domingo, abril 1

Érico Verissimo e a Filosofia

Em uma carta datada do dia 15 de Julho de 1968, Érico Veríssimo relatava a Armindo Trevisan as suas leituras:
"Tenho aqui na minha frente alguns dos livros que estou lendo simultaneamente, ou melhor alternadamente. Essais Critiques de Roland Barthes, que considero um dos mais lúcidos críticos da atualidade. One-Dimensional Man, de Herbert Marcuse, o filósofo da rebeldia estudantil. Défense de la Littérature, de Claude Roy. Éloge de la Philosophie, de Merleau-Ponty. Précis de Décomposition, de E. M. Cioran. Além disso, leio aos poucos os Diários e as Cartas de Harold Nicolson, escritor parlamentar inglês. O que me impressiona nestas confissões é principalmente o fato de seu autor ser essa coisa rara: um bom homem."
O que me impressiona nesse trecho de carta é o gosto de Érico Veríssimo pela filosofia: em 1968 não seria de estranhar que estivesse lendo Marcuse que, como ele diz, estava na moda; mas ele lia Merleau-Ponty e Cioran, caramba! Para não falar do Barthes, que tinha um pé na cozinha filosófica.

sexta-feira, março 23

Érico Verissimo e Lawrence Durrell


No início dos anos sessenta um jovem escritor santa-mariense, padre nas horas da semana, inscreveu um conto em um concurso literário promovido por uma distribuidora de gasolina. Não foi além da menção honrosa, mas o fato lhe abriu as portas do mundo literário de muitas formas; dedicar-se à poesia foi uma delas. Outra foi lhe encorajar a fazer contato pessoal com um dos membros da comissão julgadora, Érico Veríssimo. Foi assim que começou a amizade duradoura entre Armindo Trevisan, o jovem contista, e o autor de "O Continente".
Armindo publicou um belo relato sobre essa amizade em um artigo publicado faz muitos anos, de raro acesso, pois está em uma revista portuguesa, "Nova Renascença" (Revista Trimestral de Cultura, publicada em Porto, Portugal, em 1995, numero 57-58, vol. 15). O título do artigo é "Érico Veríssimo, um grande homem", e uma das coisas fascinantes do mesmo consiste na transcrição de muitos trechos das cartas que Érico mandou para Armindo, entre 1964 e 1970. Ali ficamos conhecendo, entre tantas coisas, opiniões de Érico sobre escritores brasileiros, suas leituras favoritas, aspectos pessais e familiares, enfim, um rico painel de observações que incluem o que pensava sobre Deus.
Um desses comentários é sobre Durrell. Transcrevo o trecho de uma carta de 22 de dezembro de 1967, na qual comunicava ao Armindo que este já podia buscar uma lembrança de fim de ano.
"Não compre 'O Quarteto de Alexandria' porque um senhor barbudo que andou por aqui dexou esses quatro volumes para serem entregues a você na noite de Ano Bom." Armindo comenta que quando Érico lhe entregou o presente, observou: "É talvez o maior romance do século XX. Já o li duas vezes."
Armindo conta que Érico deve ter receado que a extensão do livro fosse motivo de desânimo, e "insistiu que eu lesse os quatro volumes até o fim".
A ilustração que acompanha este texto é uma dedicatória de Érico a Armindo; para alguns amigos especiais, ele assinava com um desenho de seu rosto, no qual o destaque ficava para as grossas sobrancelhas.
Qualquer dia desses vou perguntar ao Armindo como foi a leitura do romance.
Tudo isso vem a propósito da leitura que faço do romance, estimulado pelo Mestre Guina. Estou um volume atrás do mesmo, mas vamos ao encalço do prejuízo. Para quem não visita o blog faz tempo, coisa que não condeno, pague uma visita ao blogue de leituras do Prof. Aguinaldo, aqui ao lado, para sofrer da mesma provocação.

Filosofia na Cesma

Começou a circular o número 45 do "Rascunho", o jornal da Cesma, que tem por manchete "Filosofia começa a retomar seu espaço"; trata-se do tema principal do jornal, que tem um caderno central (quatro páginas) com uma entrevista com Gisele Secco e este escriba, e artigos de Andrei Cerentine e Franco Nero Soares. Gostei muito dos dois artigos. Andrei abordou com rara propriedade alguns aspectos das propostas de transversalidade que foram aplicados no vestibular; o artigo de Franco, mais clássico, também está muito bom. E tem a conversa no caderno central; se ficou boa, não sei, cabe a outros o juízo, mas que ficou um caderno bonito, isso sim. Foram feitos mil exemplares, distribuidos gratuitamente na Cesma.

quarta-feira, março 7

Nicholas Fearn

Há uma nova leva de livros de filosofia nas estantes do país. Faz algum tempo que quero recomendar alguns, mas por alguma razão a mão travou. Ainda anda meio paralítica, mas vamos ver se pega no tranco.
Li hoje dois capítulos ao acaso do livro de Nicholas Fearn, "Filosofia: novas respostas para antigas questões", publicado pela Zahar no ano passado. Um deles é dedicado ao "problema do significado". Em poucas páginas o rapaz faz uma apresentação criativa do externalismo semântico, comentando Putnan, Burge, Davidson, de forma a situar o problema e provocar o interesse do leitor. O mesmo se passa com o capítulo "idéias inatas", onde o herói da vez é Chomski.
O exemplar que estou lendo é do Prof. Frank, a quem agradeço pela indicação. Já encomendei o meu e mais alguns pela Cesma. O livro é uma boa introdução às diversas abordagens contemporâneas para alguns temas clássicos da filosofia.

terça-feira, fevereiro 13

O Poder do Mito

Na próxima quinta-feira, dia 14, às 14.00 horas, na sala 2374, haverá a projeção de um documentário com Joseph Campbel, intitulado "O Poder do Mito". Campbell é o autor de diversos livros dedicados à interpretação do papel das narrativas mitológicas, como, por exemplo, "O herói das mil faces".
A entrada é livre.

sábado, fevereiro 3

Semblante e sotaque

O gauchinho passou na prova do brete, descansou da viagem, cevou vários mates e depois quis dar uma volta nas redondezas; lhe emprestaram a chave do apartamento, para poder voltar na hora que quisesse; mal acostumado com as modas paulistas, inventou de perguntar pelas outras chaves, a chave do edifício, a chave do portão de fora, como vai fazer para entrar? Ou sempre tem vivente lá na entrada? Lhe foi explicado que em São Paulo, nesses campos de Jardins e Moemas, ninguém tem direito a ter a chave do edifício onde mora; ninguém pode ter a chave do portão; e, finalmente, ninguém tem direito a ter o controle de sua própria garagem; e mais lhe explicaram: tem que mostrar o semblante e o sotaque se quiser que o porteiro lhe abra a garagem. Sabe como é, o perigo pode estar no assento do passageiro com um tresoitão no colo. "Mas o índio comprou o apartamento, é dono e tudo o mais, que barbaridade é essa que nem pode ter as chaves completas"? Pois é, mas é assim que são os costumes nesses campos das Moemas.

Mangueiras e bretes

Nas mangueiras para o trato de gado, no Rio Grande do Sul, ainda se usam as mangueiras; algumas servidas pelas gigantes banheiras. A coisa funciona assim; o gado entra em enormes cercados, as mangueiras; depois de colocada a tropa ali dentro, um grupo menor de reses é colocado em um cercado menor, e ali elas entram, uma por uma, em um corredor, que, se não me falha a memória, se chama brete; ali cada rês pode ficar presa, imobilizada, para o trato; dosagem, vacina, uma serrada na ponta da aspa; bicheira não se trata ali, no mais das vezes, porque depois tem o banho; aberta a seringa o bicho se vê empurrado para uma rampa que se projeta numa enorme banheira, com água e uns preparados fedorentos, à base de criolina, é o que lembra meu nariz. Sem escolha, o bicho nada uns cinco metros e sai pelo outro lado, se sacudindo todo; está banhado, pronto para ir ao campo de novo, livre dos carrapatos.
Pois tá cheio de carrapato, aqui pelos campos do tal de São Paulo. Conto que andando aqui nos campos de Moema dei com uns muitos edifícios que copiaram a moda da gauchada. Funciona assim. O índio chega no portão do edifício e uns tipos que ficam em umas casinhas escuras parece que adivinham a intenção do vivente e já vão perguntando, por meio de uns microfones escondidos lá quem sabe donde quem é e a que vem. Se gostam da resposta a porta abre e o índio pode entrar, mas somente para descobrir que entrou em um brete, desses bem estreitinhos; ali o índio fica preso no mais, mais perto da casinha de janela preta, e ali espera para que telefonem para dentro do edificio e especulem bem especulado se é pizza ou se é pão ou se é o quê afinal que a casa espera; e o índio ali, depezito no mais, lhe aguardo, espero! Aí vem as licenças e o brete abre; o índio passa pela casinha preta e ainda lhe olham bem, assim meio no desconfiado.
Lhe reparo que visita, aqui nessas Moemas, só bem anunciada, e uns dias antes.
Se os carrapatos diminuíram, eu esqueci de perguntar.

Cortina para o coletivo

Saimos da Avenida Paulista, oito e pouco da noite, tomamos um ônibus para Santo Amaro, rumo a Moema. Naquela hora da noite de uma sexta-feira as ruas e os ônibus já estão mais vazios, há lugares para sentar depois da roleta. Pagamos, passamos, sentamos. Depois de alguns minutos P. me chama a atenção para uma cortina de pano amarrada perto do assento do cobrador; um pano verde, amarrado com um fio de plástico, coisa muito bagaceira e improvisada, separa o cobrador dos passageiros de trás; com facilidade ele fica meio escondido, sem ver o que se passa nos fundos do seu coletivo. O visitante distraído, como eu, não entende muito o que se passa ali. Nesse meio tempo um sujeito passa por baixo da roleta e depois mais outro; não dizem nada ao cobrador, apenas fazem uma cara feia e passam, se aboletam no fundo; um deles fica fuçando no telefone celular. P. explica que as cortinas se multiplicam nos onibus paulistas; por meio delas os cobradores fazem vista grossa ao que acontece dali para trás; alguns se recusam a dar informações aos passageiros que não conhecem a linha e a cidade; a maioria dos passageiros usa cartões magnéticos; poucos, como eu, pagam em dinheiro, e isso por vezes muda a rotina deles, que nem precisam ficar sentados na cadeira que controla a roleta.
A cortina verde, diz P., é uma invenção dos cobradores, para se incomodarem menos; retiram sua autoridadezinha de cobrador sobre o fundo do seu ônibus, que se virem os passageiros; incomodam-se em dar o troco a quem paga em dinheiro; um dia desses alguém há de perguntar para que, afinal das contas, servem os cobradores.

Tom Dwyer

Tom Dwyer é o presidente da Sociedade Brasileira de Sociologia. Deu uma entrevista ao Jornal da Tarde (SP) no dia 31, quarta-feira passada, na qual aborda o tema do ensino de Sociologia e Filosofia. O jornal o procurou para conversar sobre a volta dessas disciplinas ao currículo escolar, "duas aulas por semana durante um dos três anos do Ensino Médio", diz a articulista Maria Rehder, que lhe perguntou sobre as diferenças entre essas duas disciplinas e a psicologia. Ele responde: "A psicologia não pretende estudar a complexidade das mudanças sociais no mundo, como o fato da globalização estar afetando as coisas no meu bairro, por exemplo. A sociologia, sim. Já a filosofia é o estudo do indivíduo, o que é muito diferente de sociologia, que estuda os agregados. A filosofia trata das questões mais antigas da Humanidade como a diferença entre o bem e o mal e a busca pela verdade."
Tom Dwyer é professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.
Sobre o preparo das escolas para atender essa obrigatoriedade: "No momento vivemos o desafio de escolher qual tipo de sociologia deve ser adotado no currículo do Ensino Médio".
Sobre a metodologia de ensino ideal para o ensino de Sociologia: "Isso eu não posso responder em nome da Sociedade Brasileira de Sociologia (...). A seguir ele diz que "a boa educação deve se organizar em torno das quatro aprendizagens fundamentais estipuladas por Jaques Delour, da Unesco: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto, aprender a ser.
"Indivíduos e questões mais antigas" e os "agregados". Como diria aquele jornalista, então tá.

domingo, janeiro 28

Bento Prado, Jr.


A última vez que vi Bento Prado Jr. foi em agosto de 1997. Estávamos no mesmo hotel em Belo Horizonte, participando do "Seminário Internacional de Filosofia Analítica e Pragmatismo". Ele levava na mão o livro de Giovanna Borradori, The American Philosopher (UCP, 1991), que lia com interesse. Comentei que estava lendo livros de Arthur Danto e isso valeu longas conversas, em caminhadas no campus da UFMG. Eu já o conhecia de outras oportunidades, mas foi ali que pude ter esse privilégio de conversar muitas vezes com ele, no bar do hotel, tentando acompanhá-lo no johnnie red, nos almoços e jantares do encontro. Não imagino, em nossas catacumbas filosóficas, quem possa ombrear com ele na amabilidade. Uma de suas tarefas era coordenar uma mesa de debates na qual os palestrantes se mobilizavam para apresentar propostas de fundamentação da ética. Com a maior simplicidade ele abria os debates perguntando a todos se, afinal, a ética era de fato carente de alguma fundamentação. Precisamos mesmo fundamentar a ética?
Eu estava contente e triste naquele encontro; pude conversar bastante com Susan Haack e apresentei meu paper para Richard Rorty, que foi de uma atenção particularmente surpreendente; ao final veio conversar comigo, fazendo sugestões para enriquecer a abordagem que apresentei. Mas eu estava triste porque meu pai, em Santa Maria, estava muito doente. Na ultima noite do colóquio houve um jantar na casa de um dos organizadores, findo o qual fomos, em um pequeno grupo, para uma casa noturna da moda em BH; ficamos lá até altas horas; Bento fez questão de pagar a conta. Quando chegamos no hotel, já madrugada, havia um bilhete para mim, de minha mulher, dizendo que meu pai havia falecido. Reparti a notícia e minha dor com Bento, Ghiraldelli e outros; não havia como viajar de volta na madrugada; no outro dia, cedinho, fomos para o aeroporto.

sexta-feira, janeiro 12

Bento Prado Jr.

"Colegas e amigos:
A ANPOF acaba de receber do Professor João Carlos Salles uma triste
notícia, e aqui reproduzimos seu texto, que toca no coração de toda a
nossa comunidade: "Lamento informar o falecimento do professor Bento Prado de Almeida Ferraz Junior, neste dia 12 de janeiro. Colega e grande amigo, Bento é também um exemplo em requinte e em profundidade do que melhor se produziu em Filosofia no Brasil, destacando-se tanto por sua escrita quanto por sua fala. Além disso, é também um exemplo de compromisso institucional, de empenho pela comunidade filosófica nacional, tendo sido, aliás, por duas vezes, Presidente da ANPOF. Como personalidade pública, sua corajosa história é bastante conhecida, sendo ele, além de profissional da Filosofia, um destacado intelectual brasileiro."
A ANPOF perde então um de seus grandes Presidentes, e muitos de nós perdemos um grande amigo, mas a memória de sua inteligência excepcional, de seu humor finíssimo e de sua afabilidade com os mais jovens deve permanecer.
Álvaro L. M. Valls".

quinta-feira, janeiro 11

Prova 3: o que é mesmo a Filosofia?

A prova 3 (Filosofia, Matemática, Língua Portuguesa e Língua Estrangeira) contribuiu para o enriquecimento das lendas urbanas sobre as questões de Filosofia. Um grupo de professores de Matemática teria se atracado com a questão 4, tentando resolvê-la. Ao cabo de vários minutos um deles arriscou o palpite: "Mas isso não é uma pergunta de Matemática, isso é da Filosofia...".
Enquanto isso - continua a lenda urbana - alguns professores de Filosofia procuravam chegar a um consenso sobre afinal, quais eram MESMO as cinco questões de Filosofia na prova do dia.

A Pragmática

Uma senhora francesa, Françoise Armengaud, professora de Filosofia da Linguagem em Paris X-Nanterre, escreveu um livrinho de apresentação da pragmática, intitulado "A Pragmática". O livro teve sua primeira edicão na França em 1985 (pela PUF), uma segunda, com revisão em 1999, e saiu agora no Brasil, em tradução de Marcos Marciolino, por uma "Editora Parábola" (www.parabolaeditorial.com.br). O livro começa com um capítulo histórico, Peirce, Frege, Wittgenstein, Morris, Carnap, Bar-Hillel, Stalnaker, Hansson. A seguir, o que ela chama de pragmáticas de primeiro, segundo e terceiro graus, e um capítulo de conclusões. Está muito bem escrito; creio que a professora tem tudo a ver com os franceses que se ocupam com o tema, como Recanati, Francis Jacques e outros. Vou dar um jeito de encomendar alguns exemplares pela Cesma. Falando nela, já está funcionando a nova ala da filosofia, sociologia e artes. Vale a pena visitar. Acho que ainda cabe uma bela mesa para expor as novidades. Vamos pressionar o Télcio.
Agradeço ao Frank pelo empréstimo do exemplar do livro da dona Armengaud. Devolvo assim que chegar a minha encomenda. Devolvo?

quarta-feira, janeiro 10

A transversalidade pedestre

Como dizia Dom Bressan ontem, em conversa particular, quase sempre que a gente ouve alguém falar em interdisciplinariedade ou tranversalidade no ensino, a vontade que a gente tem é de ir saindo de fininho, para escapar dos lugares comuns e do vazio de idéias.
Os corredores das escolas ilustram essa dificuldade; os projetos de inter ou transversalidade se resumem à enésima repetição de recortes de revistas sobre problemas de meio-ambiente, no mais das vezes, ou da importância da ética.
Se algo sobrar dessas questões do vestibular de Filosofia, eu espero que seja uma ponta de flecha indicando a possibilidade concreta de uma transversalidade pedestre; no horizonte estaria um projeto de currículo de Filosofia para o ensino médio que, entre outras variáveis (eu disse OUTRAS) consideraria certas relações internas e possíveis entre a Filosofia e as demais disciplinas e atividades do ensino médio.
A transversalidade pedestre se ocupa com conceitos que desempenham papel importante em muitas disciplinas particulares (a idéia de "taxionomia" é fundamental não apenas na Biologia, pois outras áreas do conhecimento humano fazem classificações), mas nenhuma disciplina em particular se ocupa com ela. O mesmo vale para "definição", "abstração", "infinito", significantes que transitam na cabeça dos guris e gurias, mas que ficam à deriva nas disciplinas particulares.
Eu insisto nessa idéia de "transversalidade pedestre" como a porta de entrada da tal da "contextualização". Muitos professores de Filosofia, quando ouvem falar em "contextualização" querem logo falar do Saddam ou da Cicarelli, e esquecem de contextualizar com o que o aluno estava estudando minutos antes, em Biologia ou Física.

Momento Espiritual

Na 800 AM, Rádio da Universidade Federal de Santa Maria, há, por volta das 18.00hs, um programinha chamado "Momento Espiritual". Até aqui tudo bem. Na apresentação do mesmo, o locutor informa que a produção do programa está sob a responsabilidade da "Federação Espírita do Paraná". Pilulas de sabedoria, as de ontem perguntavam se valia mesmo a pena a separação no casamento. Tem cópia para os conselheiros do Cepe ouvirem, se quiserem.
Afinal, é extensão universitária, não?
Atenção demais denominações religiosas: abriu geral, vamos lá reivindicar nossos momentos.
Em outros tempos o idiota pensaria em reivindicar, na portaria da Rádio, um "Momento Material", para expor as bases do seu agnosticismo ou coisa que o valha.
Outros tempos se foram. Com eles se foi certa vergonha republicana.
No quinto andar, a Virgem Medianeira (há no Gabinete do Reitor uma imagem dela) está triste. Ela não gosta dessas idéias de ressurreição da tal Federação Paranaense.

terça-feira, janeiro 9

Questões de Filosofia

Alguns professores de Filosofia estão virando corujas, no melhor dos sentidos, orgulhosos de seus alunos; e não apenas nos cursinhos e no nível médio, diga-se de passagem.
No folclore da prova de hoje há uma história sobre um professor de Filosofia que teria reclamado que, ao invés de cinco questões, havia apenas uma.
Fora do folclore, nas entrevistas com alunos que ouvi, esse foi um dos comentários em tom positivo: as questões de Filosofia nem sempre eram evidentes como Filosofia, e o aluno tinha uma surprêsa intelectual agradável, ao ver um tema de outra disciplina ser abordado de modo diferente.
Essa deveria ser uma (eu disse UMA) característica importante da presença da Filosofia no currículo escolar: praticar uma transversalidade pedestre e efetiva.

Homens, mulheres, vinho e signos

Ao que parece, a questão de número trinta e dois da prova de hoje é uma homenagem aos estudos de semiótica e filosofia da linguagem.
Em um texto de natureza autobiográfica, Charles Peirce escreveu que "... desde o dia em que, na idade de 12 ou 13 anos, eu peguei, no quarto de meu irmão mais velho, uma cópia da Lógica de Whateley e perguntei a ele o que era a Lógica, ao receber uma resposta simples, joguei-me no assoalho e me enterrei no livro. Desde então, nunca esteve em meus poderes estudar qualquer coisa - matemática, ética, metafísica, anatomia, termodinâmica, ótica, gravitação, astronomia, psicologia, fonética, economia, a história da ciência, jogo de cartas, homens e mulheres, vinho, metrologia, exceto como um estudo de Semiótica".
Lembrei desse texto ao lembrar o que pode ter sido o espírito da questão 32 da prova de vestibular da UFSM de hoje, que pede ao aluno para aplicar o conceito de signo - em alguma de suas especificacões, como índice, ícone ou símbolo - ao diagrama de uma questão de física, que fala na representação de um olho. Como não existiam, no gráfico usado na questão de Física, elementos que caracterizassem relações de semelhança ou contigüidade/imediatidade, a resposta certa apenas pode ser a que fala em símbolo e arbitrariedade (ou convenção, não me lembro agora).
Nas questões que serviram de exemplo, meses atrás, no sítio da Coperves, havia uma aplicação desses conceitos a tipos de inteligência ou raciocínio.
Parece ter sido essa a única questão da prova de Filosofia que provocou alguma polêmica. No mais, as pessoas estão dando depoimentos bons sobre a prova. Vamos ver amanhã.

segunda-feira, janeiro 8

Filosofia no Vestibular

Hoje, 8 de janeiro, no almoço, conversei brevemente com uma vestibulanda e linda que presta para Medicina pela primeira vez. Disse que adorou as aulas de Filosofia no Cursinho, pensa até em fazer Filosofia um dia, como uma segunda formação.
Tá vendo? Precisa mais? Deve ter muito mais. Amanhã, terça-feira, 9 de janeiro, é dia.

Desmotivação

A Folha de São Paulo do domingo (7 de janeiro, C1) traz uma matéria sobre educação que toca numa das grandes feridas da área. A matéria tem como fundo uma pesquisa do INEP. A pesquisa visa encontrar as razões que levaram 1,7 milhão de jovens entre 15 e 17 anos a não estudar no ano de 2005. As principais conclusões são essas:
a) três em quatro jovens não completaram o ensino fundamental, mas a maioria (68%) ao menos chegou até a quinta série;
b) ter filho diminui a probabilidade de a jovem estudar. Entre as que vão a escola, apenas 1.6% é mãe, percentual que sobe para 28,8% entre as que estão fora;
c) mais do que a falta de vagas, de transporte ou mesmo a necessidade de trabalhar, é a falta de vontade de estudar que empurra a rapaziada prá fora da escola. Essa razão foi identificada em 40% dos casos entre os que não estão em sala de aula.
Até aqui, os dados do INEP, na minha opinião, apenas ratificam algo que a imensa maioria dos professores insiste em fazer de conta que não vêem: a escola está mal preparada, didatica e pedagogicamente.
A alguns dos grandes especialistas ouvidos foram atribuídas opiniões bem curiosas. Rubem Alves, segundo a Folha, disse que "o próprio sistema em que as escolas funcionam é pouco atrativo. Usa como exemplo o fato de as disciplinas serem ministradas separadamente". Outra pesquisadora diz que "uma nova forma de avaliação dos estudantes, que valorize aprendizagem e não simplesmente a nota obtida na prova, é um dos pontos que podem ajudar".
Assim me caem os butiás do bolso!
A gurizada se manda da escola porque as aulas são um saco de mal preparadas; não se pesquisa didática, em suma. O resto é conversa prá guri dormir.

domingo, janeiro 7

Ser chefe

O texto maior de João Guimarães Rosa, "Grande Sertão: Veredas" está ainda disponível para baixar, em
http://www.novafronteira.com.br/grandesertaomec/
A Cesma já tem a edição comemorativa dos 50 anos, coisa mais linda, cento e vários de reais.
O bom do arquivo em pdf é a gente poder localizar a jato as passagens que se quer. Dei azar na primeira que fiz. Gosto muito de algumas frases do livro e saí em busca de uma delas. Digitei as palavras chaves e neca. Erro meu, pensei. Fui de novo, restringi um pouco mais as palavras. Achei a passagem, e junto com ela um erro de digitalização. A passagem é essa:
"Ser chefe - por fora um pouquinho amarga; mas, por dentro, é rosinhas flores."
Na versão em pdf, página 84: "rosinhas fôres".
Numa frasezinha dessas o Rosa pega uma baita fresta para espiar o jeitão dos bípedes despenados.

sexta-feira, janeiro 5

CAP

CAP é a sigla adotada pelo Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Estive ontem lá, para falar para os professores. Eu ainda não conhecia a nova sede (desde 1996 o CAP não está mais na Oswaldo Aranha e sim no Campus do Vale). Fiquei surpreso com a qualidade das instalações. Mesmo com 10 anos de uso o Colégio está em bom estado e tem tudo o que uma escola merece, desde armários individuais para os alunos (daqueles que eu só conhecia em escolas de filme americano) até um teatro igualzinho ao Caixa Preta.
A visita me fez lembrar que um dia o Centro de Educação discutiu um projeto de criação de um Colégio de Aplicação na Ufesm. O projeto ficou uma beleza e foi enfrentar os debates. Entre os pomos de discórdia apresentados estava o processo de seleção dos alunos. Uns queriam que as vagas fossem destinadas aos filhos de professores, servidores e alunos. Outros queriam que as vagas fossem para os moradores populares do entorno. Outros queriam sorteio. Deu impasse. Ficou por isso mesmo, não saiu do papel.
Os Colégios de Aplicação supunham uma forte conexão com pesquisa em currículo e metodologia de ensino. Nos anos oitenta, no entanto, as poucas linhas de pesquisa que haviam por aqui nessa área foram diminuindo mais ainda; havia um mestrado em currículo (a "Faculdade Interamericana") que foi implodido, em nome de estudos pedagógicos mais politizados. Deu no que deu: aplicar o quê?
O CAP está muito bem, materialmente. A seleção dos alunos é feita por sorteio. Quanto à aplicação propriamente dita, não tenho elementos para avaliar. Fiquei com a impressão, no entanto, que o CAP paga um preço aos tempos bicudos que vivemos na área educacional e federal.

quarta-feira, janeiro 3

CDN

Acabou a CDN. Depois de meses de negociação, deu em nada. Não houve acordo entre a CDN e a Gaúcha, e volta, no 93.5 o antigo sinal da Antena 1 "via satélite, para todo o Brasil". Nesses anos de sinal da Gaúcha em FM na cidade, e mais os horários locais, criou-se um hábito de ouvir rádio que agora acaba; vai demorar um tantão para que volte, ao que dizem. Eu já andava meio sem criatividade nos debates do meio-dia, mas de vez em quando saia alguma conversa razoável.
A cidade perde um tambor. Gostei de ouvir o mestre Guina, por exemplo, na entrevista das quatro da tarde, falando sobre o Bloomsday. O Sérgio Assis Brasil se saiu muito bem naquele espaço e soube promover muita coisa boa por ali.
Acabou.

quinta-feira, dezembro 28

Boas Festas

Agora só dá tempo para um Feliz Ano Novo. Dia 2 de Janeiro, se a BR101 permitir, estou de volta. Um grande abraço para todos os amigos do Morana. Espero que tenham uma boa virada de ano e que 2007 seja mais leve e livre para todos nós do que foi 2006.

quarta-feira, dezembro 20

"Vou ali carnear uma ovelha e já volto." (Do Vertigo, 2)

"E agora me quiedo meio sem perspectivas diante de uma esquerda cada vez mais enfraquecida. No resto do país, o neopopulismoenganapovo cresce assustadoramente e ocupa 398 prefeituras no país. As tentativas de mobilização global com o Fórum Social parecem ter esbarrado em si mesmas e os movimentos anti-qualquer coisa já não tem o peso indicativo de mudança que tinham há pouco. Enquanto isso, nossos amigos listrados escolhem entre o sujeito claramente comprometido intelectualmente que diz que vai acabar com o mundo e o rosto bonzinho que pratica windsurf e que não fará nada muito diferente disso.

Vou ali carnear uma ovelha e já volto. Vocês perceberam que os jacarandás começaram a florescer?"

(Por Gabriel Gomes Pillar, em 4.10.2004)

Do Vertigo

"Fui. Não volto. Valeu por tudo.
Assim mesmo, em bloco, pra passar desapercebido. A primeira coisa que fiz foi pegar a bicicleta e sair a andar pela cidade. É impressionante como as tardes em Porto Alegre podem ser agradáveis. Poucas pessoas na rua, sento pra tomar um café, ler uma revista e até encaro um sessão de cinema depois. Uma não, foram três na semana - um recorde comparado com as parcas visitas às salas de exibição nos ultimos meses. A tendinite no braço direito começou a melhorar, e chega dez da noite e não estou mais caíndo de sono. Continuo dormindo até tarde, mas isso está tão impregnado em mim que vai dificil mudar tão cedo. Estou feliz, contente com a vida e com os planos para o FUTURO. Aos poucos tiro o pó da lista de projetos interrompidos. Mas não nessa semana. Quero passar alguns dias assim, fazendo nada, e me preocupando com menos ainda. Tomo outro café, tenho uma vontade incrivel de comer algo doce, e fico ali sentado, olhando o movimento da rua."
(Por Gabriel Gomes Pillar, em 13.06.2005)

terça-feira, dezembro 19

Vou passar a noite em Sintra

Depois de dizer que guia sozinho, "quase devagar", e que lhe parece que segue por outra estrada, que segue sem haver deixado Lisboa e sem ir a Sintra, o poema vai assim:

"Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem consequência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida..."

Poesias de Álvaro de Campos - [463] 11-5-1928

Familiar, não?

"Ao volante do Chevrolet"

Dias atrás saí da Cesma pensando nuns versos de Fernando Pessoa, que lembrava apenas vagamente. Versos raros, nos quais o poeta descreve seus sentimentos, dirigindo um automóvel de Lisboa até Sintra; versos raros, nos quais o poeta declina a marca do carro que dirige; o poema começa assim:
"Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra, ao luar e ao sonho, na estrada deserta, sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco me parece, ou me forço um pouco para que me pareça, que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo, que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter, que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?"
Por duas vezes Pessoa fala no Chevrolet, que tem emprestado, apenas: "Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio? Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite, guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente, perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço, e, num desejo terrível, súbito, violento, inconcebível, acelero..."
Lembrei desse poema de Pessoa, caminhando nas proximidades da Cesma, porque fiquei pensando se havia sido justo no meu comentário sobre o início do livro de Lion Goya, "Projeto AIC-Metamorfose", do qual disse que havia empacado por causa da sigla da caminhonete GM-S10. Afinal, a General Motors nada mais é do que a fabricante do venerável Chevrolet (A GM usou esse poema numa peça publicitária aqui no Brasil, faz muitos anos!), e nunca reclamei para mim mesmo do Pessoa usar marca de carro no seu poema.
Pensado isso, fiquei quieto, nesses dias de poucas palavras, mas não deixei de pensar, em mais de uma vez, se não teria eu sido um tanto quanto impertinente na minha postagem.
Hoje recebi um mail do Lion Goya. Transcrevo.
"Caro Ronai,
É com satisfação que vejo o comentário do meu livro no seu blog. Pena não teres tido saco para continuares lendo, quando empacaste, segundo o seu próprio termo, na sigla GM S10 (GENERAL MOTORS modelo S10). A contextualização do cenário em ambiente local e no Brasil foi um das minhas opções. É impossível agradar a todos. Outros, parece que é possível...
Olha que interessante o que foi publicado sobre o meu livro no jornal da tarde em São Paulo, que está disponível no site da CBL (Câmara Brasileira do Livro).
http://www.cbl.org.br/news.php?recid=4400&hl=conspirações%20made%20in%20brazil
Se estiveres interessado em realmente ler todo o livro e quiseres um exemplar para isso, posso pedir para os meus editores te enviarem um. E se as siglas te incomodares vai enviando e-mails que posso ir te traduzindo. Já que pareces ter, pelo menos com siglas, dificuldades.
Abraços,
Att
Lion Goya"

Agradeço a atenção. De fato, tenho muitas dificuldades, a maioria invencíveis, azar meu; conheço bem siglas de automóveis, infelizmente; é mais o detalhismo da sigla que me incomoda; mas o que me incomodou mais, desde a caminhada na Cesma, lembrando o chevrola do Fernando é ter fixado minha atenção em um detalhe na verdade insignificante diante do empreendimento como um todo. Aceita meus cumprimentos pelo teu trabalho, Lion.

segunda-feira, dezembro 18

Filosofia no Peies

A partir de hoje está aberta oficialmente a temporada de avaliação da presença da Filosofia no Peies. Foram oito questões; elas não tem conexão com as demais (ao contrário do que pode ocorrer no Vestibular), mas apontam, em alguns casos, para temas transversais. Esses temas transversais, na maioria dos casos, são simples e pedestres, como é o caso da questão sobre "Morte e Vida Severina". Ainda não tenho uma cópia da questão para transcrevê-la aqui e explicitar a transversalidade nesse caso.
Apenas duas pessoas, professores de filosofia em cursinho e escola, comentaram comigo a prova; disseram que os alunos não se assustaram, que alguns até mesmo gostaram da prova.
Vamos ver.

segunda-feira, dezembro 11

quarta-feira, dezembro 6

Cidades Híbridas


O site da Universidade Federal do Rio do Sul (www.ufrgs.br.lmic/blog) hospeda, como homenagem, a monografia de conclusão de curso que o Gabriel defenderia na tarde de ontem. O trabalho chama-se "Cidades Híbridas: um estudo sobre o Google Earth como ferramenta de escrita virtual sobre a cidade". No horário programado para a defesa, a Fabico fez uma homenagem ao Gabi. A banca foi composta, um dos membros leu o resumo e a conclusão do trabalho e depois deram depoimentos sobre o Gabriel. O orientador do trabalho foi o Prof. Alex Primo, no centro da foto.

Gabriel Gomes Pillar

Os leitores deste blog conhecem o Gabriel. Desde que surgiu, Moranafilosofia tem um link ao lado para "fell the vertigo", o blog do Gabriel; em fevereiro, fiz duas postagens falando sobre ele, e numa delas inseri uma foto, mostrando-o na operação de uma camera de vídeo, no Rincão do Inferno.
Na segunda-feira, de madrugada, Gabriel morreu em um acidente de carro, na descida da Mostardeiros, em Porto Alegre.
Gabriel foi meu incentivador de primeira hora nestas lidas de redes, grosso que sou nesse mundo das virtualidades. Não foi apenas o sobrinho querido ou meu herói familiar da blogosfera quem perdi, pois o parentesco havia virado amizade e a amizade trouxe junto aprendizados e trocas, vinhos e risadas.
Gabriel inaugurou a moda, desde pequeno, de não chamar a gente de "tio". No início estranhei. Depois acho que compreendi. Depois, depois, agradeci.
Hoje é esse buraco na vida.

domingo, dezembro 3

A carroça da Veti


Enquanto a Jai segue em frente, a carrocinha que faz propaganda do churrasco da Veterinária passa em frente ao prédio 74.

sexta-feira, dezembro 1

Sobre adolescentes

Na segunda-feira, 4 de dezembro, às 14h, no Centro de Educação (sala a definir, mas podem se dirigir à sala 3278B), acontece o colóquio sobre "Adolescentes e Identidade: Perspectivas Psicanalíticas Atuais", apresentado por Adriano Oliveira, membro da linha de pesquisa II Educação Política e Cultura do mestrado em educação.

quinta-feira, novembro 30

Bacharelado Interdisciplinar

João Carlos Salles alertou, na palestra da terça-feira, para uma proposta de criação de bacharelados interdisciplinares. A proposta surgiu na UFBahia e será debatida pelas universidades federais, a partir de amanhã, em Salvador, com a presença do ministro da educação. A idéia de alguns reitores tem uma cereja bonita no meio: acaba com o vestibular; usando-se a nota do Enen, entra quem quiser, para fazer um curso de bacharelado em três anos, em grandes áreas: Ciências da Matemática, Ciências da Vida, Saúde, Humanidades e Artes; depois de terminar esse basicão, o aluno pode concorrer, com seu histórico, a uma vaga em sua carreira final. Se a média não der, ele já tem um diplominha.
O Reitor da UFBa quer começar com essa modalidade em 2008.
Os Departamentos de Filosofia estão em polvorosa. Com isso, voltariam a ser grandes departamentos de serviços, pois todo mundo teria que fazer cursos de Filosofia, no tal basicão.
A coruja vai ter que abrir o olho.

quarta-feira, novembro 29

A notícia que sumiu

No dia 28/11/06, a página da ufesm publicou uma notícia com o título "Universidades Federais estudam mudanças no sistema de ingresso para alunos". Depois, a notícia sumiu. Alguém viu onde anda?

Bicho papão

Deu na página da ufesm: que até o início da tarde de terça-feira, dia 28, haviam apenas 5.803 candidatos inscritos ao Vestibular da casa. No caso da Unipampa a tragédia é grande: apenas 312 inscrições para 520 vagas.
Para quem é de fora, convém lembrar: anos há nos quais o vestibular da UFSM atrai mais de vinte mil candidatos; uma média de 10 anos deve andar em torno de 14.000. Quando a inscrição custa pouco, atrai o jovem que quer treinar e está apenas no primeiro ano; quando a prova coincide com as demais federais, vem pouca gente. Este ano é esse o caso e a inscrição custa 75 paus.
As explicações institucionais são essas, segundo a página da ufesm:
"Segundo o professor Dario Trevisan de Almeida, presidente da Comissão Permanente do Vestibular (COPERVES), uma das possíveis causas, que contribui para a redução do número de candidatos ao Concurso Vestibular da UFSM, é o grau de dificuldade das provas com a inserção da disciplina de Filosofia, associada à formatação das provas, que vem sendo utilizada nos últimos anos."
Mal abriu as asas e já virou bicho papão, a corujinha de Minerva.

terça-feira, novembro 28

Orquestra


No final, havia, como sempre, previsão do bis. Foram quatro músicas. O público aplaudia e ficava parado, esperando mais uma.

João Carlos e João Carlos


João Carlos Brum Torres falou primeiro, no início da tarde. Atual secretário de planejamento do RS, professor da UFRGS, uma das poucas grandes cabeças da filosofia política no Brasil, João Carlos apresentou o que considera ser a primeira versão de um ensaio sobre como podemos pensar a experiência do século vinte; a sala estava lotada, com gente em pé no fundo e nas portas; e a recompensa foi uma aula sobre como se pode filosofar com rigor e paixão sobre um tema tão abrangente. João Carlos deteve-se principalmente nas mudanças de nossa forma de pensar a natureza (e o que poderia ser um "novo naturalismo") e nas mudanças de nosso entendimento sobre a noção de sujeito, as novas formas de sociabilidade e política emergentes. Foi ousado e brilhante. No final da tarde João Carlos Salles, atual presidente da Anpof e professor da UFBa, contextualizou o documento das "Orientações Curriculares" do MEC, do qual é um dos autores, mostrando que algumas características do mesmo tem a ver com o momento no qual foi redigido, quando ainda não havia esse quadro atual da obrigatoriedade da disciplina. Entre muitas coisas importantes que foi revelando, incluiu algumas opiniões muito pertinentes sobre a presença da Sociologia junto à Filosofia, na resolução do CNE.
Uma tarde e tanto.
Para encerrar, já na noitinha, um concerto da Orquestra da Universidade.

domingo, novembro 26

O café da Cesma


Em primeira mão para o mundo: uma espiada no espaço do Café da Cesma. Tratava-se de uma sessão experimental, na qual o distinto público visto na foto era cobaia.

Santa Maria


No Flickr tem mais uma foto desse tipo. Para minha surprêsa, já não é mais nenhuma aventura fazer um passeio no Morro da Antena. Na verdade dá para convidar a patroa e tomar um chimarrão de fim de tarde, sem riscos. Na antena da Brasil Telecom há vigilância 24 horas. Conversei com o guardinha de plantão, Ricardo, que me contou que as visitas aparecem durante toda a semana, para apreciar a vista, como se diz. Um rapaz de São Pedro costuma vir ali para praticar asa delta, pois há uma pequena rampa para isso. Para ir até lá basta sair para São Martinho e tomar a direita na placa que diz algo como "Sitio Gaúcho", onde há uma estrada com calçamento. Siga o mesmo. Evite esse passeio em dia de chuva, pois a pedra vira um sabão.

sábado, novembro 25

Solidão

Simples assim: um velho conhecido, solito num lugar qualquer do interior do interior do érreesse, começa a pensar sobre o mais antigo dos temas, "quanto é o bastante?", toma umas e outras e uns remédios fortes e decide pular para fora da ponte da vida, me conta um amigo mais próximo. No caso da Vida e Morte Severina, quem lembra?, a mulher vem avisar o nascimento de uma criança e com isso dá a resposta. No caso do conhecido, algo parecido ocorre, amigos lembram e convidam para um jantar. Como nunca disse Aristóteles, para ficar em solidão convém ter boa solidez.

Mezzomo


Este aí da foto é o Mezzomo. Mora no fim da estrada de Val Feltrina. Rogério e Diana, quando vierem a Santa Maria, em Janeiro, não deixem de visitá-lo. Na propriedade dele há uma das mais belas cascatas da região. É só pedir que ele deixa montar uma barraca para passar uma noite na beira do riacho. Na parte de cima da montanha fica a casa de pedra do Prof. R. R. R.. Vale a caminhada (Postei uma foto panorâmica de Santa Maria no Flickr, para matar a saudade ou apresentar a cidade para quem não conhece).

Lion Goya

Quem entra na Cesma vê os cartazes de lançamento do livro de um autor chamado Lion Goya, "Projeto AIC - Metamorfose". O nível do material é de primeiro mundo. Disseram-me que Lion Goya é o pseudônimo de um escritor bocamontense. Tratar-se-ia de um psiquiatra, residente em Santa Maria. Fiquei contente. Quem não ficaria, ao saber que no edifício ao lado pode morar um sujeito que gastou horas de sua vida escrevendo um romance, bem promovido, etc. Bom, o livro parece explorar o mundo ficcional, etc, círculos em plantações, etc. Comecei a ler com toda a boa vontade, mas tranquei no início. No primeiro parágrafo me aparece a seguinte frase: "Tinha estacionado a sua caminhonete GMS10 próximo da estrada".
No meu tempo de guri eu gostava de brincar com siglas de caminhões: gemecê, fenemê, fordeco. O autor do "Tratado Ontológico das Bolas do Boi", (lapandorga.com.br), quando se refere às caminhonetes, se permite brincadeiras como "mitsubicho".
Essa indexação, "GMS10", em um romance, trancou meu olho, empaquei.

Gabriel Neves Camargo

Falando na Cesma, hoje de manhã teve o lançamento, com autógrafo, da novela de Gabriel Neves Camargo, "A História do Goleiro Inviolável" (WS Editor, RS 28,00).
Para que não conhece, Gabriel morava aqui na Tuiti, entre a Valandro e a Duque, numa daquelas casinhas geminadas, e era estudante de Medicina, quando o conheci, nos idos de setenta, "tempos de poesia e militância", ele escreveu na dedicatória. Escrevia como poucos, conversava como ninguém, madrugadas a fio, e sua mãe, dona Maria Emília, fazia um cafezinho maravilhoso. Hoje Gabriel é psiquiatra poderoso em POA, e lança seu primeiro romance. Comecei a ler hoje de tarde e meu sentimento foi que Santa Maria, tão cantada em verso, pouco conhecida em prosa, ganha uma novela de respeito. A história de Félix Ubíquo Antunes Liberato começa em Santa Maria, e a prosa de Gabriel, como já se sabia pelos textos dos anos sessenta ("As Renas Inebriadas"), é muito - muito mesmo - boa.

Café da Cesma


Em algum dia de Dezembro entrará em funcionamento o Café da Cesma.
É da gente se beliscar.
Cinco mesas, para começar, cadeiras altas no balcão, cafés diversos e variados, capuccinos de todas as nacionalidades e uma concessão, long neck para os perdidos. Tudo isso, ali no segundo andar da Cesma, wireless available.
É de se beliscar.
Repara só no desenho exclusivo da xícara. Com xis. Dentro dela tinha um expresso.

JAI

Desde a posse do novo chefe do Centro de Pesquisas do INPE, Prof. Celso Aramis, até altas filosofias sobre ensino de Filosofia, de terça a quinta, o prédio 74 vai ser um dos centros da JAI. Sobre a posse do Prof. Celso, espera-se que tenha um fim o queremismo comprado pelo Diário de Santa Maria e pela Zêagá, que embarcaram no lobby em defesa das tais antenas; quem chega por último ouve pior. Quêsevaifazer? Livrou-se a Razão, que foi com menos sede ao pote do queremismo fora de época.

segunda-feira, novembro 20

Ensino de Filosofia


O presidente da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia, João Carlos Salles Pires da Silva, palestra na Jornada Acadêmica Integrada (JAI), sobre os "Rumos no ensino da filosofia no Brasil". A palestra será no próximo dia 28, na sala 2374 do prédio 74 do campus (prédio novo do CCSH), às 18 horas.
João Carlos é o atual presidente da Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia (ANPOF). Doutor em Filosofia pela UNICAMP, tem se dedicado à obra de Wittgenstein.
João Carlos Salles apresentará as novas orientações curriculares do MEC para o ensino médio, que afirmam um tratamento disciplinar e obrigatório para a filosofia. Nesse sentido, procurará mostrar traços relevantes dessa proposta, a exemplo de sua sintonia com processos de avaliação da atividade filosófica em todos os níveis de ensino, procurando também alertar contra certos riscos que cercam sua implantação.

quarta-feira, novembro 15

Filosofia na Folha, 2.

Agora transcrevo um trecho da entrevista de Roberto Machado
"FOLHA - O sr. concorda que parece haver pouca criatividade filosófica no Brasil? Qual é a explicação possível para isso?
ROBERTO MACHADO - A pergunta é boa, mas exigiria uma resposta que não sei se sou capaz de dar. De todo modo, o que posso dizer é que o trabalho para esse livro foi muito formador. Porque fui capaz de comprovar, com relação a mim mesmo, uma coisa que considero uma deficiência dos estudos filosóficos no Brasil. Caímos numa perspectiva de especialistas num período, num autor, e até mesmo especialistas num livro.
O que me chama a atenção é que em geral as pessoas restringem o seu universo ao daquele filósofo eleito como um paradigma do que seja filosofar. E não se chega nem ao estudo daqueles com os quais ele tem uma relação profunda.
Uma grande lição que comprovei com esse estudo é que não se começa do nada. Não existe tábula rasa -sempre se pensa a partir do que outros pensaram. O interessante para mim, na leitura desses documentos sobre a tragédia e o trágico, foi a demonstração de que é sempre com pequenas reapropriações, com pequenas torções que, dentro de uma região de idéias já produzidas por outros, se chega a um pensamento novo, diferencial. Um bom exemplo disso é de como Schelling retoma a teoria do sublime de Schiller -profundamente marcada por Kant- numa perspectiva metafísica.
Creio que uma das dificuldades da filosofia brasileira é que em geral abdicamos de pensar filosoficamente para fazer unicamente história da filosofia. A filosofia brasileira, mais ou menos até a década de 60, me parece ter sido marcada por um ensino doutrinário, aquele que privilegia um sistema filosófico como verdadeiro, o expõe como um conjunto de teses e situa, a partir dele, os outros sistemas como erro, desvio, ignorância.
Ora, com a importância que adquiriu a pós-graduação no Brasil, a partir do modelo da USP, para combater esse modelo, representado principalmente pelo tomismo, as pessoas se preocuparam menos em fazer filosofia do que em saber filosofia, em assimilar com rigor a filosofia dos outros. O conhecimento dos filósofos é importante, e até mesmo indispensável, mas a filosofia não pode ser reduzida a isso. O conhecimento da história da filosofia é uma condição necessária, mas não uma condição suficiente para que alguém se torne filósofo.
FOLHA - Esse modelo da USP era explícito, não é?
MACHADO - Sim. É muito fácil você encontrar um filósofo que diga: "Não sou filósofo; sou historiador da filosofia". Defende-se o rigor, mas ousa-se pouco. O que mais se precisa na filosofia brasileira é de coragem. Esse livro que escrevi é mais temático do que monográfico.

Filosofia na "Folha"

A Folha de S. Paulo trouxe ontem duas páginas da Ilustrada sobre Filosofia. A matéria tratava do lançamento do livro de Roberto Machado (UFRJ), "O Nascimento do Trágico - de Schiller a Nietzsche", pela Jorge Zahar. "En passant", a matéria trata das transformações no estilo da filosofia no Brasil. Há uma longa entrevista com o Roberto e uma matéria com Renato Janine Ribeiro, sobre vigor e rigor na "Academia".
Transcrevo uns trechos. Vou pregar o jornal no mural do Curso, na quinta-feira, para quem quiser ler tudo.

"Academia ganhou rigor, mas carece de vigor, diz filósofo.

Há falta de atrevimento e de vigor na filosofia brasileira, afirma o professor de filosofia da USP Renato Janine Ribeiro.
Como Roberto Machado, ele diz que o método de leitura rigorosa de textos filosóficos praticado na USP nos anos 50 e 60, que privilegiava trabalhos monográficos e especializados, é hoje o modelo de cursos de pós-graduação em filosofia em todo o país.
Ribeiro lembra, no entanto, que tal método, em princípio, foi positivo. "Foi uma etapa que talvez tivesse que ter sido necessária. Qual era o contraste que você tinha no Brasil? Uma idéia de filosofia que era muito eclética, muito baseada em generalidades. Então creio que era preciso ter um rigor que foi realmente necessário", declara.
"Foi uma coisa positiva, mas trouxe algumas falhas. A área acabou dando importância demasiada à questão dos autores. A discussão de idéias é muito rara na filosofia hoje."
O problema, continua, é que "o método virou princípio". De todo modo, ele afirma que já havia na prática da filosofia daquele período, quando era aluno, "um pressuposto estranho". "Havia uma convicção de que o tempo de filosofar tinha passado."
Num livro da década de 90, "Um Departamento Francês de Ultramar" (Paz e Terra), o filósofo Paulo Arantes diz que o "Método" (assim, com maiúscula) "incluía uma cláusula restritiva severa": "deixemos a filosofia para os filósofos".
A leitura rigorosa e a análise não-dogmática dos textos tornava a falta de idéias na filosofia brasileira uma questão de método, ou, melhor dizendo, quase um objetivo do método.
(...)".

segunda-feira, novembro 13

Colhedores


Fabrício capricha no teclado. Tem mais no Flickr.

Ensino de Filosofia: VII Simposio Sul Brasileiro

A VII edição do Simpósio Sul Brasileiro sobre o Ensino de Filosofia: Filosofia e Sociedade, terá lugar em Porto Alegre, na PUC-RS, nos dias 09 a 11 de maio de 2007, com prazo para subscrição de propostas de comunicações até 11 de março de 2007.
As propostas de comunicações devem ser enviadas para sergioasardi@uol.com.br

domingo, novembro 12

Cesma in Blues

Coloquei algumas fotos do Cesma in blues no Flickr (http://flickr.com/photos/ronai). Fiquei pensando se haverá melhor edição que essa. Os meninos da Filosofia, Arthur e Fabrício, tiveram posição de destaque: palco principal, terceira banda a se apresentar. Foram muito bons, muito aplaudidos, gostei demais.
Está confirmada a vinda do João Carlos Salles Pires na JAI, no dia 29, para falar sobre ensino de filosofia. Em breve dou mais detalhes, sala e hora. Será a oportunidade de se fazer um bom debate com quem está por dentro do assunto. JC foi um dos autores das "Orientações Curriculares" do MEC e é o atual presidente da Anpof.

segunda-feira, novembro 6

Livros na Cesma

Estou anotando e passando para o Télcio.
Gi: está encomendada uma seção "Wittgenstein". Vamos procurar ter tudo o que está saindo em português. Vale a dica para fazer o mesmo com Foucault.
E um Nietszche completo. Chiii, onde vai parar essa estante?
Tem boas novidades encomendadas: uma tradução do "Mind and World" do John McDowell, feita pelo João Virgilio. A mesma editora está na rua com "Idéias", de Husserl e promete os dois volumes da Filosofia da Psicologia do Wittgenstein. E uma nova tradução para o português do William James, "Variedades da Experiência Religiosa".
E vamos fazer esse cantinho de material para as aulas, também.
Aguardo outras sugestões.

Velas

Os dias do futuro encontram-se diante de nós
como uma fileira de pequenas velas acesas -
pequenas velas douradas, quentes, e vivas.

Ficam para trás os dias passados,
uma triste linha de velas apagadas;
as mais próximas exalam fumaça ainda,
velas frias, derretidas, e curvadas.

Não as quero ver; me entristece sua forma,
e me entristece lembrar de sua primeira luz.
Adiante olho minhas velas acesas.

Não quero voltar para ver e horrorizar-me
que rápido a linha sombria se alonga,
que rápido as velas apagadas se multiplicam.

K. P. Kaváfis

Os Poemas (1897-1914)
Tradução de R. M. Sulis, M. Jolkesky e A. T. Nicolacópulos.
Edições Nefelibata. Desterro, SC, 2005.

quinta-feira, novembro 2

Aula

Já que um aluno perguntou, outros podem ter a mesma dúvida: sim, amanhã, 3 de novembro, haverá aula de Prática em Filosofia. O tema será o documento do MEC, "Orientações Curriculares para o Ensino Médio", documento da Filosofia, em especial o tópico da identidade da Filosofia.

terça-feira, outubro 31

Barravento



Na descida do Elevador Lacerda, dois rapazes conversavam, afinal, qual é mais bonita, Rio ou Salvador? Um deles, pasta de vendedor na mão, Rio, Rio, Salvador é bonita aqui na parte de cima, lá embaixo é uma miséria.
Rio ou Salvador? Duas cidades belíssimas, sob muitos aspectos; as duas estão quebradas; o Rio, cada vez mais sem perspectivas, os cinturões de miséria apertando o pescoço dos branquelos. Salvador não fica muito atrás em alguns aspectos, ao menos; é uma cidade quebrada, orçamentariamente. Igual ao Rio Grande do Sul. É a cara do Brasil. Tem hotéis de primeiro mundo e muita pobreza ao lado. Tem menos violência, por certo. Para se ter uma idéia do país em que vivemos, é recomendável pegar um ônibus e dar um passeio em Salvador. É possivel tomar chope nesse bar, o Barravento, até a uma hora da manhã, e caminhar meia hora pela calcada da Avenida Oceânica, até a região dos hotéis, sem ser incomodado.

quinta-feira, outubro 26

Salvador, Bahia (2)


Uma vista de um trecho da orla de Salvador. Hoje, depois de uma semana, o sol voltou. O hotel ao fundo, Othon, lado esquerdo da foto, foi a sede do evento da Anpof.

segunda-feira, outubro 23

Salvador, Bahia

Depois de sessenta horas de estrada, chegamos em Salvador. Escrevo de madrugada, uma hora e quarenta minutos. A chegada foi com muita chuva, que acompanhou a viagem pela Bahia, grande surpresa. O sul da Bahia é exuberante, por um lado, banana, café, cacau, nelores plantados nas encostas. Na beira da estrada, um pouco antes de Monte Pascoal, encontram-se ranchos de barro na beira da estrada, iguais, exatamente iguais aos do Rio Grande, e placas com pedidos de alimentos.
Amanhã começa a Anpof.
Em alguma hora livre pretendo visitar o Pelourinho, Convento de São Francisco, Elevador Lacerda, etc E depois? Aceito sugestões, amiga Rosana.
A chuva continua. O mar, vejo da janela do hotel, anda brabo.

quinta-feira, outubro 19

Filosofia na Cesma

Télcio me pediu uma ajuda para melhorar a oferta de livros de Filosofia na Cesma. Haverá, nos próximos dias, um novo espaço, maior e mais bonito, dedicado para a Filosofia, ali nos fundos. Quem tiver sugestões, por favor, mande.

Livro do Ano, II

Se não fosse o lançamento do livro de Walter Benjamin, meu candidato para livro do ano em Filosofia seria o livro de Arthur Danto, "A transfiguração do lugar comum", que saiu nesse ano, pela Cosac & Nayf. É o primeiro livro que Danto escreveu sobre filosofia da arte, onde discute, em primeiro lugar, o status artistico dos "ready-made", como o urinol de Duchamp. Esse livro é uma das grandes referências em Filosofia da Arte hoje em dia, e a gente deve fazer um tin-tin pelo seu lançamento aqui na língua da gente.
Tem na Cesma.

Livro do Ano, em Filosofia

Saiu "Passagens", de Walter Benjamin. Um tijolaço publicado pela UFMG, quase inacreditável que tenha sido traduzido e lançado no Brasil. Para a Boca do Monte vieram sete exemplares; quatro estão à venda na Editora da UFSM, outros três vieram para a Cesma, onde peguei o meu. Custa uma pequena fortuna, nem comento. Mas vale cada centavo. Comecei ontem mesmo a ler o monstro. É uma usina de idéias.

Aulas

O segundo semestre letivo de 2006, no tardio outubro, começa. Volta o blogue.

quinta-feira, outubro 5

Férias

Aos amigos navegantes: peço desculpas por avisar tão tardiamente. Estou tirando meus primeiros dias de férias em 2006, e isso inclui o blogue. Em todo o caso, não abandonei o tal do fliquer. Vocês me encontram em "Minhas Fotos", linque ao lado, ou em www.flickr.com/photos/ronai
Aos amigos a quem prometi uma ida ao Rincão, mais uma esfarrapada desculpa: fui fazer a última revisão das condições de acesso; agora até um galaxi sem amortecedor chega mais ou menos perto. Em breve cumpro as promessas, prometo, Valter, Mestre, demais.

terça-feira, setembro 26

Uma linha?

Sigo adiante, pelo amor à conversa, com a postagem de pé-de-post de "Dom Sullivan".
"Apenas uma linha de um livro escolar no futuro, dando conta de como um projeto tacanho de poder e um anão mental seduziram uma maioria semi-letrada e ignorante de eleitores brasileiros."
Não discordo que o projeto de poder dos que foram aparentemente defenestrados, seja tacanho, dentro de certos critérios:
do Dilúvio ao Genuíno, há uma semelhante extração político-social, com variantes: partidão, arrivismo político, carteiras de trabalho cheias de cecês, etc. Por outro lado, as iniciais do "anão mental" ornamentavam, nos idos de oitenta, quatro entre dez automóveis no campus da Ufesm e em outros campus quetais do Zilbra. Assim, acho que será preciso mais que uma linha para explicar como ocorreu esta sedução. Tá bom, indo adiante com a ironia - esse tema das condições de possibilidade da sedução política dá muita manga pro meu pouco pano, mas se a gente quer entender o que está ocorrendo - a possibilidade de não haver um segundo turno, por exemplo -, e estamos usando categorias aparentemente racionais para entender o causo, acho que não é legal apelar para a idéia de semi-letramento e ignorância.
Ignoram umas coisas, levam em conta outras.
Meu voto no domingo será para que exista um segundo turno.
O que estamos vendo com os olhos que a terra há de comer um dia vai nos dar muito mais trabalho para entender se a gente tiver um olhar condescendente para aqueles a que chamamos de "maioria". Eu acho.
Quero voltar depois a esse ponto importante do "projeto de poder".
Hoje me lembrei, com alguma nostalgia, de alguns antigos alunos, A.A., com quem tive boas conversas, muitos anos atrás, sobre tais projetos.

quinta-feira, setembro 21

Dom Sullivan

Renovo a recomendação aos leitores: o blog de Dom Raul Sullivan, linque ao lado, é um poderoso instrumento para entrar no mundo dos livros virtuais. Vale uma visita!

O anel de Giges: o poder (2)

Giges retira o anel do cadáver e volta para cima. Segue o Platão:
"Na reunião habitual dos pastores, para apresentarem ao rei o relatório mensal do estado do rebanho, compareceu também Giges com o anel no dedo. Como estivesse sentado no meio dos outros, aconteceu virar casualmente a pedra do anel para a palma da mão, com o que imediatamente se tornou invisível para os circunstantes, que passaram a referir-se a ele como se já não se encontrasse ali presente. Cheio de admiração, tornou a mexer no anel e virou o engaste para o lado de fora, depois do que voltou a ficar visível. Tendo percebido o que se dera, fez várias experiências para ver se, de fato, era o anel o dotado de tão extraordinária virtude, e sempre com o mesmo resultado: tornava-se invisível quando a pedra era virada para dentro, voltando a aparecer quando a dirigia para fora."
Uma das questões que surge agora é sobre o que fará Giges com esse tremendo poder?
As duas passagens estão no Livro II da República, a partir de 359d.

Giges (1)

Faz alguns dias que prometi contar a história do anel de Giges. Deixo para o autor dela a tarefa. Transcrevo, pois, o texto de Platão, no livro "A República".
A edição que uso é a publicada pela Editora da Universidade do Pará, uma preciosidade. Está na terceira edição, revisada, e foi traduzida diretamente do grego por Carlos Alberto Nunes, publicada em 2000).
"Giges era um pastor a serviço do rei da Lídia. Por ocasião de um grande temporal acompanhado de tremor de terra, o solo se abriu, formando-se uma fenda no lugar em que ele levara a pastar o seu rebanho. Ao ver isso, tomado de admiração, penetrou na abertura, tendo percebido, segundo contam, entre outras maravilhas, um cavalo de bronze, oco e provido de pequenas janelas, através das quais, enfiando a cabeça, notou um cadáver que se afigurou de proporções mais do que humanas; inteiramente despido, deixava apenas ver um anel de ouro numa das mãos. Retirando-o, voltou Giges com o anel no dedo."
Acho que valeria a pena a gente se perguntar, antes de ir adiante, pelas razões de Platão em montar todo esse cenário: temporal, tremor de terra, uma fenda na terra; depois, entrar no buraco, encontrar um cavalo, de bronze, dentro dele um cadáver muito humano, nu, com um anel de ouro na mão.

quinta-feira, setembro 14

Os mandamentos do motorista


Vai chegando o tempo de retomar conversas sobre passeios e cascatas.
Procurando por uma cascata na Linha 6, perto Silveira Martins, no verão de 2004, conheci algumas pessoas, ali moradoras, que me levaram até a dita cuja. Belíssima. Exige uma caminhada apenas razoável, e é uma das mais altas de toda a Quarta Colônia. Pouca gente vai até lá. De volta, nas proximidades de São Valentin, paramos para tomar uma gelada. Ali eles me brindaram com uma cantoria, que é uma das coisas que os oriundi mais gostam. É só clicar que os gringos começam a contar quais são os mandamentos do bom motorista.
O de chapéu é o Valdir Maraschin; o outro é o Hermes. Moram ali na região de PoIêsine para Ivorá, costeando o rio. Quem quiser saber o décimo mandamento vai ter que pagar uma visita ao Valdir. Ele faz salames saborosos, e mora numa das casas mais antigas de toda a região.

quarta-feira, setembro 13

A morte, fora de moda?

Na terceira parte da palestra Dupuy apresentou um pequeno bando que defende a obsolescência da condição humana. Assim, não haveria apenas uma crise na nossa idéia de natureza, mas até mesmo a noção de morte natural não estaria menos amecada de obsolescência. Um dos caras citados por Dupuy é Nick Bostrom, sueco, professor em Oxford, líder do tal "trans-humanismo. Esse "trans-humanismo" sugere que devemos nos encarar como uma etapa, uma transição para uma época de pós-humanidade, uma próxima etapa da evolução biológica, caracterizada pela convergência entre nanotecnologia, biotecnologia e ciências cognitivas, uma "ciber-pos-humanity", que, por meio das novas tecnologias, asseguraria a condição de imortalidade para quem pudesse pagar, mediante a criação de interfaces que transfeririam o conteúdo informacional do cérbero para memórias artificiais e poraíafora. Essas e outras idéias sobre a morte ficar fora de moda são também expostas no livro de Ray Kurzweil, "Fantastic Voyage. Live long enough to live forever, 2004." (Parenteses meu, RR: Esse Kurzweil não é cachorro rengo, é um dos papas da inteligência artificial nos EUA; Searle fez uma crítica feroz a um livro dele, "The Age of Spiritual Machines: When Computers Exceed Human Intelligence", de 1999, se estou certo.) Uma das idéias do Ray é manter-se vivo, até chegar ao momento em que as técnicas de interface entre o ser vivo e a maquina extendam nossas capacidades físicas e mentais, para se viver imortalmente. A morte, pensa ele, deve ser pensada como se pensa a doença, como um problema a ser resolvido.
Nesse ponto da palestra a platéia deu umas risadinhas. Dupuy, sem discordar das risadinhas, lembrou que os tais de trans-humanistas ocupam posições de poder nos EUA, com alguns deles (William Beveridge) dirigindo generosas fatias de orçamento federal em biotecnologia.

Morte natural

Sei não, mas tenho uma vaga lembrança de um texto de Sartre no qual ele explorava a idéia de que a morte em acidente de automóvel não mais deveria ser chamada de "morte por acidente". É morte natural.

Jean-Jacques e Voltaire: que conversa essa de "catastrophe naturel"?

O terremoto de Lisboa ocorreu no dia 1 de novembro de 1755. No ano passado foi feito um evento em Lisboa, para "comemorar" os 250 anos do mesmo. Segundo Dupuy, pode-se dizer que o terremoto criou um tsunami na filosofia ocidental, dividindo-a em três campos, Leibniz (mais Wolf e Pope), Voltaire, como crítico desses (no Candide e no Poème sur le désastre de Lisbonne) e Rousseau, como crítico de Voltaire, em um texto de 1756, "Lette a Mr. De Voltaire", onde se pode ler:
"Je ne vois pas qu’on puisse chercher la source du mal moral ailleurs que dans l’homme libre, perfectionné, partant corrompu; et, quant aux maux physiques, ils sont inévitables dans tout système dont l’homme fait partie ; la plupart de nos maux physiques sont encore notre ouvrage. Sans quitter votre sujet de Lisbonne, convenez, par exemple, que la nature n’avait point rassemblé là vingt mille maisons de six à sept étages, et que si les habitants de cette grande ville eussent été dispersés plus également, et plus légèrement logés, le dégât eût été beaucoup moindre, et peut-être nul. Combien de malheureux ont péri dans ce désastre, pour vouloir prendre l’un ses habits, l’autre ses papiers, l’autre son argent ?"
Resumindo, e não traduzindo fielmente: o mal moral vem da gente mesmo, e os males físicos também. No trecho que importa nesse caso: a maior parte de nossos males fisicos é ainda obra nossa. (...) A natureza nunca teria reunido vinte mil casas, de seis a sete andares, e se os habitantes dessa grande cidade tivessem sido dispersados de forma menos concentrada, mais afastadas umas das outras, ..., etc, o desastre teria sido menor, talvez nulo. E quantos infelizes morreram porque quiseram apanhar seu cartão de crédito, seu notebook, etc.
Rousseau seria responsável pela eliminação da idéia tradicional de natureza como uma completa exterioridade? A natureza boa não é um edén para o qual gostaríamos de regressar, mas sim uma tarefa a realizar, voltada pra o futuro; a natureza roussenaina é fundamentalmente artificial, uma "man made nature".
Para o autor do Emile, o homem é o autor de todos os males; "homem, não busque o autor do mal, este autor é tu mesmo", ele escreve no Emílio.

terça-feira, setembro 12

Existem catástrofes naturais? Segue a saga de Dupuy

O Katrina foi uma catástrofe natural? Muita gente fez comparações entre o número de mortes do 11 de setembro e as mortes provocadas pelo Katrina. Qual é o sentido de comparar uma catástrofe natural com um atentado terrorista (o Dupuy chamou de "ato de guerra". Se o SNI deles descobre, o francês perde o green card...)? Mas peraídenovo: o Katrina é uma catástrofe natural?
Pois é. O editorial do NYT de 2 de setembro já chamava o Katrina de "catástrofe causada pelo homem”, "the man made disaster”. Foi preciso um Katrina para mostrar ao mundo que também nos EUA existe desigualdade, iniqüidade, etc. O atentado terrorista uniu o país, depois veio o Katrina para dividir. Na primavera de 2003 ninguém nos EUA ousava duvidar em público da justeza da guerra contra o Iraque, "suport the troops" era a palavra de ordem. O Katrina fez voar em pedaços a unanimidade, os opositores da guerra passaram a dizer que os dinheiros da guerra deviam ser usados para ajudar os varridos pelo Katrina. E fez ressurgir a pergunta: o que é uma catástrofe natural? Afinal, uma catástrofe é definida como a combinação do acaso (um fenômeno geológico) com uma situação de vulnerabilidade. No causo em pauta, uma vulnerabilidade de origem social.
É aqui que entra o Jean-Jacques. O Rousseau. O cara que entrou na discussão do terremoto de Lisboa, enfrentando o Monsieur Voltaire, que havia enfrentado o Dr. Leibniz.

Um tsunami na Filosofia


O tsunami na Filosofia foi o terremoto de Lisboa.
O terremoto aconteceu no dia primeiro de novembro de 1755, na metade da manhã. Morreram entre sessenta e cem mil pessoas, entre o próprio e os tsunami e os incêndios que se seguiram. Lisboa sumiu do mapa, e depois desse dia o Portugal colonizador nunca mais foi o mesmo.
Leibniz, Voltaire e Rousseau transformaram o terremoto em tópico da Filosofia. Que eu sabia, ninguém escreveu uma tese ou livro sobre isso, prato pronto e cheio. Pois o seu Dupuy resolveu escrever uma "petit metaphysique du tsunami", a pretexto do ultimo ocorrido, mas voltando à tragédia de Lisboa.
Corte.
Um quadro de Nicholas Gay, pintor russo, que nos mostra Pilatos e Jesus. Pilatos pergunta a Jesus, afinal, o que é a verdade?
A luz ilumina Pilatos, Jesus está na sombra.

Diante da catástrofe (1)

A primeira parte da palestra de Jean-Pierre Dupuy (eram cinco partes) começou com uma pequena coleção de lugares-comuns do catastrofismo ecológico. Apresentou o retrato inevitável de uma civilização diante da catástrofe, pois a universalização do modo dominante de desenvolvimento enfrenta obstaculos insuperáveis, pelo consumo de recursos naturais. Vivemos um modo de vida condenado, diz ele, que poderá durar, nesse padrão, 50 anos.
As razões do diagnóstico são três:
a) as fontes fósseis disponíveis a custos baixos estão no limite. Por outro lado, as necessidades energéticas crescem muito, Índia, China, e Brasil estão no mesmo caminho da voracidade dos ricos.
2. As regiões onde os recursos energéticos estão concentrados são as regiões mais quentes, geopoliticamente falando: oriente, arábia, etc.
3. A mais grave causa, o aquecimento climático deve-se à atividade dos homens. Faz 30 anos que as geleiras andinas aumentam brutalmente o ritmo de desaparecimento; o mediterrâneo se desertifica, a água é um bem raro.
Os expertos, no entanto, nos convidam a ter paciência, há um otimismo científico sendo vendido, que assegura que novas tecnologias limpas e novas fontes de energia ainda mais limpas estão no horizonte. Confiar nisso? Nada é menos seguro, pensa ele, apesar das promessas de uma nova revolução científica e técnica, da nanotecnologia, da estocagem de energia solar; isso traz riscos extraordinários, quem garante? A humanidade está contra a parede. O centro desenvolvido deve dizer o que conta mais: uma ética de igualdade ou seu modo de desenvolvimento sobre todas as coisas? Segundo Dupuy, "a catástrofe a evitar tende a substituir a revolução a realizar." O problema político maior, nessa escala de 50 anos, passa a ser a sobrevivência da humanidade, e mais uma vez a esperança se volta para a técnica. Aqui ele faz um excurso filosófico, "a liberdade consiste em dar-se regras, e não em poder fazer qualquer coisa", "precisa-se de uma política de limites, pois a técnica moderna repousa sobre um princípio de ausencia de limites."
A seguir, um tsunami na filosofia.

Mac Dupuy

Jean-Pierre Dupuy não dispensou a boa tecnologia na palestra de ontem; na frente dele, com o texto da palestra, não estavam apenas as folhas de papel, mas também um poderoso notebook da Apple, modelo profissional, tela de 17 polegadas. Foi dali que ele comandou as transparências, fotos, reproduções e inclusive um terrível filme no final, sobre Chernobyl. O primeiro filmete que ele apresentou, no entanto, foi ... curioso, ao menos. Para descontrair, acho eu, disse que queria mostrar de que forma as francesas ganham os concursos de beleza, hoje em dia. Taí o endereço para quem quiser ver. Não é dificil adivinhar, se eu disser que as duas primeiras misses que se apresentam são França e Itália.
Dupuy é professor em Stanford e na Politécnica de Paris.

http://www.metacafe.com/watch/193041/miss_france

segunda-feira, setembro 11

Jean-Pierre Dupuy


Jean-Pierre Dupuy fala hoje na sala 2323 do CCSH-Campus, às 18.45 h, sobre "A tentação de apagar a política com a técnica". O tema, ao que parece, retoma a tradição dos debates dos anos sessenta, desde Marcuse (o poder liberalizador da tecnologia que se converte aos poucos em poder instrumentalizador dos homens) e Habermas (e seu livro "A técnica e a ciência como 'ideologia'").

Xipe Totec

No Museu Chileno de Arte Precolombiana (paga-se $2.000,00 pesos na entrada, fica perto do Paseo Ahumada, bem no centrão de Santiago) ficamos sabendo do culto a Xipe Totec. Trata-se de uma tradição andina, presente em um grupo chamado "manta", que vincula o ato de sentar-se com um gesto de autoridade. Estão expostos ali objetos como cadeiras, "Asiento e sentados Manta".
Esta postagem foi motivada por uma conversa com um leitor deste blogue. O tema era se é certo que orientadores esperem por orientados.

terça-feira, setembro 5

Servidão Voluntária

O "Discurso da Servidão Voluntária" é um dos textos mais enigmáticos da Filosofia Política. Foi escrito por um rapaz de 19 anos, chamado Etienne de La Boétie, que entregou os manuscritos para um tal de ... Monsieur Montaigne! Desse original foram feitas algumas cópias, entregues a amigos de Montaigne, e assim surgiram algumas edições, por volta de 1577 e 1578. O monstro conceitual, imaginem uma servidão ... voluntária!
O Miguel Abensour atacou de francês (boa tradução simultânea), mas baixou a cabeça e deitou a ler um manuscrito de umas trinta páginas, sem parar para respirar. No intermezzo atacou com a (possível) interpretação de Hegel para esse enigma da Filosofia Política.
Foi um tijolaço no início da noite.
No final da tarde, fiquei sabendo que o diretório acadêmico da Filosofia da UFSM, no novel prédio 74, fechou as portas.
Fechou as portas.
Não apareceu uma unica chapa para assumir o mandato. Em protesto, os atuais entregaram as chaves. Fizeram bem, eu acho.
Quem é que pensou que o tema do ciclo, "Esquecimento da Política", tem a ver com os corredores do Planalto Central?
Tá ali, no corredor do prédio 74, no micro-espaço do Curso de Filosofia, a prova do que disse o Francis Wolff ontem.
Que foi ouvida apenas por um aluno do curso, morador da casa que foi conferir o ciclo ontem.
Esqueceram o diretório, esqueceram as palestras.
Quem diria. O tempora!
Por hoje, como diria o gaucho, "tô tapado de nojo". Amanhã conto sobre o Giges.

segunda-feira, setembro 4

Francis Wolff

No ciclo sobre "Esquecimento da Política", hoje foi a noite de Francis Wolff, brasileiro emigrado para a França que ocupa hoje o cargo de Chefe do Departamento de Filosofia da Sorbonne ou algo assim. Faltou cair neve no campus. Frio do cão, e quatro gatos gelados na 2323. Foi boa a palestra. Morri de nostalgia vendo ele lembrar os anos sessenta, quando era de corretíssimo tom se dizer que "tudo é política". Quem tem coração sofreu por causa dessa frase. Jogue a primeira pedra quem nunca se apaixonou por alguém de outra cor política e ficou de coração na mão ao ver que a amada rezava por outra cartilha. O Francis deu um show de nostalgia, lembrando até os atletas americanos de 100 metros rasos das Olimpiadas de 1968, no México, vencedores, subindo no pódio e baixando as cabeças, levantando os punhos cerrados, luvas pretas, protesto silencioso no meio do esporte, dá-lhe 'tudo é política'. Começou por aí e terminou, no gelar das 20.30h, com uma tentativa de síntese da antítese em que vivemos, na qual, em meio ao território do eu, da hegemonia da economia, da ultima palavra dos técnicos, do refúgio na religião, e da onda moralizadora, a palavra de ordem vai sendo transformada em ... "nada é política"! Hoje, diz o Wolff, queremos descobrir uma briga entre moral e política. Será que essa briga é de verdade? São duas áreas compatíveis, por certo, mas independentes. O argumento dele inclui lembrar que a moral não diz a ninguém o que deve ser feito em cada ocasião particular, mas ism o que não devemos fazer em geral e em princípio. A política, ao contrário, é, em um de seus mundos, a região do que devemos fazer sem adiamentos. O "tudo é moral" termina por ser uma ideologia que hoje substitui o "tudo é política"; o esportista é condenado pelo doping, o fumante é exortado moralmente a vencer o vício, etc.
Amanhã lembro mais. Ele terminou sugerindo alguns "exercícios práticos" contra o esquecimento da política; um deles me lembrou a estratégia de Mestre Guina, livro embaixo do braço, brandindo declarações de renda de políticos, no mais lídimo exercício do oficio de cidadão; informar-se, por exemplo, é cidadania.
Ele terminou citando o causo do anel de Giges.
Eta causo bom.
Amanhã eu conto, para quem não conhece o causo do anel do Giges.
Buenas.

quarta-feira, agosto 30

Os intelectuais

Em 1981 comprei o recém-lançado livro de Susan Sontag, "Ensaios sobre a fotografia", que dei por perdido semanas atrás. Na verdade eu o havia emprestado, e no final de semana ele reapareceu, obrigado, Laura. Abri o livro e encontrei dentro dele um recorte de jornal, da Folha de S. Paulo, sem data anotada. Era uma crônica de Paulo Francis, no tempo em que ele assinava "de Nova York". O título é "Suzy descobre o comunismo", e trata, por certo, de Susan Sontag. Eis como começa:
"Talvez intelectuais não devessem se meter em política. São muito voláteis e é uma ilusão que cultura e inteligência qualificam alguém para dar opinião política, assunto requer experiência, safadeza e pés na terra."
Claro que Francis considera a Suzy um exemplo disso, de alguém que escreveu bons ensaios literários, mas depois, na onda de escrever sobre o Vietnã, foi se meter com marxismo e política e disse bobagens, na opinião do Francis.
Dom Bressan lembra os intelectuais que parecem esquecer.
Talvez os intelectuais não devessem se meter em política, diz o Francis. Essa, a da conjuntura, por certo. Para que me entendam, prá que deitar conversas sobre ética e política, como o tal Paulo Betti? Pois o cuera não entende de nenhuma delas e se mete. A que ponto chegamos.
Me atraquei a ler o Max Weber hoje de tarde, sobre ética e política, prá compensar.
Tudo por causa do cutuco de Dom Bressan.
E agora vou me atracar no Dom Segundo Sombra. Esse sim.

terça-feira, agosto 29

Bouvard e Pecuchet

O romance "Bouvard e Pécuchet", de Gustave Flaubert, publicado pela Nova Fronteira, em 1981 (tradução de Galeão Coutinho e Augusto Meyer) é uma obra póstuma e inacabada, e se faz acompanhar de um "Dicionário das Idéias Feitas" que é uma graça. Trata-se disso mesmo, um pequeno dicionário de idéias feitas; há ainda um "Catálogo das idéias convencionais", no qual Flaubert anotava as parvoíces encontradas nos grandes mestres. Fenelon teria escrito que "a água foi feita para sustentar esses prodigiosos edificios humanos chamados navios", por exemplo. O papa Pio IX teria escrito, em 1874, que "o ensino da filosofia faz a juventude beber o fel do dragão pela taça da Babilônia". Um tal de Benjamin Gastineau teria escrito que "na cozinha de minha alma, tudo é a fogo lento e abafado."
Bouvard e Pecuchet é a história de dois imbecis.
Tem um Flaubert nesse nosso país?
Fui procurar o verbete "Eleições" no tal dicionário das idéias feitas. Tem. Eis o que diz:
Eleições - ...

Politicos do Brasil

Postei nos linques do blogue o endereço do Fernando Rodrigues, com os dados dos políticos brasileiros. Dom Bressan, no meio da tarde, cutuca sobre o "esquecimento" dos intelectuais, em relação aos desvios e mazelas éticas do PT.
Na palestra de ontem o Renato Lessa bem que teve vontade de tocar no tema, mas fez apenas uma alusão às "escatologias" de uma certa reunião do Presidente com intelectuais. Todos os palestrantes até o momento estão se atendo às regras da palestra acadêmica, sem observações sobre a conjuntura. Sei não, o tema é duro. Viram a pesquisa Sensus CNT de hoje? Vai a 51% por cento o Presidente.

domingo, agosto 27

O esquecimento

Hoje tem Renato Lessa, falando sobre "O esquecimento desde a tradição". Ele é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense (1976) , mestrado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (1978) , doutorado em Ciência Política (Ciência Política e Sociologia) pela Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ (1992) , pos-doutorado pela The American University (1994) , pos-doutorado pela Universidade de Lisboa (2004) e pos-doutorado pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales (2005) . Atualmente é PROFESSOR TITULAR da Universidade Federal Fluminense, professor titular da Sociedade Brasileira de Instrução - SBI/IUPERJ. Apesar de todos esses títulos, eu mesmo nunca ouvi uma palestra do homem.
A partir das 18.45 da segunda-feira, dia 28, ele vai estar, de forma virtual, na sala 2323 do CCSH/Campus, no ciclo sobre Esquecimento da Política"

A miséria da política

Na manhã de sábado encontro Mestre Guina na Cesma; eu, já saindo, com uma Carmem Miranda na sacola, ele entrando com uma vasta lista de encomendas, cuidadosamente anotada durante a semana; conversa vai e vem, Mestre Guina conta da novidade: uma página disponibilizada pelo UOL sobre os políticos do Brasil, com dados pesquisados durante cinco anos pelo jornalista Fernando Rodrigues sobre deputados, senadores, governadores, etc, nas eleições de 98 e 2002. Pois o tal assunto foi um dos grandes destaques do final de semana.
Os dados pesquisados pelo Fernando Rodrigues resultaram em um livro de quase quinhentas páginas publicado pela Publifolha, com o título de "Políticos do Brasil".
Os dados obtidos pelo Fernando Rodrigues podem ser lidos a partir do endereço
www.politicosdobrasil.com.br
Fui conferir os dados do estadual Farret, em 2002: estão lá três automóveis usados, uma casa, um apartamento, uns terrenos, coisa pouca. O federal Pimenta tinha uma Hilux usadona, baratinha.
Esse Fernando Rodrigues merece uma estáuta!
Ou duas.
Uma pelo livro, que nos faz pensar no milagre ocorrido com gente que cresceu 40, 50 por cento em quatro anos, em verdadeiros milagres de multiplicação dos caraminguás que recebem.
Cito uma frase do Gaspari sobre o livro:
"... os petistas foram os que tiveram maior desenvolvimento patrimonial (84% na média)".
A outra estátua, fico pensando, por nos fazer pensar no que, afinal de contas, vem a ser um político. Alguém pode escolher para si mesmo a política como uma carreira? A política pode ser uma profissão como as demais? Ou é uma vocação a ser exercida em algum momento da vida da gente. Fiquei pensando que nossa cidade, da Boca de Monte, um dia foi considerada como um dos grandes centros de formação política do país. O movimento estudantil aqui feito nos anos oitenta era uma escola de formação, considerada uma fortaleza, uma montanha. Pariu o quê?
E depois? Existe vazio no poder?

quarta-feira, agosto 23

Chico de Oliveira e a irrelevancia da politica

Depois que Foucault tornou popular a idéia de "desinventar" o humano, veio o Chico para, num tom parecido, falar sobre a "colonização" da política pela economia, e, como consequência, o fim da sociedade. A política era pensada como uma invenção humana para arbitrar os conflitos, para lidar com as assimetrias sociais de de poder. Essas capacidades da política estariam estrebuchando nas mãos da economia.
Veja como a Folha de São Paulo de hoje resume o enredo da palestra do Chico:
"Ao contrário do que quer a vulgata marxista, disse Oliveira, é na política, e não na fábrica ou no ambiente imediato de trabalho, que se dá o conflito de classes e a possibilidade de restringir o processo natural de acumulação do mercado.
Ocorre que, com o crescimento das empresas em poder e para além dos Estados nacionais, essa arena local, em cada país, de conflitos, se tornou enfraquecida bem como os sindicatos, que não conseguem mais fazer frente às transnacionais.
"Estamos nos encaminhando para uma sociedade sem controles; salvo o único que escapa de tudo, que é o mercado", afirmou o sociólogo.
Os partidos não representam mais classes sociais, o conflito e a possibilidade de propostas alternativas não se dão, e a política gira em falso.
"Na ausência de política, o que acontece? O que estamos vendo. Uma sociedade de mônadas. Não existe mais sociedade, mas indivíduos. Nem indivíduos, mas "mônadas" sem capacidade de intervenção."
O maior exemplo recente desse esvaziamento, afirmou o sociólogo, foi o fato, celebrado por muitos, de a crise política que já dura mais de um ano não ter afetado a economia. "Se uma crise política não pode afetar a economia, para que serve a política?", perguntou." A matéria é assinada por Rafael Cariello, enviado especial da Folha ao Rio, para acompanhar o ciclo "O Esquecimento da Política".

Marilena, hoje, foi clássica e durona. Seu tema era "O que é política?". Ela abriu a palestra falando do sentido da política e da democracia na Grécia; depois, fez uma exposição sobre Foucault e o biopoder, com uma crítica relativamente tradicional ("abstrato, já que não explicita as condições materiais da produção dos corpos dóceis"; foi comparado com Lefort, em especial, sobre o mesmo tema; finalmente, Spinoza, uma aula. Para encerrar, o clássico tema do sentido da eleição e dos partidos na democracia.
O público, talvez intimidado, não queria fazer perguntas. Saiu uma só, sobre as paixões básicas em Spinoza (alegria, tristeza, desejo).
Aqui na Boca do Monte, vinte e uma pessoas na platéia.
A hora e o local não ajudam muito, reconheço.

segunda-feira, agosto 21

Ética

O primeiro dia do ciclo de conferências "O Esquecimento da Política" foi de testes. De fato, bem esquecida, apenas quatro pessoas estiveram por lá para ver o Chico de Oliveira. Até que foi bastante, para o frio e pouca divulgação que teve. O sistema funcionou razoavelmente. Em duas horas de palestra ocorreram umas oito ou dez trancadas no buffer, exigindo a recarga da página. Chato. Mas deu para assistir o Chico, reclamando da colonização da política pela economia.
A segunda palestra, na terça-feira, será com Franklin Leopoldo e Silva, professor de filosofia na USP, sobre moralidade e política, sobre a "banalidade da moral". Saiu uma bruta matéria com ele na Folha de hoje. O horário é o mesmo, 18.45 h, na Sala 2323 no prédio 74 do CCSH, no Campus da UFSM.
Na quarta, na mesma hora, tem Marilena Chauí.
Para maiores informações sobre o ciclo, clique ao lado, no linque "Cultura e Pensamento".

domingo, agosto 20

O esquecimento da política

Com a palestra de Francisco de Oliveira, "A colonização da Política", na segunda-feira, dia 21 de agosto (amanhã!), deve iniciar o ciclo de conferências intitulado "O Esquecimento da Política", às 18.45, no Rio de Janeiro.
Em Santa Maria a palestra poderá ser assistida no mesmo momento. O local da transmissão simultânea ainda não foi estabelecido. Poderá ser no auditório do CPD, ao lado da Reitoria ou na sala 2323 do Prédio 74, do CCSH. Essa indecisão e a falta de divulgação do evento deve-se a que os organizadores, em Brasília, apenas no final da tarde de sexta-feira comunicaram a UFSM da possibilidade de receber-se o sinal aqui.
O local definitivo e demais informações poderão ser obtidas junto ao Departamento de Filosofia, que será responsável pelo Ciclo de Conferências aqui na UFSM. Por essa razão, muito embora as primeiras palestras possam ocorrer junto ao CPD, a política da instituição será a de sediar no prédio do CCSH as futuras transmissões, para facilitar a vida dos estudantes de Filosofia, Ciências Sociais, História e Arquivologia, moradores da casa e interessados naturais.
O Departamento estuda a possibilidade de aproveitamento das conferências como material para Atividades Complementares de Graduação (ACG's).
Para maiores informações sobre o ciclo, clique no link no lado direito do blogue, "Cultura e Pensamento".

Na quarta-feira, dia 23, às 18.45, haverá a palestra de Marilena Chauí.

Abaixo vai o resumo da palestra de Chico de Oliveira:
"No capitalismo contemporâneo, a política é desvalorizada, um fenômeno de alta relevância, pois era dela que o Ocidente vinha se valendo desde sempre para contrabalançar a assimetria de poderes. Tal desvalorização, em escala mundial, tem na periferia capitalista efeitos devastadores; daí que, ao invés de se concordar com a irrelevância da política, deve-se mais do que nunca ressaltar sua importância, a importância de reinventá-la."

quinta-feira, agosto 17

Merengue de gelo

O Passo da Água Negra leva o vivente a 4.600m. Fica perto de Santa Maria da Boca do Monte, ali para as bandas de San Juan. Um Uno Mille pode chegar ali com apenas três velas funcionando. Encontrei ciclistas suiços de 40 anos subindo em magrelas carregadas, dormindo junto aos pequenos rios que descem da cordilheira. Vai lá, Valter! É inesquecível.

domingo, agosto 13

Dia dos Pais

Lembrando meu pai, que foi o maior dançarino que conheci, capaz de animar um baile inteiro, que não deixava uma moça voltar para casa sem uma contramarca, ouvi hoje várias versões de uma música que tocava sem parar no Brasil dos anos cincoenta, tanto na versão original francesa quanto nas versões americanas e brasileiras. Trata-se de Cerisier rose et pommier blanc, de Andre Claveau. A versão americana, de Eddie Calvert, (Cherry Pink and Apple Blossom White) me arrepia ainda hoje, porque devo ter ouvido no berço, de algum rádio a pilha. Ela toca na cena do baile em Oxford, no filme Iris. A versão brasileira atendia pelo prosaico nome de "A cerejeira em flor", creio eu.
Meu pai muito dançou essa e muitas outras músicas com minha mãe e outras moças aqui pelos bailes da campanha.
Essa é uma das tantas coisas boas que lembro dele.
Um abraço aos pais. Shall we dance?

Candombe


Em 1972 fiz uma viagem a Rivera, minha primeira ao mundo exterior. Perto da esquina da Sarandi com Seballos havia uma loja de discos e livros - Pepo -, na qual comprei, depois de muito garimpar, um disco de música uruguaia, "Musicacion 4 1/2", (Discos de la Planta). Trazia alguns dos melhores intérpretes do Uruguai: Ruben Rada, Diane Denoir, El Kinto, Mateo, Horacio e outros. Foi ali que eu descobri o candombe, um ritmo de origem africana cultivado pelos hermanos. O disco é coisa muito fina, tem uma belíssima interpretação de "Mejor me voy" (não confundir com a valsa mexicana de mesmo nome...) na voz de Diane Denoir. Descobri faz pouco que isso existe em cd, disponivel apenas em Montevideo. Lembro disso porque estive em Rivera no final de semana e encontrei um tipo, o cantor da foto, cantando candombe, perto da esquina da Sarandi com Paysandu. Para fazer seu candombe, no entanto, Yamandu Paz precisa agradar os turistas com os grandes sucessos da gauchada: Guri, Los Hermanos, Rio Manso, Orelhano, Merceditas. Até de Condorpasa ele ataca. Fazer o quê, nesses tempos de freerivera? Trouxe o cedê do índio, que faz ponto ali em frente a Los Baguales e toca o que o freguês pedir, no gênero, se ele souber, com toda a alegria.
Alguém sabe quem converte um elepê num cedê? Acho que vou fazer isso com meu disco de 1972 e repartir com os amigos. Antes de morrer todo mundo devia poder ouvir Diane Denoir cantando "Mejor me voy" acompanhada pela guitarra de Mateo.

quinta-feira, agosto 10

Enade 2005

Saiu o resultado do Enade: o Curso de Filosofia da UFSm teve nota máxima. A informação está na página da ufesm. Entre mais de cem cursos avaliados, ao redor de 10 (preciso conferir) tiveram a nota máxima. Ficamos ao lado da UFRGS, da Federal do Rio e de algumas outras deste tipo. Dá para melhorar neste ano. Confira na página: http://enade2005.inep.gov.br/?c=CUniversidade&m=mostrar_lista_area. Obrigado ao Frank pela indicação do fato.

quarta-feira, agosto 9

Ensino de Filosofia

O parecer aprovado pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação no último dia 7 de julho, que inclui as disciplinas de Filosofia e Sociologia no currículo das escolas do ensino médio será homologado no próximo dia 11 de agosto, pelo Ministro da Educação. A solenidade está marcada para as 10 horas, no auditório do MEC, em Brasília.
No endereço abaixo está o ultimo documento do MEC com diretrizes para o ensino de Filosofia.
http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/book_volume_03_internet.pdf

segunda-feira, agosto 7

Colóquio de Ética sobre "A Pessoa"

Começa hoje às 18.00 horas o Colóquio de Ética e Ética aplicada sobre "A Pessoa". As 18.15 tem a conferência do Prof. Nythamar de Oliveira (PUC-RS). Depois, um painel com Hans Christian Klotz e Marcelo Fabri. Amanhã haverá um painel, às 18.30, com a Prof. Maria Luiza Kahl, Prof. Pedro Santos, Profa. Nara Magalhães e Prof. Ronai Rocha. Na quarta, na mesma hora, um painel com o Prof. Albertinho Gallina, Prof. Jair Krassuski, Prof. Noeli Dutra e Prof. Ricardo Rossato. O Simpósio tem 80 vagas, custa 10,00 a inscrição e vale como ACG.

quarta-feira, agosto 2

Etiqueta do Campus

Proponho a redação coletiva de um manual de etiqueta acadêmica. Ontem, segundo uma descrição que um aluno me fez, em um evento do Curso de História, cujos palestrantes foram convidados pela casa, aconteceu uma dessas coisas que nos fazem pensar em um manual desse tipo. No início da palestra do dito, convidado, gente de fora, etc, o salão estava cheio, lotado. Uma a uma, as pombas foram despertando, foi-se uma, foi-se outra, enfim, dezenas. Quando o dito convidado terminou a palestra haviam oito gatos gelados na platéia. Pode?

Crucifixo

Deu na Folha de S. Paulo: o Ministério Público, por meio de um promotor de justiça, pediu a retirada de um crucifixo colocado na sala de espera da clínica odontológica da Universidade de São Paulo. Um padre foi ouvido pela Folha e argumentou que "o crucifixo leva conforto às pessoas", depois de lembrar que "somos uma maioria cristã".
Perdi minha fé muito tarde, por volta dos dezesseis anos. Não posso dizer que tenha me esforçado muito em reencontrá-la. Talvez a tenha procurado no lugar errado. Mas procuro manter o respeito pelas religiões dos outros. Continuo achando que o diretor da clínica da USP, o padre em sua invocação do princípio da maioria e milhares de outros burocratinhas do serviço público brasileiro beiram o desrespeito às crenças e descrenças alheias quando penduram as evidências de sua confissão em lugares de serviço público. Havia, até meses atrás, por exemplo, uma enorme imagem da Santa Medianeira no gabinete do reitor da ufesm. Enorme, eu digo.
O problema é que minhas chances de chegar a reitor da ufesm são nulas.
Em tempo: se o barnabé precisa esse tanto de conforto espiritual, que coloque a imagenzinha da santinha voltada apenas para ele, ao lado da fotinho das crianças.