quarta-feira, fevereiro 13

Lasciate ogni speranza...

O reitor da Unebê, Timóteo das quantas, deu uma entrevista ao Jornal Nacional tentando explicar porque era válido, justo e inserido no contexto gastar duzentos e tantos mil reais em decoração de um imóvel funcional para sua moradia, o que incluía lixeiras de 900 reais cada uma.
A culpa era da estética, disse ele. Os móveis tinham que seguir uma linha estética.
Seguindo a linha, o pagamento dessas extravagâncias decorativas foi por conta da Fatec deles
Não se fazem mais reitores como antigamente.
Depois dessa, eu, que critico o simplismo do nosso sindicato, que quer acabar com a Fatec, fico mal, seu Timóteo.
O nosso ex foi capaz de presidir a reunião que o elegeu como reitor, mas nunca ouvi dele essas conversas sobre estética. Ele, como declarou por escrito aos jornais, apenas via as oportunidades e as apresentava para seus colegas diretores, que assinavam os contratos. Depois, deu nisso que estamos vendo. Está só no começo, mas, como leitor de Dante, fico apreensivo com as esperanças.

Pau Fincado



Claudemir Pereira (obrigado!) informa que o Deputado Paulo Pimenta convida a todos para uma visita às obras da BR 158, no sábado. Não vou poder estar por lá, mas deixo uma sugestão de dois pontos turístico-políticos de visitação ligados a essa estrada. O primeiro liga a BR 158 a um possível e ainda não contado episódio da história da corrupção no Brasil e está localizado nas coordenadas - será conveniente levar um GPS - 29*55'38.20" S e 54*14'06.78"; elas colocam o turista sobre um viaduto que foi construído na BR 158 faz muitos anos, mais de trinta, com certeza. Basta parar no viaduto, descer do carro e olhar para os lados para ver que embaixo da ponte deveria haver uma estrada. Seria uma estrada de ferro. Seria. Milhões de cruzeiros foram gastos em terraplanagem, como se verá. Hoje, depois dessas décadas de abandono ainda existem as cercas que separam o inaproveitado leito dos campos da região. Esses enormes trechos foram desapropriados? Foram pagos? E a terraplanagem de dezenas de quilometros, hoje abandonados, alguém algum dia respondeu por isso?
Essa é uma das histórias que valeria a pena contar sobre a BR 158 e adjacências.
Para o leitor que não puder integrar a caravana, postei uma foto do Google Earth na qual ele poderá ver a tal estrada feita e abortada, as erosões, etc. A região é conhecida como Campo da Pedra, logo depois da propriedade de Dom Avelar.
Andando mais um pouco, vem o outro ponto turístico, a Coxilha do Pau Fincado. Ali ficava o bolicho do Sr. Rubilar. O bolicho era próspero, o maior da região. Com a progressiva melhoria da estrada, foi definhando. Faz poucos anos que o Sr. Rubilar morreu. Quando conversei com ele pela última vez, tomando fanta morna na sombra de um cinamomo, ele falava do sonho de ver o asfalto na frente do bolicho, nem que para isso ele tivesse que perder o bonito galpão que ficava bem no trecho onde deveria passar a estrada, medida e remedida tantas e tantas vezes.
Agora, a outra história. Ou estória.
A Coxilha do Pau Fincado, diz uma lenda da geografia da campanha, é um dos divisores de águas mais importantes do Rio Grande do Sul. Houve um sonho geo-hídrico-político, certa feita, de se construir um gigantesco canal que uniria as duas metades do Rio Grande. Na época, quem sabe, alguma empresa de consultoria foi contratada a peso de cruzeiros para fazer algum estudo de viabilidade.
Poderia haver hoje ali um bolicho, um canal de águas e uma fita de asfalto, oigalê.
O Seu Rubilar morreu sem ver o asfalto, que chegou na Coxilha faz poucos dias, perto do Carnaval. No canal de águas, ele nunca acreditou, que crendice tem limites.
O Pau Fincado é um tronco de madeira, que ainda está lá, cravado no barranco, uns cem metros antes do bolicho, no lado esquerdo da estrada. Com olho bom, dá para ver no Google Earth.
A BR 158 elegeu muita gente, como se sabe.
Agora, diz o deputado, vai. Depois de mais de trinta anos e de muita gastança sobre a qual pouco se sabe.
(PS: na segunda imagem acima há uma informação errada: o viaduto é "na" Br 158, e não "sobre a BR 158", como consta ali por culpa minha. E o bolicho do Rubilar ficou embaixo do alfinete.)

terça-feira, fevereiro 12

Pensar

O Diário e a Razão de hoje trazem matéria com o Prof. Koff, atual presidente da Fatec e Diretor do CCSH da Ufesm, dando conta que a Fatec "poderá deixar de fazer as provas para exames de motorista", como indiquei na postagem de ontem.
"A Fatec está trabalhando sem receber", diz o Prof. Rogério. "Estamos cancelando outros compromissos para compensar as perdas com esse contrato."
A senhora presidente do Detran diz que o problema é da Fundae, que subcontratou a Fatec.
O Prof. Rogério parece ter razão. Não pega bem entregar por muito menos o serviço que foi contratado por um tanto mais. O Detran está pagando apenas trinta por cento do estipulado, informam os jornais.
A saída terá que ser bem pensada. Uma delas é seguir empurrando com a barriga até que o governo encerre o contrato com a Fundae, rapidinho. E o prejuízo da Fatec fica por conta da diminuição da gritaria geral.

segunda-feira, fevereiro 11

Fotos

As fotos das criaturas desprovidas de entendimento discursivo abaixo comparecidas são de minha autoria. Mais, no flickr.

Bufo


Os CFC's (traduzindo: Centros de Formação de Condutores) aproveitaram a onda da crise do Detran e bufaram; querem aumento das taxas; os custos aumentaram, etc. o governo rebufa: vai credenciar novos cfc's. O distinto público tribufa: quer autorizações mais baratas para guiar os autinhos, de preferência sem essas frescuras de parar na faixa preferencial para pedestres. Dona Yeda, por sua vez, quer carteiras mais baratas para seus eleitores e que ela não tem nada a ver com esses assuntos de propinas do Detran etecetera e tal e coisa.
Os sapos, criaturas inteira e completamente desprovidas de entendimento discursivo e polegar opositor, continuam fazendo o que mais sabem fazer: sapear e bufar.
A Fatec, enquanto isso, continua fazendo seu trabalho, mesmo que bufando, pois lhe estrangularam: por força de determinações legais, a torneira dos pagamentos de seus serviços está a conta-gotas. Algumas pessoas usaram o entendimento discursivo disponível e concluíram daí que a folga era grande. "Ergo", pensaram, "demonstrandum est" a tal da corrupção.
O entendimento discursivo é uma coisa difícil de explicar em poucas palavras. O bom mesmo é ler Tomás de Aquino.
Na impossibilidade do povo em geral ler o bom Tomás e entender o perigo, periga a Fatec suspender os serviços nos próximos dias.
A bufança vai ser grande.
Tem a ver com amor próprio ou algo assim, meio ferido.
Para bom entendedor.
Mais bufos no Flickr.

A síndrome da girafa


Girafas desafiam o argumento do desígnio, se poderia pensar. Dormem de pé, para beber água é o maior trabalho. Dependem de ramos saborosos na parte de cima das árvores. Desprovidas de entendimento discursivo, salvo melhor juízo, olham tudo por cima. Eu não sei se elas escutaram o programa da Gaúcha hoje, sobre o Detran. Se escutaram, não adiantou nada, pois são desprovidas de entendimento discursivo e de polegar opositor. Os deputados querem saber se dá para diminuir o custo das carteiras, se há reprovações em excesso nos exames de motorista.
Eu não entendo nada disso, nem de girafas, nem de exames de motorista.
Por mim não deixaria as girafas livres, porque elas morreriam em poucos dias.
Por mim reprovaria mais ainda mais motoristas, porque os que andam por aí são um vexame. A gente pára na faixa branca para o pedestre passar e o idiota que está atrás periga buzinar.
Os deputados são providos de entendimento discursivo, smj.
Mas, como perguntava o programa de hoje, vamos ver se eles tem algo roxo para sair atrás dos graúdos.
Graúdo, aqui, leia-se gente que tem banquinho de espera em tribunais e câmaras e assembléias e outros refrigérios públicos.
Apertar bagrinho? Eu não quero que duvidem que os deputados sejam providos de entendimento discursivo. Para isso terão que ir além dessa síndrome da girafa que ronda as cepeís pelo Zilbra afora: dar uma olhada por cima e tirar uma casquinha.
Vou voltar a ler Santo Tomás de Aquino.
Me esperem.

Porquê


As criaturas que são dotadas de entendimento discursivo tem como característica predominante a capacidade de fazer perguntas, em especial a pergunta "porquê".
Quando um sujeito pergunta porquê um outro sujeito acredita em tal e tal coisa, o outro pode oferecer pelo menos três tipos de respostas.
Seja o causo do gauchinho que acredita nas virtudes da doma racional.
Em primeiro lugar, o gauchinho pode invocar os antecedentes que o colocaram o na situação de acreditar naquilo. O domador de cavalos que acredita nas virtudes da doma pelo caminho suave, sem a quebra do queixo, nos responde contando a gênese de suas crenças, nos contando o modo como as adquiriu. Poderemos mencionar as circunstâncias, os fatos sociais e culturais, psicológicos, relativos a sua crença. A resposta nos remete a um pedaço de biografia do gauchinho e, através dela, a um fragmento de história.
Em segundo lugar, o gauchinho poderia nos lembrar os motivos que o levam a aceitar nas virtudes da doma racional. Nesse caso respondemos explicando a função que tem a aceitação dessa crença na realização dos desejos, intenções e necessidades do gauchinho. Por exemplo, os fazendeiros novatos hoje se revoltam com a doma tradicional e não querem ouvir falar dela. Se a primeira resposta descrevia a origem da crença, esta segunda se refere aos supostos e conseqüências psicológicas da crença; ele quer o emprego, por exemplo, acima de qualquer convicção.
Em terceiro lugar, pelas razões que o gauchinho tem para considerar que a doma racional deve ser levada em conta. Nesse caso respondemos chamando a atenção para a justificação racional que o gauchinho dá para suas crenças. Então não mencionaremos fatos da biografia ou da psicologia do cujo e sim relações entre a crença dele e outras crenças e operações cognoscitivas. Não faremos referência à genêse e nem às conseqüências da crença, senão que à certas operações que ele tem que realizar para considerar a doma racional como relevante no mundo e a certas características da crença. Ele estudou o assunto e tem argumentos racionais para defender sua atitude perante os animais desprovidos de entendimento discursivo.
Em todo caso, é curioso como os domadores se referem aos cavalos com termos da psicologia humana. "Temperamento" é a expressão favorita.
As zebras não são dotadas de entendimento discursivo. Não sei porquê as zebras se transformaram em símbolos do azar.
Obrigado, Luis Villoro.

Família


O pequeno hipopótamo é inteiramente desprovido de entendimento discursivo, ao que parece. Sobrevive. O irmãozinho não parece ter tido a mesma sorte.

Água


Era a hora da onça beber água e por casualidade eu passava por ali.
Mesmo no zoológico é muito rara essa cena da onça bebendo água. A onça preta, também conhecida por "panthera onça", na falta de roedores e lagartos, seus pratos preferidos, precisa se contentar com carne de cavalo. Dentro da jaula, descongelado. A onça preta, pelo que se sabe, é desprovida de entendimento discursivo e não tem a oportunidade de pensar sobre o azar.

O perigo



Não é uma ema, e sim um avestruz. Ele está um pouco afastado do fluxo dos visitantes, no Zoológico de Sapucaia. Quando as pessoas param e se demoram a vê-lo, o bicho aproxima-se dos admiradores e faz o ritual de cortejo, que consiste em ajoelhar-se diante das pessoas, abrir as asas e, com elas bem abertas, fazer evoluções com o pescoço, desenhando uma espécie de oito, durante uns trinta segundos.
Ao contrário do que muita gente pensa, o tal de comportamento de avestruz, que consistiria em afundar a cabeça dentro de um buraco quando o perigo se aproxima é pura conversa fiada, sem nenhuma comprovação etológica.
O tal de comportamento de afundar-se diante do perigo é característico de humanos e de instituições.
O avestruz não é dotado de entendimento discursivo, coisa que é de conhecimento público, mas é considerado meio safado pelos tratadores.

Memória


O primeiro elefante a gente não esquece. É a Pink, uma sobrevivente. Haviam três no Zoológico de Sapucaia do Sul. Dois caíram no fosso que circunda o espaço dos elefantes e morreram. A Pink vai se aguentando. O Zoológico também. No seu auge, tinha mais de 200 funcionários de carreira. Hoje é tocado por 70, os demais é serviço terceirizado. É o maior do Brasil, com uma área de mais de 700 ha. Foi criado por iniciativa de Leonel Brizola, no seu governo de 1959 a 1963. Hoje é um pulmão verde encravado em plena zona urbana de São Leopoldo, Sapucaia e adjacências.
Dizem que os elefantes tem boa memória.
O Prof. Reitor da Ufesm disse em entrevista para um jornal local no dia de ontem que "O caso Detran foi uma exceção". A frase foi essa: "... o caso Detran foi uma exceção ao longo dos 47 anos de existência da UFSM." Eu achei um pouco estranha a frase, pois ainda não foi divulgado o inquérito do "caso Detran" e assim o verbo no passado fica curioso. Sem falar que não sabemos as surpresas que nos esperam em 2008.
A entrevista começa com uma declaração curiosa: "A minha eleição também foi para resolver estas situações que prejudicaram e prejudicam a imagem desta universidade."
Como assim? Será que os eleitores sabiam disso? Não entendi.
Por fim ele volta a um ponto que tem dado o que falar: "Quero esclarecer que as Fundações de Apoio, Fatec e Fundae não são da UFSM. Elas são Instituições Privadas, credenciadas junto à UFSM com aprovação do Conselho Universitário."
Pink só tem memória, entende muito pouco desses assuntos. Se entendesse, por certo concordaria com o Prof. Reitor. Mas acharia curioso que a tal instituição privada, por estatuto, só pode ser dirigida por professor da Ufesm. E à luz disso é que ela acharia ainda mais curiosa a seguinte afirmação do Prof. Reitor:
"Volto a dizer que as instituições são boas, o que as prejudicam é a presença de gestores que adotam comportamento indevido e prejudicial ao interesse coletivo. As Fundações de Apoio existem para servir e não para se servir das Universidades".
Pink gostaria de saber, se fosse dotada de entendimento discursivo e polegar opositor, a quem o Prof. Reitor se refere - uma descrição definida ajudaria - com a expressão "gestores que adotam comportamento indevido". Os gestores não eram professores da confiança da passada e presente administração?
Vamos guardar na memória a frase e esperar, sentados, as calendas de março.

quarta-feira, fevereiro 6

Campos da Campanha


Passei a terça de carnaval me embebedando com o que resta de paisagem de campos da campanha. Cacequi, São Vicente, São Francisco de Assis, foi uma festa para os olhos com os butiazeiros e espinilhos, perdizes, seriemas, zorrilhos, cerros e banhados, estepes e savanas, que aqui a gente chama simplesmente de campo, campanha, campina, pampa.
O inhanduvai é uma das espécies ali presentes. Acompanhado que estava de um especialista no assunto, visitei um desses raros grupamentos. As fotos estão no flickr.
Para quem espera a estrada de Rosário ficar pronta, vai a notícia: ontem, terça de carnaval, percorri o trecho de chão após o Pau Fincado: as obras prosseguiam como se fosse um dia normal de semana, dezenas de máquinas na pista. Restam por fazer pouco mais de vinte e cinco quilômetros. Algum índio mais corajoso pode ir a Livramento por ali se não tiver muita pena do auto.
A grande atração de São Chico de Assis é a família de bugios que mora na praça. O macho é chamado de Lula. Passa a maior parte do tempo olhando para sua companheira, uma bela bugia de pelagem avermelhada. Ela, por sua vez, pouco olha para Lula; passa a maior parte do tempo cuidando do bugiozinho ao colo. Esse, por sua vez, dá suas escapadinhas dos braços da mãe e brinca de ficar dependurado nas grimpas dos guapuruvus e jacarandás. Tão pequenino e tão arteiro, o tal bugiozito.
Nesses tempos de descuido para com a família, vale a pena uma visita aos campos da campanha.
Pena que esqueci de comprar meu banquinho de espera. Seria de boa serventia para olhar bugios.
A vovó-sentada da padaria da praça é memorável.

quarta-feira, janeiro 30

O próprio nome

A revista que comentei abaixo, "Performance Líder", informa o seguinte: "O próprio nome da faculdade [Antonio Meneghetti] se constitui também em uma homenagem inédita, pois é o único caso onde foi atribuído a uma faculdade o nome de um personagem ainda vivo."
A ver, lembra um leitor do blog.
Em Cascavel existe uma Faculdade Assis Gurgacz, www.fag.edu.br
Devem haver muitas outras pelo Brasil afora, não?
Outra: o homem considera-se fundador da tal "ontopsicologia". Ao menos como nome designador de algo em psicologia, a expressão é atribuída na literatura científica a Gordon Allport, e data do final dos anos sessenta. Diga-se de passagem que Allport e outros abandonaram essa expressão.

terça-feira, janeiro 29

Amácio

Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo, 9 de abril de 1912 e morreu em São Paulo, no dia 13 de junho de 1981). Foi um ator e cineasta brasileiro. Eu, criança, não perdia um filme do cujo, quando a mesada alcançava.
É ele ali na foto que abre o blogue.
Quem quiser ver o mural onde está o pedacinho que fotografei no dia da visita da reportagem, vá até a entrada da União Universitária, na Ufesm.
Um leitor do blogue gostou e pediu que eu o deixasse ali.
Deixa o Mazzaropi ali, então.

Rolling Stone


A foto acima é do Araquém Alcântara, uma das feras da fotografia brasileira. O Araquém foi contratado pela revista Rolling Stone, aquela mesma de música, para acompanhar um repórter até uma cidadezinha chamada Colniza, no MT, considerada a cidade mais violenta do Brasil. A média de assassinatos é de 165,3 por cem mil habitantes. A região é uma das principais fontes de madeira ilegal no Brasil. E de cocaína, vinda da Bolívia. Pois a Rolling Stone foi lá e fez uma belíssima reportagem, daquelas do velho e bom jornalismo de investigação. Isso foi no número de Dezembro de 2007. A seção chama-se "Conexão Brasilis" e ocupou oito páginas da revista, incluindo um show de fotos do Araquém como a que está acima.
Em janeiro de 2007 a "Conexão Brasilis" ocupou-se com Belém, camelôs, pirataria, tecnobrega. Mais uma bela matéria, com a competente fotografia de Flavya Mutran.
Dias atrás fui procurado por um repórter da revista, acompanhado de um fotógrafo de quilate igual aos já citados. Estavam na cidade, queriam conversar. A pauta principal da "Conexão Brasilis" era o Padre Lauro Trevisan; o repórter havia lido o blog e queria incluir outros palpites para explorar outros temas - vide blogue - .
Fiquei surprêso com o profissionalismo da revista. Hospedou a dupla no Continental, tinham carro alugado, equipamento de ponta, tudo o que um profissional sonha.
A Rolling Stone parece ter gostado de Santa Maria. Pelo que vi, se fosse por eles, os temas seriam muitos. Visitaram o Recanto Maestro, o Parque Oásis, a UFSM, tiraram fotos do Padre Lauro na frente do reluzente Chrysler 300, enfim, forraram o poncho de material e se foram campo afora.
A ver em abril, eu acho.

O líder

Caiu-me nas mãos um exemplar da revista "Performance Líder". Trata-se de uma publicação da Associação Ontoarte, de São João do Polêsine. A matéria e foto de capa é o "multifacetado Antonio Meneghetti", dono da novel faculdade de administração que hoje publica nos jornais a lista dos aprovados no seu primeiro vestibular.
O Sr. Antonio declara-se um cientista, possuidor de quatro doutorados.
Fico com pena dos doutores; se esfalfam para terminar umzinho doutorado e o Sr. Antonio esbanja quatro, em Sociologia, Filosofia, Teologia e Psicologia. Eu, por exemplo, peno meus pecados para terminar uma tese bem pequena e não consegui até agora. Mas, como o Marquês de Sade diz, não desisto, "encore un effort." Me recolho, então.
Uma pena que as teses do Sr. Antonio não estão disponíveis em nenhuma biblioteca pública.
As opiniões dele, no entanto, estão na revista. São, de fato, bem heterodoxas. Vejamos o que ele diz sobre "família":
"Em curto espaço de tempo teremos o problema da família. Ela resistirá? Não, a família não resistirá. Teremos sociedades que recorrerão à clonagem. Diante das leis da vida somos muito pequenos, muito relativos."
"Quando estive na prisão analisei toda a questão da droga. Eu conheço as coisas por dentro. Portanto, não sou polêmico. Eu digo, as coisas estão assim, vá ver. É inútil discutir, não serve para nada. Na minha evolução, frequentei os grandes colégios internacionais, a máxima formação do mundo, de valores europeus. Não tenho nenhuma estima pela inteligência norte-americana, pelas universidades americanas. Possuo competência, estudo, experiência e preparo através dos meus doutorados. Fui muito amado pelos Estados Unidos, no início. Era uma inteligência que eles queriam comprar para contribuir com seu domínio intelectual."
Vai por aí.
Fui para os livros. Encontrei, por exemplo, isso:
"Dalbosco (1998) afirma que o “cientista-acadêmico”— termo como os discípulos se referem a Meneghetti — recebeu, em 1994, o título de Dr. Honoris Causa, em Física, pela descoberta de algo denominado "campo semântico", que teria sido conferido por uma Universidade Pro Deo, de Nova York - USA, instituição cuja existência não foi possível comprovar. Outra referência informa que a comenda teria sido ofertada pela Universidade de Nova York (Editorial, 1994), o que também não ocorreu. A contracapa de um dos seus livros (Meneghetti, 1999), informa que recebeu um PhD em Ciências Médicas, do qual não foi possível, mais uma vez, obter confirmação."
A passagem está no capítulo 5 do livro Mota R, Flores RZ, Sepel L & Loreto ELS. 2003. Método Científico & Fronteiras do Conhecimento. Santa Maria: CESMA. pgs. 67-88.
"Campo semântico"?
Vou levar meu matungo para pastar.
A ontopsicologia é um caso de sincretismo conceitual, acrescido de vaguezas, obscuridades e inconsistências. Foi banida como prática pela Ordem dos Psicólogos, tanto quanto sei.
Volta o livro já citado:
A ontopsicologia não é, apesar da denominação, uma especialidade, ramo ou divisão da psicologia. Exemplos de especialidades, ramos ou divisões, oficialmente reconhecidas, da psicologia são a psicanálise, a psicologia cognitiva e a terapia de família. Ela não é ministrada ou ensinada em qualquer curso de psicologia no Brasil. Ocasionalmente, é possível encontrar-se algum curso de especialização "latu sensu", em universidades ou faculdades de pequena expressão, no interior do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina.
A ontopsicologia não é reconhecida como método ou técnica pelo Conselho Federal de Psicologia. Assim, é vedado ao psicólogo a prática desta atividade. Para termos um ponto de comparação, uma outra prática que recebe idêntico tratamento ao que é dado à ontopsicologia é a regressão a vidas passadas. Apesar disso, no portal da A.B.O, encontramos que, entre os instrumentos de intervenção desta suposta ciência, estão a psicoterapia individual e a psicoterapia de grupo. A entidade oferece um curso de pós-graduação em psicoterapia aberto a médicos e psicólogos, mas que não tem reconhecimento oficial.
O Conselho Regional de Psicologia do Estado de S. Paulo (Cartas, 2000) recomenda: " ... esta prática não constitui uma técnica científica reconhecida pela psicologia. Portanto, seu uso por parte de psicólogos infringe a ética, devendo ser denunciado ao CRP SP”.

Pois é, agora é faculdade ali no vizinho município.
Caiu-me das mãos o exemplar da revista.
Vá entender.
Isso que eu não falei de um tal de 'monitor de deflexão' que o homem inventou.
Fica para outra vez.

Maior apoio

Na terça-feira passada comentei sobre a reunião do Conselho Universitário, que seria feita na sexta. A página da Ufesm noticiou a reunião, detalhando os processos aprovados. Louvável iniciativa, que poderia seguir em frente, imitando o que faz o Conselho do Centro de Educação, que disponibiliza as atas das reuniões.
Há uma iniciativa que merece registro. Está no finalzinho da matéria e diz assim:
"O Conselho Universitário também aprovou, na última sexta-feira, a criação de uma Comissão para analisar a atual forma das relações da UFSM com as Fundações de Apoio. A solicitação, oriunda do Departamento de Odontologia Restauradora, se deu a partir das ações deflagradas pelo Ministério Público Federal, tendo como foco as fundações de apoio à Universidade. A comissão terá atribuição política e não-deliberativa, com fins de debater, esclarecer a comunidade universitária e sistematizar as bases ético-normativas de uma proposta de regulamentação para definir os princípios que deverão reger as relações da UFSM com as fundações, de acordo com a legislação vigente. A comissão deverá ter 8 membros, que ainda não foram escolhidos."
Ufa. Debater, esclarecer, propor, sistematizar, é bastante trabalho, não?
Para uns, lembra um leitor do blogue, a proposta terá vindo tarde demais.
Para outros, está chegando bem cedo.
A Comissão vai dar uma curva no sindicato, como diz a gurizada.
A ver.

sexta-feira, janeiro 25

Nonada

"Nonada" é a primeira palavra-frase em Grande Sertão:Veredas.
"A ira, Deusa, celebra do Peleio Aquiles, o irado desvario, que aos Aqueus tantas penas trouxe, e incontáveis almas arrojou no Hades de valentes, de heróis, ....". É o começo da Ilíada.
"Alguém certamente havia caluniado Joseph K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum". É a primeira frase do Processo.
Veja o começo de Um deus passeando pela brisa da tarde, de Mário de Carvalho:
"Brilha o céu, tarda a noite, o tempo é lerdo, a vida baça, o gesto flácido. Debaixo de sombras irisadas, leio e releio os meus livros, passeio, rememoro, devaneio, pasmo, bocejo, dormito, deixo-me envelhecer".
Guimarães Rosa, em uma palavra, faz um manifesto contra a flacidez da língua portuguesa. "Não é nada" tem cinco vogais, "nonada" tem três e indica a tonalidade sonora do romance, onde abundam aliterações com "m" e "n", uma estratégia para deixar o texto mais sombrio, dizem alguns comentadores.
Homero faz da Ilíada o poema da ira, e essa é a primeira palavra, de fato.
Kafka sintetiza em uma linha o drama de uma vida.
Um deus passeando pela brisa da tarde está me parecendo - estou no comecinho - um presente de Mário de Carvalho para a literatura em nossa língua.
Saiu pela Cia das Letras, em 2006, mas só agora me chegou às mãos, sugerido pelo Jairo José da Silva, que, por sinal, escreveu um belíssimo livro de filosofia da matemática - Filosofias da matemática - Ed. Unesp, 2007.

quarta-feira, janeiro 23

Lagarto, lagarto.


O assunto voltou hoje na imprensa. A Razão conta que os professores Renan Rademacher, Luis Pellegrini e Dario Trevisan foram reintegrados à UFSM pela juíza Simone Barbisan. Eles haviam sido afastados pela mesma juíza. O Diário e a ZH informam que a Polícia Federal indiciou mais gente. Foram incluídos Hermínio Gomes Junior (ex-diretor técnico do Detran), Luiz Carlos de Pellegrini (professor da Ufsm) e Rosmari Greff Ávila Silveira, servidora da Universidade.
Dizem que mais gente pode ser indiciada.
A ver.
Eu gostaria de saber a resposta para as seguintes perguntas:
1. Quem assinou pela Fatec os contratos com o Detran?
2. Se o contrato foi precedido por um convênio, e examinado no Conselho Universitário?
3. Se sim, qual foi o parecer da Procuradoria, etc, etc, etc. Adianto minha opinião: não teria havido tal pronunciamento pelo Conselho Universitário. Vou conferir isso lendo as atas do Consu da época.
4. Se não, foi um ato de motu proprio da Fatec, e nesse caso o então Reitor teve qual tipo de participação? Em nome do que o Conselho Universitário teria sido esquinado, se o projeto envolvia milhões? Urgência? E para que serve o "ad referendum"?
5. Se não, aqueles que dizem que o caso Detran pouco tem a ver com a UFSM, em sentido restrito e especial, tem uma certa razão.
6. Nesse caso, volta a pergunta: quem assinou pela Fatec - entidade de direito privado - o tal contrato, arcando com tal responsabilidade, que, em sentido restrito e especial tirava o Consu da jogada?
Cabe aqui lembrar que o cargo de Diretor é privativo de ocupante de cargo de direção na Ufsm. Isso configura uma entidade muito curiosa, de direito privado, mas cujos cargos são privados, para funcionários públicos.
7. O "pernicioso", nesse episódio, tem a ver com as regras da fundação ou com a forma como a afundação foi conduzida?
A ver.
O lagarto brincou de cuca comigo e escafedeu-se por entre as moitas que enfeitam o estacionamento ao lado do prédio da Fisiologia. Levei um susto.

Lagarto


No evento do Andes em Goiânia decidiu-se, como se lê na página do Sindicato, "após uma semana de intensos debates", que "a greve é a alternativa mais eficaz de enfrentamento à intransigência do governo Lula em não atender as reivindicações contidas na pauta da campanha salarial dos docentes para 2007". Teve mais, como já comentei no poste anterior. No dia 17, os congressistas aprovaram, com algumas modificações, uma proposta apresentada por Santa Maria tratando do tema fundações de apoio.
Cito uma passagem da notícia:
"A partir de sugestão de alguns delegados do encontro, e que foi deliberada pela maioria dos participantes, o texto assinala que se deve 'continuar denunciando que as fundações de apoio são desnecessárias e perniciosas', ou seja, acrescentou-se o adjetivo perniciosa, qualificando-se então, as fundações, como prejudiciais aos interesses da universidade pública."
Então tá.
Com todo o respeito e licença, "desnecessárias e perniciosas", para mim, são propostas de greves como essa, escritas no vocabulário das acusações ao "privativismo neoliberal do governo Lula" e que geram o que estamos vendo agora no campus da ufesm, quase vazio, de aulas dadas em pleno calendário escolar, aprovado para o lagarto ver, pelo jeito. Os governos não estão nem aí para greve de classe média que gosta de cantar "Reunião de Bacana" para ficar em paz com a consciência.
Para quem não lembra, "Reunião de Bacana" é a música composta por Ary do Cavaco, que tem o refrão "Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão".
A ironia - a lembrança foi de um dos leitores do blogue, mas eu a faço minha - é que ao menos um dos componentes da delegação tem um projeto graúdo na Fatec.
Desnecessário e pernicioso é a gente ficar comendo a própria carne, feito Macunaíma.
O lagarto não está nem aí para esses gritos.