado, acho que só não existem bons documentários sobre filosofia porque não existem bons roteiristas interessados.