segunda-feira, março 3

O Journal of Philosophy e o "moving wall"

Um dos pedidos mais insistentes da comunidade filosófica brasileira foi atendido. O portal da Capes disponibilizou a assinatura do Journal of Philosophy. Qual não foi minha surprêsa quando vi que as edições disponíveis terminam em 2002, começando no início do século 20, por certo. Escrevi para os responsáveis e descobri que vai ser assim mesmo, por um bom tempo, por causa do tal do "moving wall" adotado pela revista. Eis a resposta que me deram:
"JSTOR is an archive of scholarly journals from a variety of disciplines. While our holdings for each journal begin with the first published issue, the availability of the most recent content depends upon an agreement we have reached with the publishers which we call the “moving wall”. For the majority of the journals, the most recently published issues are placed within the moving wall, and only become available to our users after a fixed time period (usually between 3 and 5 years after publication)."
Bueno, já é uma pequena alegria descobrir que temos um século de Journal à disposição.

sábado, março 1

Sociologia de lambreta


Viajar de lambreta pode ser uma pequena prática espiritual; são horas e horas sentado na mesma posição, sem poder mover-se quase nada, sem poder tirar por mais que segundos os olhos de um certo ponto adiante, na estrada; e manter, por mais tempo possível, o mesmo ritmo de deslocamento, atento aos sinais de todo tipo; com chuva, tudo se multiplica: os pequenos riscos na estrada aumentam e a chance de olhar para os lados diminui; a mão amortece, a bunda dói, os joelhos trancam mas é preciso seguir.
Viajar de lambreta no Uruguai é um convite para fazer sociologia de banquinho, coisa pouco nociva em férias.
Che Guevara batizou de La Poderosa sua Norton 500, que ia mal das pernas e apitou em algum ponto do sul do Chile.
Era La Flaquita, en verdad.
La Poderosa, o haras, pode ser uma ironia, lembra Dr. Valério. Acho que sim.
Minha flaquita ia entrando em Melo, seguindo um tramo do Gran Premio del Uruguay 19 Capitales.
Deixa explicar.
Estava eu esperando a chuva passar, em um posto de gasolina na entrada de Lascano, logo adiante de Rocha, quando o frentista comentou que logo ia passar um rali com mais de cem carros, com destino a Rivera.
Sorte, pensei.
Se tem uma coisa que incomoda quando a gente viaja sozinho de lambreta é ter pouca capacidade de realização espiritual. Isso significa: o gauchinho fica solito com seus pensamentos, sem nada para distrair, musica, tevê, só aquela imensa paisagem pela frente, emptiness, dizem alguns. Acho que por isso os motociclistas andam em bandos, como gusanos, esperando virar crisálidas e borboletas em algum lugar; ficam olhando a roda traseira do outro, admirando as lambretas alheias, fazendo micagens, brincando de seguir o líder passam o tempo e o espaço.
Nem Che Guevara viajou sozinho de moto.
Sorte, pensei.
Entro nesse rali.
Entrei. Com chuva e tudo, passaram os carros e me fui junto, colado num Gordini verde, que mal podia passar de oitenta e cinco. Cansei e fui em frente, colei no Mini Morris do Jorge Sanguinetti - ele mesmo, o irmão do ex-presidente, dirigente da poderosa estatal Ancap - e fui seguindo, dois decavês um Saab dois tempos também, um Cinquecento que fazia mais barulho que velocidade e fui indo na lambreta
Parava e deixava todo mundo me passar.
E tudo de novo.
Uma das diversões era ver o povo esperando, dentro de automóveis, na beira da estrada, para ver o tal do rally passar.
Entrando em Melo - foram setecentos quilometros de chuva - havia esse Vanguard Standard da foto aí encima.
Passei direto.
Depois freei a lambreta e pensei em todas as fotos que me arrependi de não ter parado e tirado. Metáforas da vida, por certo, pensei. A gente vai passando, vê a cena, coisa mais linda, pensa na foto mais linda ainda que poderia tirar, e vai em frente, com pressa, e não volta para tirar a foto. São aqueles poucos segundos, tira o pé - ou mão - do acelerador, pára, volta, faz a foto. Ou então ficamos pensando e penando e vamos em frente. E ficamos pensando que foto bonita poderíamos ter tirado. Quantas fotos bonitas perdemos, a gente fica pensando e penando.
Voltei. Ando solito, não atrapalho ninguém, pensei. Voltar, sempre que quiser, poderia ser um exercício espiritual, de tentar não perder nenhuma foto. Pensou, parou. Se não der foto boa, o aprendizado com a delusão é bem provável.
Muitas fotos a gente tira com a mente. Ficam com a gente para sempre, mas fica a sensação de ter perdido o momento e a chance de repartir.
Parei e voltei, estacionei a lambreta, fui até o carro e pedi licença para tirar umas fotos. E perguntei que carro era aquele. Eu me dirigi ao lado esquerdo do carro e ali havia uma senhora. O dono e motorista estava do lado direito do carro - onde ficava a direção - com uma criança no colo. Era um carro inglês, um Standard Vanguard de 1947, disse o dono. Sim, já tinha recebido propostas de venda, mas nenhuma razoável. Afinal, o carro, diz ele, está impecable.
Concordei com o dono. Estava impecable o Vanguard.
Toda a família estava ali dentro do Standard, esperando passar o Tramo B do Gran Premio del Uruguay 19 Capitales, que ia de Maldonado a Rivera. Ficaram horas por ali, protegidos da chuva, para ver passar os Cinquecento e demais.
Reparei no jeito que o menino na janela traseira do carro me olhava e me bateu uma tristeza.
Chovia muito.
Subi na lambreta e fui embora para Rivera. Depois daquele Standard o ralli começou a perder a graça.

Fauna


Pessoas interessadas na vida da fauna desprovida de entendimento discursivo devem comprar o último número da Ciência & Ambiente.
O número 35 chama-se "Fauna Neotropical Austral" e tem uma belíssima revisão sobre moluscos, mariposas, crustáceos, anfíbios, répteis, aves, quirópteros, mamíferos em geral. O número foi elaborado por Delmar Antonio Bressan, Editor da Revista, e pela editora convidada, Sonia Zanini Cechin, professora do Departamento de Biologia da UFSM.
Ciência & Ambiente ocupa um espaço muito especial no Brasil, pois são raras as revistas que oferecem esse tipo de trabalho que sintetiza informações de ponta em um espírito de revisão. Alguns dos números já publicados ocupam nichos editoriais até hoje pouco explorados.
O endereço eletrônico da revista é
www.ufsm.br/cienciaeambiente
O próximo número, informam os editores, terá como tema "Pensando a Evolução".

Minas


Minas é uma bela pequena cidade do interior do Uruguai. Tem bons hotéis, alguns rios e cerros de pedra muito bonitos por toda a volta. Na praça central, na rua Domingos Pérez, 483, há um bom restaurante, para se comer a clássica parrillada, acompanhada de papas a la crema. Como toda pequena cidade do interior, na rua desfilam dezenas de ciclistas e pequenas motos de todo tipo, a maioria chinesas de baixo preço. Muita gente velha na rua e crianças. Quase não há trabalho. As lojas estão cheias de mercadorias chinesas, incluindo enormes caminhonetes que imitam as japonesas em tudo.
Ainda volto lá. Essas pequenas cidades do interior do Uruguai tem muitas histórias para contar, com certeza.
Ou quem sabe, se eu pudesse, compraria uma dessas chevrolas dos anos vinte para restaurar.
Essa aí estava na entrada da cidade. Não perguntei o preço, mas o dono deve querer alguns miles de dólares, que a brasileirada está inflacionando tudo por lá.
Os empregados das estâncias de brasileiros andam rindo sozinhos. Os de verde-amarelo, de longe, pagam melhor do que os de azul e branco.


As raposas são animais desprovidos de entendimento discursivo, mas completamente providas de DNA, aquelas estruturas biológicas que o Watson e o Crick anunciaram em 1953, quando eu morava no interior do interior do Cacequi, perto da Capela do Saicã. O DNA é um tipo de matéria prima que transmite as características de cada espécie de uma geração para a outra. Até taturana tem isso.
As raposas são desprovidas de entendimento discursivo mas dão mostras de entender algumas coisas. Se as criaturas providas de entendimento discursivo e polegar opositor lhes oferecem alimento diariamente, sem a presença de cachorros por perto, elas costumam vir todos os dias, para pegar algum. Se o alimento não for oferecido espontaneamente, mas estiver dando sopa, sem vigilância, elas também pegam.
Há raposas em abundância na região de Solis de Mataojos.
Essa aí, de corte tradicional, vinha todos os dias buscar o seu. Ao meio dia, abusada, sentava numa sombra, sete ou oito metros longe, e ficava esperando.
Tem muitas outras, como dizem por lá, sorros. Poucos são mansos, como corresponde.

Los tres amigos


No recorrido que fiz com a lambreta eu pensei que fosse encontrar muitas placas como essa, que está na beira da estrada que leva até ao haras. Parece que tanto quem vende como quem compra, são muito discretos. O que pude confirmar, para ganhar um picolé de limão de Mestre Guina, foi o seguinte: de fato o senador esteve visitando a região, tendo como hospedaria a referida estância. Ele estava acompanhado da bisneta de um marechal e da filha do chamado "Chanceler do Aço", além de seu filho e do gerente da fazenda. Um membro dessa caravana mencionou a vontade de comprar uma outra estância vizinha que deve ter uns cinco mil hectares e deu a entender que o capital viria do aço brasileiro; esse negócio não saiu até hoje.
"La Poderosa", então, segundo Dona Eva, pertence a Dom Benjamin e à Dona Carolina, que devezemquando dão por ali o ar da graça; ali se criam puro-sangues de primeira linha; o mesmo acontece em um haras que Dom Benjamim tem em São Paulo e na Argentina. E é só.
Como argumentei com os amigos uruguaios, não há nada para se estranhar. Para um brasileiro comprar terras no Uruguai, basta ter carteira de identidade e a respectiva plata, como corresponde. Milhares de hectares pertencem hoje a Brasileiros. Na região de 33, com arroz e gado. Na região de Rocha, com eucaliptos e pinos. Em Punta del Este, mais precisamente em Maldonado, o grupo Fasano acaba de lançar um empreendimento, voltado para explotar o lazer, de doze milhões de dólares. E por aí afora.
Como argumentei com meus amigos uruguaios, o senador conheceu Dom Benjamin na escola primária e são grandes amigos. Em algum momento de sua carreira, informa o santo Google, o senador prestou assessoria econômica ao empreendedor, em algum dos passos de gigante que ele deu.
Dom Benjamim é um dos grandes contribuintes para as campanhas do senador. Esse trecho de uma matéria que está em uma página do Ministério da Fazenda ilustra isso:
"Mercadante recebeu duas doações de empresas do grupo Votorantim, do empresário Antonio Ermírio de Moraes. A Votorantim Finanças destinou R$ 1 milhão, e a Ibar Administração e Participações, R$ 1,2 milhão.
Outro importante doador para o petista foi a CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), que contribuiu ao todo com R$ 1,5 milhão. O diretor-presidente da empresa, Benjamin Steinbruch, é amigo de Mercadante desde a juventude."
http://www.fazenda.gov.br/resenhaeletronica/MostraMateria.asp?page=&cod=332205.
Ainda tem aquele outro assunto da participação da Previ na privatização da Vale, para a qual, se diz, a opinião do Senador foi importante. E ambos gostam muito de cavalos, bem como o Sr. Marcelo Baptista de Oliveira, outro conhecido apreciador das artes equestres, amigo dos dois já citados.
Nada que ninguém já não soubesse, no geral.
Mesmo assim, já na segunda-feira vou tentar cobrar meu picolé de Dom Guina.

terça-feira, fevereiro 26

La Poderosa III


Dona Eva vende pães na estrada que leva até a La Poderosa. São deliciosos, bem como o queijo. Acho que ela não precisa desse comércio, mas deve ficar entediada em casa, esperando o regresso do marido, caminhoneiro, que faz longas viagens pelo Brasil, por exemplo, e então abriu uma tendinha para se ocupar um pouco. Ali se pode comprar fanta morna, salames, pepinos em conserva. Peço uma fanta, um pão, e fico de papo. Pergunto a ela se sabe quem é o dono de La Poderosa.
Dona Eva nem pisca o olho, conhece tudo por ali. "Os donos são o Seu Benjamim e a Dona Carolina. De vez em quando aparecem por esses lados", diz ela.
Eu também nem pisco o olho.
Seu Benjamin e Dona Carolina estão na lista das pessoas mais ricas do vizinho país chamado Brasil.
São os donos da Vicunha, da CSN, de um pedação da Vale e de outros quetais.
Acabou a história sobre quem é o brasileiro dono do haras "La Poderosa", no Departamento de Lavalleja, Uy.
O resto da história, em especial sobre as relações do Seu Benjamin com o senador Mercadante, está nas colunas sociais do hipismo brasileiro.
Monto na minha lambreta e sigo para uma visita de alguns dias ao amigo Rodrigo, praticar um pouco de carpintaria, que estou de férias.
Até breve.

sábado, fevereiro 23

Cavalgada


A foto é de Silvana Garzaro. O texto é da Isto é Gente:

"Mercadante na maior cavalgada do mundo
A maior cavalgada do mundo foi realizada no domingo 23, em Ouro Preto, Minas Gerais. A largada foi na antiga Coudelaria Real, onde Dom João VI deixava seus cavalos. Participaram da marcha 1.022 cavalos da raça Mangalarga Marchador que percorreram 15 Km da Trilha dos Inconfidentes.
O evento entrou para o Guinness Book. Entre os cavaleiros, estava o deputado federal Aloizio Mercadante. “Cavalgar é uma das minhas paixões. Quando tenho tempo, monto e passo dias no meio do mato”, disse Mercadante. O organizador da prova, Marcelo Baptista de Oliveira, proprietário do Haras Maripá, principal criador da raça no País, liderou a cavalgada ao lado de sua mulher, Sophia Rondon de Medeiros Baptista de Oliveira, bisneta do marechal Cândido Rondon. “Todas as manhãs vamos para a Hípica Paulista, em São Paulo, onde cavalgamos. É a nossa terapia de casal”, contou."

Os butiás estão no bolso, como se diz por aqui no pampa. Eu mesmo, se tivesse mais tempo, voltaria a cavalgar. Até hoje me recordo com prazer de montar a cavalo ali na Fazenda São João, em Formigueiro. Uma vez cheguei mesmo a levar uma tropinha até o fundo do Formigueiro, junto com uma gauchada de primeira, incluindo o Negro Cafuncho. Meu primo Cleber, vaqueano como poucos guris, é testemunha.
Andar a cavalo é uma das coisas mais emocionantes que se pode experimentar na vida; aquela potência no meio das pernas da gente, animalidade pura, e ainda por cima, se bem domado, ao nosso bel controle, a quê comparar?
Minha vida é na cidade, um professor.
Hoje minha pequena poderosa é uma lambreta, ferro e borracha que nada tem a ver com a potência animal de um mangalarga. Mas é o que tenho para montar. Amanhã dou uns laçaços nela, para matar a saudade.
Eu não fazia a menor idéia que o Senador gostava de montar a cavalo. Chegou a entrar para o Guiness, vejam só.

sexta-feira, fevereiro 22

Protesto


Um dos leitores mais assíduos escreve um enérgico mail:
"Pergunto se você não poderia postar uma matéria-protesto contra o esgoto a céu aberto que atravessa o bosque e a pista de caminhada da UFSM. Dependendo do dia, o cheiro daquilo é insuportável. Pena que a câmera fotográfica não capture, ainda, cheiros. A pista de caminhada da UFSM é, certamente, um dos locais mais frequentados do Campus, e é inadmissível que uma universidade como a UFSM (ou qualquer outra!) se encontre numa situação dessas. Por falar em bosque, abriram na última sexta-feira um enorme clarão no bosque, desconfio que para começar as obras do Centro de Eventos. Por falar em esgoto, dizem que o lençol freático da UFSM está contaminado. Pergunto, novamente, se numa instituição que pretende ser produtora de conhecimento de alto nível e que possui um Comitê de Ética uma situação dessas é admissível."
Tá postado! Eu não diria melhor.
Para essa situação nosso vice, que está pessoalmente empenhado no Centro de Eventos, não poderia dizer que "cada dia é uma surprêsa!"
Na foto, o local do futuro Centro de Eventos, que está tirando o sono dos donos das empresas de formaturas.

Feist


Taí a linda. Se eu soubesse como, colocaria aqui meu mp3 favorito, "Silent Heart". Como não sei, tem trechos do ultimo disco dela, The Reminder, aqui.

Feist na Rolling Stone


Em novembro de 2005 Gabriel estava no Canadá e me escreveu dizendo isso: "Fui apresentado hoje a uma cantora canadense que acho que tu iria gostar. O nome dela é Feist, e o disco é Let It Die. Se tu não conseguir baixar da pra ouvir nesse site http://www.galleryac.com/index.php. Ah sim, e ela é linda... Um abração, Gabriel"
"Let it die" havia sido lançado em 2004.
Foi ouvir e gostar. Desde então Feist faz parte da minha lista de cantoras favoritas. Ela ganhou três páginas na Rolling Stone de Fevereiro.
A Conexão Brasilis do número de fevereiro é muito boa. Traz a história daquela que foi considerada a melhor escola pública do Brasil, o Ciep Guiomar Gonçalves Neves, da cidade de Trajano de Moraes, no Rio de Janeiro. A matéria de Carolina Benevides, com fotos de Gerson Nascimento, deveria ser lida por todas as escolas públicas do Brasil, para mais pessoas se darem por conta que as soluções mais importantes, para se reverter a profunda crise do ensino brasileiro, dizem respeito ao modo como os professores encaram seu trabalho. A reportagem dá um nó no peito da gente.
Tem também uma matéria sobre fazendas de senadores da república que acobertam trabalho escravo. De doer, também. Mas esse assunto, de fazendas de senadores, vamos deixar para outra hora.

Um deus passeando pela brisa da tarde


Esse gajo aí ao lado é Mário de Carvalho, lisboeta e escritor. Terminei de ler, dele, "Um deus passeando pela brisa da tarde" (Cia das Letras, 2006), uma história que se passa em uma pequena cidade da Lusitânia, nas fraldas do império romano, no século II d.C, inícios do cristianismo. A história está narrada pelo duúnviro (autoridade máxima local) Lúcio Quíncio, que se vê no meio de uma complexa situação: a cidade é assediada, pelo lado de fora, pelos mouros e as defesas e os muros dela são frágeis; os lusitanos de Tarcisis (o nome da cidade) são assediados pelo lado de dentro pelos cristãos - a turma do peixe - que começam a difundir suas idéias e criticar as demais religiões e alguns hábidos da cidade, e com isso despertam profundos ódios na comunidade; Lúcio é assediado por pensamentos e emoções que lhe impedem de agir da forma como a turbamulta gostaria. Entre esses assaltos destaca-se o que provém da relação dele com uma nobre romana convertida ao cristianismo. Mais não digo para não tirar o gosto do leitor. O romance vai num crescendo de tensão e expectativas: conseguirá a cidade resistir ao ataque de milhares de mouros, desprovida que está de qualquer guarnição decente? Como ficam as relações do cristianismo e de seu deus em um ambiente de dezenas de religiões? E como o duúnviro lidará com o fascínio que sente pela bela romana convertida e intransigente em sua crença?
Quem me recomendou esse livro foi o Jairo José da Silva, como já indiquei em alguma postagem anterior.
Valeu cada linha.

Entendimento discursivo


Um leitor manifestou curiosidade em relação à expressão "entendimento discursivo", que tenho empregado com certo abuso. Faço aqui uma nota sobre isso. Eu deveria ter escrito sempre "conhecimento discursivo", para fazer justiça a um dos contextos de uso da expressão. Trata-se da "Suma Contra os Gentios", de Tomás de Aquino. O livro data de 1313, aproximadamente, e representa a obra madura do teólogo Aquino. No primeiro capítulo Tomás trata da natureza de Deus, usando um método que combina a "via negativa" (dizer o que Deus não é) com a via positiva (dizer o que ele é). Assim, Deus não é corpo, nele não há acidente, e Deus é bom e uno. Nesse andor, Tomás chega ao problema de caracterizar o modo do conhecimento divino. Aqui, novamente, a solução é comparar o tipo de conhecimento que Deus tem com o tipo de conhecimento que os homens tem. Assim, Tomás expõe, falando de Deus, sua teoria do conhecimento humano. Para o que me interessa aqui, Tomás indica dois tipos de conhecimento. Um deles é o conhecimento "raciocinante ou discursivo", "quando, tendo pensado em uma coisa passamos a outra, como no silogismo, no qual vamos das premissas para a conclusão" (SCG, Livro I, Cap. LVII). O intelecto humano funciona, diz ele, na base da composição e da divisão, uma coisa torna-se conhecida por meio da outra. Já o intelecto divino não precisa compor e dividir, não precisa saber primeiro uma coisa e com base nessa passar para outra. Deus considera tudo simultaneamente, numa só operação. Seu pensamento não depende de raciocínio. Tomás não usa a expressão, mas se poderia dizer que o conhecimento divino é "intuitivo", não depende do caminho demonstrativo. A oposição que ele faz é entre "raciocinante" e "intelectivo".
A razão humana, conclui ele, é algo imperfeito. Precisamos saber uma coisa depois da outra, uma coisa por meio da outra.
O preço do conhecimento é a contínua vigilância aos equívocos do silogizar.
Assim, o entendimento divino, que não silogiza, não é discursivo.
Para que uma criatura seja dita provida de entendimento discursivo, deve silogizar.
Disso não se segue que os animais sejam desprovidos de linguagem.
Tampouco se segue que todos os animais providos de entendimento discursivo silogizem.
PS: os professores de Filosofia, essa disciplina que esse ano vai entrar em todas as escolas, ensinam a negação de proposições universais?

quinta-feira, fevereiro 21

Emas


Sobre o cornichão, as emas. No Uruguay tem muitas. Emas são criaturas desprovidas de entendimento discursivo. A falta de entendimento discursivo faz com que o mundo emocional das emas seja inteiramente diferente daquele das criaturas providas do mesmo. Emas esperam, por certo, mas nada que tenha a ver com "amanhã" ou "semana que vem". Eu, por exemplo, estou em férias e espero, com alguma ansiedade, voltar a esse agradável país vizinho nos próximos dias. Para os cidadãos da Boca do Monte nos fica muito perto, o Uruguay.

Banquinho


Desde ontem estou que nem as raposas do Uruguay, esperando. Elas esperavam comida, eu espero em vão um telefonema. Dizem que o homem está se recuperando, quem sabe vai levar alguns dias. Ainda bem que estou de férias e tenho um banquinho, quem nem aquele do Mestre Guina.
Os programas de edição de fotografia tem uns dispositivos automáticos de remoção de olhos vermelhos; eu precisava de um programinha de remoção de olhos brancos, das raposinhas.

Cachilas




Os anos sessenta e setenta parecem ter sido a década de ouro da exportação de automóveis antigos para os Estados Unidos, em especial. Os Ford 29 e os Chevrolet eram buscados por todos os lados e lotavam navios. Hoje a saída desses carros é dificultada pela lei. Sobram os banhados do Aceguá. Esse azulzinho aí de cima estava vendido por U$2.500 para um brasileiro.

Carros e surpresas


"Cachila", dizem no Uruguai, para os automóveis antigos. Esse Dogde Limusine está dentro de um galpão na beira da estrada entre Minas e Solis de Mataojos, próximo da estrada que leva ao camping de Águas Claras e à La Poderosa, referida abaixo. O Dodge está a venda por cinco mil dólares. Tem quem compre.
Falando em carros, a ultima vez que a Ufesm se viu envolvida, em algum sentido, com escândalo de automóveis, foi no início dos anos oitenta, se lembro bem. Um pequeno grupo de professores comprou automóveis a preços de banana, e um belo dia a polícia veio e levou tudo. O constrangimento, na época, surgiu pela desculpa esfarrapada que foi apresentada para os preços baixíssimos que cada um havia pago pelas belas viaturas: eram carros recuperados por seguradoras, etc. Responderam processos.
Agora surge outro possível caso de carros na Ufesm. Diz a ZH hoje e disse o Diário ontem que "professores teriam recebido dinheiro e carros". O fato motivou, de acordo com a ZH, uma linda frase do vice-reitor da Ufesm, "cada dia é uma surpresa!" Não posso esquecer de anotá-la na minha caderneta.
Dezenas de professores andam todos os dias em automóveis comprados com o dinheiro de projetos. O caso motivou uma recente decisão do Consu, a Resolução N. 016/07, que "disciplina o uso de veículos automotores de transporte rodoviário adquiridos com recursos de projetos, convênios e/ou contratos na Universidade Federal de Santa Maria e revoga a Resolução N.002/2007." Parece que uma das discussões mais importantes ocorreu em torno da obrigatoriedade ou não de usar um sinal identificador do tipo "uso exclusivo em serviço".
Alguns professores ganharam (e ainda ganham) bolsas por meio da Fatec. O que se dizia é que algumas delas não exigiam do ganhador pouco mais do que algumas assinaturas. Eram algo parecido a laranjas. Eu tive o depoimento de uma servidora da Ufesm que agradeceu o convite para receber uma bolsa, a troco de uma assinatura mensal e olho distraído.
Outras bolsa são quentes e demandam trabalho real.
Onde está o joio, onde está o trigo, o policial que deixou escapar essas notícias não ajudou muito a saber.
PS: um leitor escreveu lembrando essa história dos carros baratos; segundo ele, um dos intermediários era funcionário da casa. Obrigado!

La Poderosa


Na imagem do Google Earth, a localização da estância "La Poderosa".

quarta-feira, fevereiro 20

"La Poderosa"





Nesses poucos dias que estive no Uruguai, em meio a uma conversa com amigos, um deles comentou a exuberância econômica demonstrada por um senador brasileiro que comprou terras ao lado de onde estávamos. O dito senador seria o feliz proprietário de um haras, de área total não conhecida pelo meu amigo. O nome do estabelecimento é "La Poderosa". O dito senador teria feito uma oferta de compras de uma outra área, vizinha, no total de cinco mil hectares. O preço do hectare por ali pode chegar a novecentos dólares.
Mas quem seria o tal senador, pergunto eu. O morador local disse que era Aloísio Mercadante.
Eu sorri com ceticismo, como o leitor compreenderá.
Aloísio Mercadante é uma reserva moral do Senado Brasileiro, professor universitário como eu, um ex-presidente da Andes, entidade que ajudei a construir nos idos dos anos oitenta. Ele, se provido fosse de recursos tais, dificilmente teria como prioridade de investimento comprar terras no Uruguai para criar cavalos.
Aliás, muito bonitos.
Meu interlocutor teria se confundido, argumentei. Afinal, há tantos brasileiros comprando terra no Uruguai, quem sabe algum senador, mas Dom Mrcadante me parece pouco provável.
Continuei expressando meu ceticismo para esse conhecido que, diante de minha descrença e temeroso de me ofender achou melhor mudar de tema, como se diz por lá.
Na dúvida, hoje, escrevi para o Senador perguntando sobre o tema.
Algum leitor ficará na dúvida se eu deveria repartir essa conversa com os demais oito leitores do blogue. Eu pensei sobre isso e concluí o seguinte: esses conhecidos de Lavalleja insistem em contar essas histórias sobre o senador e não sou o primeiro brasileiro a ouvir esses assuntos. Se o senador me responder dizendo que isso é uma grande besteira, posso esfregar na cara desses uruguaios que eles estão inventando lorotas.

Uruguai


O último número da edição brasileira de "Le Monde Diplomatique" (ano 2, numero 7, fevereiro) traz um artigo de duas páginas da santamariense Deisy Ventura, sobre as desventuras do mercosul. Segundo ela, o que há de mais vivo no Mercosul deve-se às iniciativas da sociedade civil e não às ações efetivas dos governos, que gastam semestralmente mais de um milhão de dólares nas reuniões de trabalho, grupos de estudo, etc. Um belo artigo, recomendo.
Andei por uns dias no Uruguai. Acho que dona Deisy tem razão. Um dos estabelecimentos que visitei, na beira da estrada que liga Minas a Solis de Mataojos vende carros antigos. O dono comentou que seus clientes preferenciais, noventa por cento, são brasileiros. Um Citroen 1950 bem ruim das bielas vale quatrocentos dólares. Um Dodge Limousine de cinquenta e poucos e em estado razoável vale cinco mil dólares. Eles entram no Brasil pelos banhados de Aceguá. Não estão nem aí para os procedimentos jurídicos previstos pelos burocratas.
Na foto, um Dodge Custom, quase inteiro, diz o rapaz que os apresenta aos brasileiros compradores. No Uruguai há uma lei que protege os carros antigos, considerados como patrimônio do país.