quinta-feira, dezembro 28

Boas Festas

Agora só dá tempo para um Feliz Ano Novo. Dia 2 de Janeiro, se a BR101 permitir, estou de volta. Um grande abraço para todos os amigos do Morana. Espero que tenham uma boa virada de ano e que 2007 seja mais leve e livre para todos nós do que foi 2006.

quarta-feira, dezembro 20

"Vou ali carnear uma ovelha e já volto." (Do Vertigo, 2)

"E agora me quiedo meio sem perspectivas diante de uma esquerda cada vez mais enfraquecida. No resto do país, o neopopulismoenganapovo cresce assustadoramente e ocupa 398 prefeituras no país. As tentativas de mobilização global com o Fórum Social parecem ter esbarrado em si mesmas e os movimentos anti-qualquer coisa já não tem o peso indicativo de mudança que tinham há pouco. Enquanto isso, nossos amigos listrados escolhem entre o sujeito claramente comprometido intelectualmente que diz que vai acabar com o mundo e o rosto bonzinho que pratica windsurf e que não fará nada muito diferente disso.

Vou ali carnear uma ovelha e já volto. Vocês perceberam que os jacarandás começaram a florescer?"

(Por Gabriel Gomes Pillar, em 4.10.2004)

Do Vertigo

"Fui. Não volto. Valeu por tudo.
Assim mesmo, em bloco, pra passar desapercebido. A primeira coisa que fiz foi pegar a bicicleta e sair a andar pela cidade. É impressionante como as tardes em Porto Alegre podem ser agradáveis. Poucas pessoas na rua, sento pra tomar um café, ler uma revista e até encaro um sessão de cinema depois. Uma não, foram três na semana - um recorde comparado com as parcas visitas às salas de exibição nos ultimos meses. A tendinite no braço direito começou a melhorar, e chega dez da noite e não estou mais caíndo de sono. Continuo dormindo até tarde, mas isso está tão impregnado em mim que vai dificil mudar tão cedo. Estou feliz, contente com a vida e com os planos para o FUTURO. Aos poucos tiro o pó da lista de projetos interrompidos. Mas não nessa semana. Quero passar alguns dias assim, fazendo nada, e me preocupando com menos ainda. Tomo outro café, tenho uma vontade incrivel de comer algo doce, e fico ali sentado, olhando o movimento da rua."
(Por Gabriel Gomes Pillar, em 13.06.2005)

terça-feira, dezembro 19

Vou passar a noite em Sintra

Depois de dizer que guia sozinho, "quase devagar", e que lhe parece que segue por outra estrada, que segue sem haver deixado Lisboa e sem ir a Sintra, o poema vai assim:

"Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida..."

Poesias de Álvaro de Campos - [463] 11-5-1928

Familiar, não?

"Ao volante do Chevrolet"

Dias atrás saí da Cesma pensando nuns versos de Fernando Pessoa, que lembrava apenas vagamente. Versos raros, nos quais o poeta descreve seus sentimentos, dirigindo um automóvel de Lisboa até Sintra; versos raros, nos quais o poeta declina a marca do carro que dirige; o poema começa assim:
"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, ao luar e ao sonho, na estrada deserta, sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?"
Por duas vezes Pessoa fala no Chevrolet, que tem emprestado, apenas: "Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio? Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite, guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente, perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço, e, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível, acelero..."
Lembrei desse poema de Pessoa, caminhando nas proximidades da Cesma, porque fiquei pensando se havia sido justo no meu comentário sobre o início do livro de Lion Goya, "Projeto AIC-Metamorfose", do qual disse que havia empacado por causa da sigla da caminhonete GM-S10. Afinal, a General Motors nada mais é do que a fabricante do venerável Chevrolet (A GM usou esse poema numa peça publicitária aqui no Brasil, faz muitos anos!), e nunca reclamei para mim mesmo do Pessoa usar marca de carro no seu poema.
Pensado isso, fiquei quieto, nesses dias de poucas palavras, mas não deixei de pensar, em mais de uma vez, se não teria eu sido um tanto quanto impertinente na minha postagem.
Hoje recebi um mail do Lion Goya. Transcrevo.
"Caro Ronai,
É com satisfação que vejo o comentário do meu livro no seu blog. Pena não teres tido saco para continuares lendo, quando empacaste, segundo o seu próprio termo, na sigla GM S10 (GENERAL MOTORS modelo S10). A contextualização do cenário em ambiente local e no Brasil foi um das minhas opções. É impossível agradar a todos. Outros, parece que é possível...
Olha que interessante o que foi publicado sobre o meu livro no jornal da tarde em São Paulo, que está disponível no site da CBL (Câmara Brasileira do Livro).
http://www.cbl.org.br/news.php?recid=4400&hl=conspirações%20made%20in%20brazil
Se estiveres interessado em realmente ler todo o livro e quiseres um exemplar para isso, posso pedir para os meus editores te enviarem um. E se as siglas te incomodares vai enviando e-mails que posso ir te traduzindo. Já que pareces ter, pelo menos com siglas, dificuldades.
Abraços,
Att
Lion Goya"

Agradeço a atenção. De fato, tenho muitas dificuldades, a maioria invencíveis, azar meu; conheço bem siglas de automóveis, infelizmente; é mais o detalhismo da sigla que me incomoda; mas o que me incomodou mais, desde a caminhada na Cesma, lembrando o chevrola do Fernando é ter fixado minha atenção em um detalhe na verdade insignificante diante do empreendimento como um todo. Aceita meus cumprimentos pelo teu trabalho, Lion.

segunda-feira, dezembro 18

Filosofia no Peies

A partir de hoje está aberta oficialmente a temporada de avaliação da presença da Filosofia no Peies. Foram oito questões; elas não tem conexão com as demais (ao contrário do que pode ocorrer no Vestibular), mas apontam, em alguns casos, para temas transversais. Esses temas transversais, na maioria dos casos, são simples e pedestres, como é o caso da questão sobre "Morte e Vida Severina". Ainda não tenho uma cópia da questão para transcrevê-la aqui e explicitar a transversalidade nesse caso.
Apenas duas pessoas, professores de filosofia em cursinho e escola, comentaram comigo a prova; disseram que os alunos não se assustaram, que alguns até mesmo gostaram da prova.
Vamos ver.

segunda-feira, dezembro 11

quarta-feira, dezembro 6

Cidades Híbridas


O site da Universidade Federal do Rio do Sul (www.ufrgs.br.lmic/blog) hospeda, como homenagem, a monografia de conclusão de curso que o Gabriel defenderia na tarde de ontem. O trabalho chama-se "Cidades Híbridas: um estudo sobre o Google Earth como ferramenta de escrita virtual sobre a cidade". No horário programado para a defesa, a Fabico fez uma homenagem ao Gabi. A banca foi composta, um dos membros leu o resumo e a conclusão do trabalho e depois deram depoimentos sobre o Gabriel. O orientador do trabalho foi o Prof. Alex Primo, no centro da foto.

Gabriel Gomes Pillar

Os leitores deste blog conhecem o Gabriel. Desde que surgiu, Moranafilosofia tem um link ao lado para "fell the vertigo", o blog do Gabriel; em fevereiro, fiz duas postagens falando sobre ele, e numa delas inseri uma foto, mostrando-o na operação de uma camera de vídeo, no Rincão do Inferno.
Na segunda-feira, de madrugada, Gabriel morreu em um acidente de carro, na descida da Mostardeiros, em Porto Alegre.
Gabriel foi meu incentivador de primeira hora nestas lidas de redes, grosso que sou nesse mundo das virtualidades. Não foi apenas o sobrinho querido ou meu herói familiar da blogosfera quem perdi, pois o parentesco havia virado amizade e a amizade trouxe junto aprendizados e trocas, vinhos e risadas.
Gabriel inaugurou a moda, desde pequeno, de não chamar a gente de "tio". No início estranhei. Depois acho que compreendi. Depois, depois, agradeci.
Hoje é esse buraco na vida.

domingo, dezembro 3

A carroça da Veti


Enquanto a Jai segue em frente, a carrocinha que faz propaganda do churrasco da Veterinária passa em frente ao prédio 74.

sexta-feira, dezembro 1

Sobre adolescentes

Na segunda-feira, 4 de dezembro, às 14h, no Centro de Educação (sala a definir, mas podem se dirigir à sala 3278B), acontece o colóquio sobre "Adolescentes e Identidade: Perspectivas Psicanalíticas Atuais", apresentado por Adriano Oliveira, membro da linha de pesquisa II Educação Política e Cultura do mestrado em educação.

quinta-feira, novembro 30

Bacharelado Interdisciplinar

João Carlos Salles alertou, na palestra da terça-feira, para uma proposta de criação de bacharelados interdisciplinares. A proposta surgiu na UFBahia e será debatida pelas universidades federais, a partir de amanhã, em Salvador, com a presença do ministro da educação. A idéia de alguns reitores tem uma cereja bonita no meio: acaba com o vestibular; usando-se a nota do Enen, entra quem quiser, para fazer um curso de bacharelado em três anos, em grandes áreas: Ciências da Matemática, Ciências da Vida, Saúde, Humanidades e Artes; depois de terminar esse basicão, o aluno pode concorrer, com seu histórico, a uma vaga em sua carreira final. Se a média não der, ele já tem um diplominha.
O Reitor da UFBa quer começar com essa modalidade em 2008.
Os Departamentos de Filosofia estão em polvorosa. Com isso, voltariam a ser grandes departamentos de serviços, pois todo mundo teria que fazer cursos de Filosofia, no tal basicão.
A coruja vai ter que abrir o olho.

quarta-feira, novembro 29

A notícia que sumiu

No dia 28/11/06, a página da ufesm publicou uma notícia com o título "Universidades Federais estudam mudanças no sistema de ingresso para alunos". Depois, a notícia sumiu. Alguém viu onde anda?

Bicho papão

Deu na página da ufesm: que até o início da tarde de terça-feira, dia 28, haviam apenas 5.803 candidatos inscritos ao Vestibular da casa. No caso da Unipampa a tragédia é grande: apenas 312 inscrições para 520 vagas.
Para quem é de fora, convém lembrar: anos há nos quais o vestibular da UFSM atrai mais de vinte mil candidatos; uma média de 10 anos deve andar em torno de 14.000. Quando a inscrição custa pouco, atrai o jovem que quer treinar e está apenas no primeiro ano; quando a prova coincide com as demais federais, vem pouca gente. Este ano é esse o caso e a inscrição custa 75 paus.
As explicações institucionais são essas, segundo a página da ufesm:
"Segundo o professor Dario Trevisan de Almeida, presidente da Comissão Permanente do Vestibular (COPERVES), uma das possíveis causas, que contribui para a redução do número de candidatos ao Concurso Vestibular da UFSM, é o grau de dificuldade das provas com a inserção da disciplina de Filosofia, associada à formatação das provas, que vem sendo utilizada nos últimos anos."
Mal abriu as asas e já virou bicho papão, a corujinha de Minerva.

terça-feira, novembro 28

Orquestra


No final, havia, como sempre, previsão do bis. Foram quatro músicas. O público aplaudia e ficava parado, esperando mais uma.

João Carlos e João Carlos


João Carlos Brum Torres falou primeiro, no início da tarde. Atual secretário de planejamento do RS, professor da UFRGS, uma das poucas grandes cabeças da filosofia política no Brasil, João Carlos apresentou o que considera ser a primeira versão de um ensaio sobre como podemos pensar a experiência do século vinte; a sala estava lotada, com gente em pé no fundo e nas portas; e a recompensa foi uma aula sobre como se pode filosofar com rigor e paixão sobre um tema tão abrangente. João Carlos deteve-se principalmente nas mudanças de nossa forma de pensar a natureza (e o que poderia ser um "novo naturalismo") e nas mudanças de nosso entendimento sobre a noção de sujeito, as novas formas de sociabilidade e política emergentes. Foi ousado e brilhante. No final da tarde João Carlos Salles, atual presidente da Anpof e professor da UFBa, contextualizou o documento das "Orientações Curriculares" do MEC, do qual é um dos autores, mostrando que algumas características do mesmo tem a ver com o momento no qual foi redigido, quando ainda não havia esse quadro atual da obrigatoriedade da disciplina. Entre muitas coisas importantes que foi revelando, incluiu algumas opiniões muito pertinentes sobre a presença da Sociologia junto à Filosofia, na resolução do CNE.
Uma tarde e tanto.
Para encerrar, já na noitinha, um concerto da Orquestra da Universidade.

domingo, novembro 26

O café da Cesma


Em primeira mão para o mundo: uma espiada no espaço do Café da Cesma. Tratava-se de uma sessão experimental, na qual o distinto público visto na foto era cobaia.

Santa Maria


No Flickr tem mais uma foto desse tipo. Para minha surprêsa, já não é mais nenhuma aventura fazer um passeio no Morro da Antena. Na verdade dá para convidar a patroa e tomar um chimarrão de fim de tarde, sem riscos. Na antena da Brasil Telecom há vigilância 24 horas. Conversei com o guardinha de plantão, Ricardo, que me contou que as visitas aparecem durante toda a semana, para apreciar a vista, como se diz. Um rapaz de São Pedro costuma vir ali para praticar asa delta, pois há uma pequena rampa para isso. Para ir até lá basta sair para São Martinho e tomar a direita na placa que diz algo como "Sitio Gaúcho", onde há uma estrada com calçamento. Siga o mesmo. Evite esse passeio em dia de chuva, pois a pedra vira um sabão.

sábado, novembro 25

Solidão

Simples assim: um velho conhecido, solito num lugar qualquer do interior do interior do érreesse, começa a pensar sobre o mais antigo dos temas, "quanto é o bastante?", toma umas e outras e uns remédios fortes e decide pular para fora da ponte da vida, me conta um amigo mais próximo. No caso da Vida e Morte Severina, quem lembra?, a mulher vem avisar o nascimento de uma criança e com isso dá a resposta. No caso do conhecido, algo parecido ocorre, amigos lembram e convidam para um jantar. Como nunca disse Aristóteles, para ficar em solidão convém ter boa solidez.

Mezzomo


Este aí da foto é o Mezzomo. Mora no fim da estrada de Val Feltrina. Rogério e Diana, quando vierem a Santa Maria, em Janeiro, não deixem de visitá-lo. Na propriedade dele há uma das mais belas cascatas da região. É só pedir que ele deixa montar uma barraca para passar uma noite na beira do riacho. Na parte de cima da montanha fica a casa de pedra do Prof. R. R. R.. Vale a caminhada (Postei uma foto panorâmica de Santa Maria no Flickr, para matar a saudade ou apresentar a cidade para quem não conhece).

Lion Goya

Quem entra na Cesma vê os cartazes de lançamento do livro de um autor chamado Lion Goya, "Projeto AIC - Metamorfose". O nível do material é de primeiro mundo. Disseram-me que Lion Goya é o pseudônimo de um escritor bocamontense. Tratar-se-ia de um psiquiatra, residente em Santa Maria. Fiquei contente. Quem não ficaria, ao saber que no edifício ao lado pode morar um sujeito que gastou horas de sua vida escrevendo um romance, bem promovido, etc. Bom, o livro parece explorar o mundo ficcional, etc, círculos em plantações, etc. Comecei a ler com toda a boa vontade, mas tranquei no início. No primeiro parágrafo me aparece a seguinte frase: "Tinha estacionado a sua caminhonete GMS10 próximo da estrada".
No meu tempo de guri eu gostava de brincar com siglas de caminhões: gemecê, fenemê, fordeco. O autor do "Tratado Ontológico das Bolas do Boi", (lapandorga.com.br), quando se refere às caminhonetes, se permite brincadeiras como "mitsubicho".
Essa indexação, "GMS10", em um romance, trancou meu olho, empaquei.

Gabriel Neves Camargo

Falando na Cesma, hoje de manhã teve o lançamento, com autógrafo, da novela de Gabriel Neves Camargo, "A História do Goleiro Inviolável" (WS Editor, RS 28,00).
Para que não conhece, Gabriel morava aqui na Tuiti, entre a Valandro e a Duque, numa daquelas casinhas geminadas, e era estudante de Medicina, quando o conheci, nos idos de setenta, "tempos de poesia e militância", ele escreveu na dedicatória. Escrevia como poucos, conversava como ninguém, madrugadas a fio, e sua mãe, dona Maria Emília, fazia um cafezinho maravilhoso. Hoje Gabriel é psiquiatra poderoso em POA, e lança seu primeiro romance. Comecei a ler hoje de tarde e meu sentimento foi que Santa Maria, tão cantada em verso, pouco conhecida em prosa, ganha uma novela de respeito. A história de Félix Ubíquo Antunes Liberato começa em Santa Maria, e a prosa de Gabriel, como já se sabia pelos textos dos anos sessenta ("As Renas Inebriadas"), é muito - muito mesmo - boa.

Café da Cesma


Em algum dia de Dezembro entrará em funcionamento o Café da Cesma.
É da gente se beliscar.
Cinco mesas, para começar, cadeiras altas no balcão, cafés diversos e variados, capuccinos de todas as nacionalidades e uma concessão, long neck para os perdidos. Tudo isso, ali no segundo andar da Cesma, wireless available.
É de se beliscar.
Repara só no desenho exclusivo da xícara. Com xis. Dentro dela tinha um expresso.

JAI

Desde a posse do novo chefe do Centro de Pesquisas do INPE, Prof. Celso Aramis, até altas filosofias sobre ensino de Filosofia, de terça a quinta, o prédio 74 vai ser um dos centros da JAI. Sobre a posse do Prof. Celso, espera-se que tenha um fim o queremismo comprado pelo Diário de Santa Maria e pela Zêagá, que embarcaram no lobby em defesa das tais antenas; quem chega por último ouve pior. Quêsevaifazer? Livrou-se a Razão, que foi com menos sede ao pote do queremismo fora de época.

segunda-feira, novembro 20

Ensino de Filosofia


O presidente da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia, João Carlos Salles Pires da Silva, palestra na Jornada Acadêmica Integrada (JAI), sobre os "Rumos no ensino da filosofia no Brasil". A palestra será no próximo dia 28, na sala 2374 do prédio 74 do campus (prédio novo do CCSH), às 18 horas.
João Carlos é o atual presidente da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF). Doutor em Filosofia pela UNICAMP, tem se dedicado à obra de Wittgenstein.
João Carlos Salles apresentará as novas orientações curriculares do MEC para o ensino médio, que afirmam um tratamento disciplinar e obrigatório para a filosofia. Nesse sentido, procurará mostrar traços relevantes dessa proposta, a exemplo de sua sintonia com processos de avaliação da atividade filosófica em todos os níveis de ensino, procurando também alertar contra certos riscos que cercam sua implantação.

quarta-feira, novembro 15

Filosofia na Folha, 2.

Agora transcrevo um trecho da entrevista de Roberto Machado
"FOLHA - O sr. concorda que parece haver pouca criatividade filosófica no Brasil? Qual é a explicação possível para isso?
ROBERTO MACHADO - A pergunta é boa, mas exigiria uma resposta que não sei se sou capaz de dar. De todo modo, o que posso dizer é que o trabalho para esse livro foi muito formador. Porque fui capaz de comprovar, com relação a mim mesmo, uma coisa que considero uma deficiência dos estudos filosóficos no Brasil. Caímos numa perspectiva de especialistas num período, num autor, e até mesmo especialistas num livro.
O que me chama a atenção é que em geral as pessoas restringem o seu universo ao daquele filósofo eleito como um paradigma do que seja filosofar. E não se chega nem ao estudo daqueles com os quais ele tem uma relação profunda.
Uma grande lição que comprovei com esse estudo é que não se começa do nada. Não existe tábula rasa -sempre se pensa a partir do que outros pensaram. O interessante para mim, na leitura desses documentos sobre a tragédia e o trágico, foi a demonstração de que é sempre com pequenas reapropriações, com pequenas torções que, dentro de uma região de idéias já produzidas por outros, se chega a um pensamento novo, diferencial. Um bom exemplo disso é de como Schelling retoma a teoria do sublime de Schiller -profundamente marcada por Kant- numa perspectiva metafísica.
Creio que uma das dificuldades da filosofia brasileira é que em geral abdicamos de pensar filosoficamente para fazer unicamente história da filosofia. A filosofia brasileira, mais ou menos até a década de 60, me parece ter sido marcada por um ensino doutrinário, aquele que privilegia um sistema filosófico como verdadeiro, o expõe como um conjunto de teses e situa, a partir dele, os outros sistemas como erro, desvio, ignorância.
Ora, com a importância que adquiriu a pós-graduação no Brasil, a partir do modelo da USP, para combater esse modelo, representado principalmente pelo tomismo, as pessoas se preocuparam menos em fazer filosofia do que em saber filosofia, em assimilar com rigor a filosofia dos outros. O conhecimento dos filósofos é importante, e até mesmo indispensável, mas a filosofia não pode ser reduzida a isso. O conhecimento da história da filosofia é uma condição necessária, mas não uma condição suficiente para que alguém se torne filósofo.
FOLHA - Esse modelo da USP era explícito, não é?
MACHADO - Sim. É muito fácil você encontrar um filósofo que diga: "Não sou filósofo; sou historiador da filosofia". Defende-se o rigor, mas ousa-se pouco. O que mais se precisa na filosofia brasileira é de coragem. Esse livro que escrevi é mais temático do que monográfico.

Filosofia na "Folha"

A Folha de S. Paulo trouxe ontem duas páginas da Ilustrada sobre Filosofia. A matéria tratava do lançamento do livro de Roberto Machado (UFRJ), "O Nascimento do Trágico - de Schiller a Nietzsche", pela Jorge Zahar. "En passant", a matéria trata das transformações no estilo da filosofia no Brasil. Há uma longa entrevista com o Roberto e uma matéria com Renato Janine Ribeiro, sobre vigor e rigor na "Academia".
Transcrevo uns trechos. Vou pregar o jornal no mural do Curso, na quinta-feira, para quem quiser ler tudo.

"Academia ganhou rigor, mas carece de vigor, diz filósofo.

Há falta de atrevimento e de vigor na filosofia brasileira, afirma o professor de filosofia da USP Renato Janine Ribeiro.
Como Roberto Machado, ele diz que o método de leitura rigorosa de textos filosóficos praticado na USP nos anos 50 e 60, que privilegiava trabalhos monográficos e especializados, é hoje o modelo de cursos de pós-graduação em filosofia em todo o país.
Ribeiro lembra, no entanto, que tal método, em princípio, foi positivo. "Foi uma etapa que talvez tivesse que ter sido necessária. Qual era o contraste que você tinha no Brasil? Uma idéia de filosofia que era muito eclética, muito baseada em generalidades. Então creio que era preciso ter um rigor que foi realmente necessário", declara.
"Foi uma coisa positiva, mas trouxe algumas falhas. A área acabou dando importância demasiada à questão dos autores. A discussão de idéias é muito rara na filosofia hoje."
O problema, continua, é que "o método virou princípio". De todo modo, ele afirma que já havia na prática da filosofia daquele período, quando era aluno, "um pressuposto estranho". "Havia uma convicção de que o tempo de filosofar tinha passado."
Num livro da década de 90, "Um Departamento Francês de Ultramar" (Paz e Terra), o filósofo Paulo Arantes diz que o "Método" (assim, com maiúscula) "incluía uma cláusula restritiva severa": "deixemos a filosofia para os filósofos".
A leitura rigorosa e a análise não-dogmática dos textos tornava a falta de idéias na filosofia brasileira uma questão de método, ou, melhor dizendo, quase um objetivo do método.
(...)".

segunda-feira, novembro 13

Colhedores


Fabrício capricha no teclado. Tem mais no Flickr.

Ensino de Filosofia: VII Simposio Sul Brasileiro

A VII edição do Simpósio Sul Brasileiro sobre o Ensino de Filosofia: Filosofia e Sociedade, terá lugar em Porto Alegre, na PUC-RS, nos dias 09 a 11 de maio de 2007, com prazo para subscrição de propostas de comunicações até 11 de março de 2007.
As propostas de comunicações devem ser enviadas para sergioasardi@uol.com.br

domingo, novembro 12

Cesma in Blues

Coloquei algumas fotos do Cesma in blues no Flickr (http://flickr.com/photos/ronai). Fiquei pensando se haverá melhor edição que essa. Os meninos da Filosofia, Arthur e Fabrício, tiveram posição de destaque: palco principal, terceira banda a se apresentar. Foram muito bons, muito aplaudidos, gostei demais.
Está confirmada a vinda do João Carlos Salles Pires na JAI, no dia 29, para falar sobre ensino de filosofia. Em breve dou mais detalhes, sala e hora. Será a oportunidade de se fazer um bom debate com quem está por dentro do assunto. JC foi um dos autores das "Orientações Curriculares" do MEC e é o atual presidente da Anpof.

segunda-feira, novembro 6

Livros na Cesma

Estou anotando e passando para o Télcio.
Gi: está encomendada uma seção "Wittgenstein". Vamos procurar ter tudo o que está saindo em português. Vale a dica para fazer o mesmo com Foucault.
E um Nietszche completo. Chiii, onde vai parar essa estante?
Tem boas novidades encomendadas: uma tradução do "Mind and World" do John McDowell, feita pelo João Virgilio. A mesma editora está na rua com "Idéias", de Husserl e promete os dois volumes da Filosofia da Psicologia do Wittgenstein. E uma nova tradução para o português do William James, "Variedades da Experiência Religiosa".
E vamos fazer esse cantinho de material para as aulas, também.
Aguardo outras sugestões.

Velas

Os dias do futuro encontram-se diante de nós
como uma fileira de pequenas velas acesas -
pequenas velas douradas, quentes, e vivas.

Ficam para trás os dias passados,
uma triste linha de velas apagadas;
as mais próximas exalam fumaça ainda,
velas frias, derretidas, e curvadas.

Não as quero ver; me entristece sua forma,
e me entristece lembrar de sua primeira luz.
Adiante olho minhas velas acesas.

Não quero voltar para ver e horrorizar-me
que rápido a linha sombria se alonga,
que rápido as velas apagadas se multiplicam.

K. P. Kaváfis

Os Poemas (1897-1914)
Tradução de R. M. Sulis, M. Jolkesky e A. T. Nicolacópulos.
Edições Nefelibata. Desterro, SC, 2005.

quinta-feira, novembro 2

Aula

Já que um aluno perguntou, outros podem ter a mesma dúvida: sim, amanhã, 3 de novembro, haverá aula de Prática em Filosofia. O tema será o documento do MEC, "Orientações Curriculares para o Ensino Médio", documento da Filosofia, em especial o tópico da identidade da Filosofia.

terça-feira, outubro 31

Barravento



Na descida do Elevador Lacerda, dois rapazes conversavam, afinal, qual é mais bonita, Rio ou Salvador? Um deles, pasta de vendedor na mão, Rio, Rio, Salvador é bonita aqui na parte de cima, lá embaixo é uma miséria.
Rio ou Salvador? Duas cidades belíssimas, sob muitos aspectos; as duas estão quebradas; o Rio, cada vez mais sem perspectivas, os cinturões de miséria apertando o pescoço dos branquelos. Salvador não fica muito atrás em alguns aspectos, ao menos; é uma cidade quebrada, orçamentariamente. Igual ao Rio Grande do Sul. É a cara do Brasil. Tem hotéis de primeiro mundo e muita pobreza ao lado. Tem menos violência, por certo. Para se ter uma idéia do país em que vivemos, é recomendável pegar um ônibus e dar um passeio em Salvador. É possivel tomar chope nesse bar, o Barravento, até a uma hora da manhã, e caminhar meia hora pela calcada da Avenida Oceânica, até a região dos hotéis, sem ser incomodado.

quinta-feira, outubro 26

Salvador, Bahia (2)


Uma vista de um trecho da orla de Salvador. Hoje, depois de uma semana, o sol voltou. O hotel ao fundo, Othon, lado esquerdo da foto, foi a sede do evento da Anpof.

segunda-feira, outubro 23

Salvador, Bahia

Depois de sessenta horas de estrada, chegamos em Salvador. Escrevo de madrugada, uma hora e quarenta minutos. A chegada foi com muita chuva, que acompanhou a viagem pela Bahia, grande surpresa. O sul da Bahia é exuberante, por um lado, banana, café, cacau, nelores plantados nas encostas. Na beira da estrada, um pouco antes de Monte Pascoal, encontram-se ranchos de barro na beira da estrada, iguais, exatamente iguais aos do Rio Grande, e placas com pedidos de alimentos.
Amanhã começa a Anpof.
Em alguma hora livre pretendo visitar o Pelourinho, Convento de São Francisco, Elevador Lacerda, etc E depois? Aceito sugestões, amiga Rosana.
A chuva continua. O mar, vejo da janela do hotel, anda brabo.

quinta-feira, outubro 19

Filosofia na Cesma

Télcio me pediu uma ajuda para melhorar a oferta de livros de Filosofia na Cesma. Haverá, nos próximos dias, um novo espaço, maior e mais bonito, dedicado para a Filosofia, ali nos fundos. Quem tiver sugestões, por favor, mande.

Livro do Ano, II

Se não fosse o lançamento do livro de Walter Benjamin, meu candidato para livro do ano em Filosofia seria o livro de Arthur Danto, "A transfiguração do lugar comum", que saiu nesse ano, pela Cosac & Nayf. É o primeiro livro que Danto escreveu sobre filosofia da arte, onde discute, em primeiro lugar, o status artistico dos "ready-made", como o urinol de Duchamp. Esse livro é uma das grandes referências em Filosofia da Arte hoje em dia, e a gente deve fazer um tin-tin pelo seu lançamento aqui na língua da gente.
Tem na Cesma.

Livro do Ano, em Filosofia

Saiu "Passagens", de Walter Benjamin. Um tijolaço publicado pela UFMG, quase inacreditável que tenha sido traduzido e lançado no Brasil. Para a Boca do Monte vieram sete exemplares; quatro estão à venda na Editora da UFSM, outros três vieram para a Cesma, onde peguei o meu. Custa uma pequena fortuna, nem comento. Mas vale cada centavo. Comecei ontem mesmo a ler o monstro. É uma usina de idéias.

Aulas

O segundo semestre letivo de 2006, no tardio outubro, começa. Volta o blogue.

quinta-feira, outubro 5

Férias

Aos amigos navegantes: peço desculpas por avisar tão tardiamente. Estou tirando meus primeiros dias de férias em 2006, e isso inclui o blogue. Em todo o caso, não abandonei o tal do fliquer. Vocês me encontram em "Minhas Fotos", linque ao lado, ou em www.flickr.com/photos/ronai
Aos amigos a quem prometi uma ida ao Rincão, mais uma esfarrapada desculpa: fui fazer a última revisão das condições de acesso; agora até um galaxi sem amortecedor chega mais ou menos perto. Em breve cumpro as promessas, prometo, Valter, Mestre, demais.

terça-feira, setembro 26

Uma linha?

Sigo adiante, pelo amor à conversa, com a postagem de pé-de-post de "Dom Sullivan".
"Apenas uma linha de um livro escolar no futuro, dando conta de como um projeto tacanho de poder e um anão mental seduziram uma maioria semi-letrada e ignorante de eleitores brasileiros."
Não discordo que o projeto de poder dos que foram aparentemente defenestrados, seja tacanho, dentro de certos critérios:
do Dilúvio ao Genuíno, há uma semelhante extração político-social, com variantes: partidão, arrivismo político, carteiras de trabalho cheias de cecês, etc. Por outro lado, as iniciais do "anão mental" ornamentavam, nos idos de oitenta, quatro entre dez automóveis no campus da Ufesm e em outros campus quetais do Zilbra. Assim, acho que será preciso mais que uma linha para explicar como ocorreu esta sedução. Tá bom, indo adiante com a ironia - esse tema das condições de possibilidade da sedução política dá muita manga pro meu pouco pano, mas se a gente quer entender o que está ocorrendo - a possibilidade de não haver um segundo turno, por exemplo -, e estamos usando categorias aparentemente racionais para entender o causo, acho que não é legal apelar para a idéia de semi-letramento e ignorância.
Ignoram umas coisas, levam em conta outras.
Meu voto no domingo será para que exista um segundo turno.
O que estamos vendo com os olhos que a terra há de comer um dia vai nos dar muito mais trabalho para entender se a gente tiver um olhar condescendente para aqueles a que chamamos de "maioria". Eu acho.
Quero voltar depois a esse ponto importante do "projeto de poder".
Hoje me lembrei, com alguma nostalgia, de alguns antigos alunos, A.A., com quem tive boas conversas, muitos anos atrás, sobre tais projetos.

quinta-feira, setembro 21

Dom Sullivan

Renovo a recomendação aos leitores: o blog de Dom Raul Sullivan, linque ao lado, é um poderoso instrumento para entrar no mundo dos livros virtuais. Vale uma visita!

O anel de Giges: o poder (2)

Giges retira o anel do cadáver e volta para cima. Segue o Platão:
"Na reunião habitual dos pastores, para apresentarem ao rei o relatório mensal do estado do rebanho, compareceu também Giges com o anel no dedo. Como estivesse sentado no meio dos outros, aconteceu virar casualmente a pedra do anel para a palma da mão, com o que imediatamente se tornou invisível para os circunstantes, que passaram a referir-se a ele como se já não se encontrasse ali presente. Cheio de admiração, tornou a mexer no anel e virou o engaste para o lado de fora, depois do que voltou a ficar visível. Tendo percebido o que se dera, fez várias experiências para ver se, de fato, era o anel o dotado de tão extraordinária virtude, e sempre com o mesmo resultado: tornava-se invisível quando a pedra era virada para dentro, voltando a aparecer quando a dirigia para fora."
Uma das questões que surge agora é sobre o que fará Giges com esse tremendo poder?
As duas passagens estão no Livro II da República, a partir de 359d.

Giges (1)

Faz alguns dias que prometi contar a história do anel de Giges. Deixo para o autor dela a tarefa. Transcrevo, pois, o texto de Platão, no livro "A República".
A edição que uso é a publicada pela Editora da Universidade do Pará, uma preciosidade. Está na terceira edição, revisada, e foi traduzida diretamente do grego por Carlos Alberto Nunes, publicada em 2000).
"Giges era um pastor a serviço do rei da Lídia. Por ocasião de um grande temporal acompanhado de tremor de terra, o solo se abriu, formando-se uma fenda no lugar em que ele levara a pastar o seu rebanho. Ao ver isso, tomado de admiração, penetrou na abertura, tendo percebido, segundo contam, entre outras maravilhas, um cavalo de bronze, oco e provido de pequenas janelas, através das quais, enfiando a cabeça, notou um cadáver que se afigurou de proporções mais do que humanas; inteiramente despido, deixava apenas ver um anel de ouro numa das mãos. Retirando-o, voltou Giges com o anel no dedo."
Acho que valeria a pena a gente se perguntar, antes de ir adiante, pelas razões de Platão em montar todo esse cenário: temporal, tremor de terra, uma fenda na terra; depois, entrar no buraco, encontrar um cavalo, de bronze, dentro dele um cadáver muito humano, nu, com um anel de ouro na mão.

quinta-feira, setembro 14

Os mandamentos do motorista


Vai chegando o tempo de retomar conversas sobre passeios e cascatas.
Procurando por uma cascata na Linha 6, perto Silveira Martins, no verão de 2004, conheci algumas pessoas, ali moradoras, que me levaram até a dita cuja. Belíssima. Exige uma caminhada apenas razoável, e é uma das mais altas de toda a Quarta Colônia. Pouca gente vai até lá. De volta, nas proximidades de São Valentin, paramos para tomar uma gelada. Ali eles me brindaram com uma cantoria, que é uma das coisas que os oriundi mais gostam. É só clicar que os gringos começam a contar quais são os mandamentos do bom motorista.
O de chapéu é o Valdir Maraschin; o outro é o Hermes. Moram ali na região de PoIêsine para Ivorá, costeando o rio. Quem quiser saber o décimo mandamento vai ter que pagar uma visita ao Valdir. Ele faz salames saborosos, e mora numa das casas mais antigas de toda a região.

quarta-feira, setembro 13

A morte, fora de moda?

Na terceira parte da palestra Dupuy apresentou um pequeno bando que defende a obsolescência da condição humana. Assim, não haveria apenas uma crise na nossa idéia de natureza, mas até mesmo a noção de morte natural não estaria menos amecada de obsolescência. Um dos caras citados por Dupuy é Nick Bostrom, sueco, professor em Oxford, líder do tal "trans-humanismo. Esse "trans-humanismo" sugere que devemos nos encarar como uma etapa, uma transição para uma época de pós-humanidade, uma próxima etapa da evolução biológica, caracterizada pela convergência entre nanotecnologia, biotecnologia e ciências cognitivas, uma "ciber-pos-humanity", que, por meio das novas tecnologias, asseguraria a condição de imortalidade para quem pudesse pagar, mediante a criação de interfaces que transfeririam o conteúdo informacional do cérbero para memórias artificiais e poraíafora. Essas e outras idéias sobre a morte ficar fora de moda são também expostas no livro de Ray Kurzweil, "Fantastic Voyage. Live long enough to live forever, 2004." (Parenteses meu, RR: Esse Kurzweil não é cachorro rengo, é um dos papas da inteligência artificial nos EUA; Searle fez uma crítica feroz a um livro dele, "The Age of Spiritual Machines: When Computers Exceed Human Intelligence", de 1999, se estou certo.) Uma das idéias do Ray é manter-se vivo, até chegar ao momento em que as técnicas de interface entre o ser vivo e a maquina extendam nossas capacidades físicas e mentais, para se viver imortalmente. A morte, pensa ele, deve ser pensada como se pensa a doença, como um problema a ser resolvido.
Nesse ponto da palestra a platéia deu umas risadinhas. Dupuy, sem discordar das risadinhas, lembrou que os tais de trans-humanistas ocupam posições de poder nos EUA, com alguns deles (William Beveridge) dirigindo generosas fatias de orçamento federal em biotecnologia.

Morte natural

Sei não, mas tenho uma vaga lembrança de um texto de Sartre no qual ele explorava a idéia de que a morte em acidente de automóvel não mais deveria ser chamada de "morte por acidente". É morte natural.

Jean-Jacques e Voltaire: que conversa essa de "catastrophe naturel"?

O terremoto de Lisboa ocorreu no dia 1 de novembro de 1755. No ano passado foi feito um evento em Lisboa, para "comemorar" os 250 anos do mesmo. Segundo Dupuy, pode-se dizer que o terremoto criou um tsunami na filosofia ocidental, dividindo-a em três campos, Leibniz (mais Wolf e Pope), Voltaire, como crítico desses (no Candide e no Poème sur le désastre de Lisbonne) e Rousseau, como crítico de Voltaire, em um texto de 1756, "Lette a Mr. De Voltaire", onde se pode ler:
"Je ne vois pas qu’on puisse chercher la source du mal moral ailleurs que dans l’homme libre, perfectionné, partant corrompu; et, quant aux maux physiques, ils sont inévitables dans tout système dont l’homme fait partie ; la plupart de nos maux physiques sont encore notre ouvrage. Sans quitter votre sujet de Lisbonne, convenez, par exemple, que la nature n’avait point rassemblé là vingt mille maisons de six à sept étages, et que si les habitants de cette grande ville eussent été dispersés plus également, et plus légèrement logés, le dégât eût été beaucoup moindre, et peut-être nul. Combien de malheureux ont péri dans ce désastre, pour vouloir prendre l’un ses habits, l’autre ses papiers, l’autre son argent ?"
Resumindo, e não traduzindo fielmente: o mal moral vem da gente mesmo, e os males físicos também. No trecho que importa nesse caso: a maior parte de nossos males fisicos é ainda obra nossa. (...) A natureza nunca teria reunido vinte mil casas, de seis a sete andares, e se os habitantes dessa grande cidade tivessem sido dispersados de forma menos concentrada, mais afastadas umas das outras, ..., etc, o desastre teria sido menor, talvez nulo. E quantos infelizes morreram porque quiseram apanhar seu cartão de crédito, seu notebook, etc.
Rousseau seria responsável pela eliminação da idéia tradicional de natureza como uma completa exterioridade? A natureza boa não é um edén para o qual gostaríamos de regressar, mas sim uma tarefa a realizar, voltada pra o futuro; a natureza roussenaina é fundamentalmente artificial, uma "man made nature".
Para o autor do Emile, o homem é o autor de todos os males; "homem, não busque o autor do mal, este autor é tu mesmo", ele escreve no Emílio.