domingo, março 16

Inauguração


A julgar pelo que começa a ver na Internet, a partir de agora as agências do centro do país vão começar a incluir o caso Rodão em suas pautas. Afinal, tem um ex-reitor de federal indiciado - mais um para fazer companhia ao Timoteo, tem deputado no meio, professores universitários, as zelites do país, etc - . O que me intriga nessas coberturas é a forma como se lida com o relato sobre a gênese do que se considera errado no caso Rodão. Por exemplo, as informações sobre o início, em 2003. Qualquer jornalista poderia ter questionado as autoridades no dia 17 de junho, em Santa Maria, em 2003. O press-release abaixo está até agora no sitio do Detran:
A Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência - FATEC, vinculada à Universidade Federal de Santa Maria, realiza nesta sexta-feira dia 17 de junho, às 11 horas, a solenidade de inauguração do centro de pesquisa no trânsito, com ênfase na segurança. Trata-se do programa Trabalhando pela Vida! , que irá prestar serviços especializados na área. A FATEC é encarregada pelo Detran-RS da criação e aplicação das provas teóricas e práticas para a certificação da Carteira Nacional de Habilitação.
O Prédio de Pesquisa, Desenvolvimento e Serviços está localizado no Campus da UFSM, numa área de 680m². Dentre os setores que compõem essa Unidade, destacam-se os de Desenvolvimento de Softwares, Digitação e Diagramação, Elaboração de Exames Teórico-Técnicos, Estudos das Tecnologias de Última Geração, Leitura Óptica, Pesquisa e Desenvolvimento de Ações Pedagógicas, Pesquisa e Desenvolvimento de Estatísticas.
Além da equipe do Trabalhando pela Vida!, e de seu coordenador, Professor Dario Trevisan de Almeida, estão previstas as presenças do Governador do Estado do Rio Grande do Sul (RS), Germano Rigotto, do Secretário de Estado da Justiça e Segurança do Estado do Rio Grande do Sul, José Otávio Germano, do Diretor-Presidente do Detran-RS, Carlos Ubiratan dos Santos, e do Reitor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Paulo Jorge Sarkis.

Rigotto veio, viu, assinou, sob o testemunho do Reitor e de todos os jornalistas presentes. Até ali, como dizia aquela senhora, estava tudo bem. Nem as pedras podiam ignorar que ali se assinava um contrato com dispensa de licitação. Acho curiosa é a ênfase que hoje se dá para uma informação que, se não era pública, a responsabilidade de não se saber isso devia cair nos curiosos. Eu não diria a mesma coisa sobre as cláusulas de sigilo que haviam no contrato de 2003. O tal contrato, no entanto, não foi remetido pelo ex-reitor ao Conselho Universitário para aprovação, muito embora ele envolvesse servidores e bens da Ufesm. Ele diz que apenas apresentou a Fatec e a Ufesm ao Detran. Por que o contrato não subiu até ao Consu?
O diretor de Centro que assinou o contrato pagou caro por esses detalhes. Foi indiciado.
Na foto, uma tapera da Serra do Caverá, por onde andava Honório Lemes, o Leão do Caverá.
Ainda pago uma visita ao túmulo dele, nas areias de Rosário. Essa história de ser gaúcho, sabe como é.

Páscoa


Vai até o dia 19 a segunda edição do bazar de páscoa do Tribunal de Contas do Estado. A exposição está localizada na entrada do edifício-sede do TCE, na Rua Sete de Setembro, 388. Mais não diz o sítio do tribunal sobre as novidades da semana da páscoa.
No prédio do Cetê, da Ufesm, tem bazar de páscoa também. Os ovinhos estão expostos no saguão, junto à parede decorada por Trevisan, o pintor.
No Cetê nasceu e firmou-se a liderança exercida na Ufesm pelo Prof. Paulo Sarkis. A história da Ufesm, desde os anos oitenta, não pode ser contada sem o capítulo dedicado ao trabalho do Prof. Paulo, em especial ao seu papel na reorganização do movimento docente sob uma perspectiva alternativa àquela que era dominante. Durante muitos anos ele alimentou o projeto de chegar à Reitoria, em vão. Perdeu duas eleições, finalmente chegou lá, e durante seus oito anos de reitorado exerceu o comando na Universidade de uma forma comparável a poucos, no que diz respeito à hegemonia que conquistou nos Conselhos Superiores, por exemplo. Seu candidato perdeu a eleição para o Prof. Lima por poucas dúzias de ovos. Seu grupo facilmente retornaria ao poder, se os ninhos tivessem continuado como estavam.
Nessa Páscoa termina, com todos os simbolismos possíveis, um ciclo. A consternação dos apoiadores do grupo que apontaria um "novo rumo" para a Ufesm não poderia ser maior.
O que virá? De onde virá a renovação que a Universidade precisa?
Tem gente se babando no discurso moralista, acreditando que é por aí.
A orquídea com jeito de anjo tem perfume de chocolate.

sexta-feira, março 14

Listão

No sítio do Claudemir está o listão da Federal. Caiu o rei de ouros.

Caverá


No imaginário pampeano há uma região de lendas chamada Serra do Caverá, nas bandas do Alegrete. Nessas horas de passamentos, vou assuntar os serros. Até segunda.

Palavras


O Claudemir Pereira, dias atrás, falou sobre a experiência de acompanhar de perto o caso Rodin, na medida em que algumas pessoas conhecidas, colegas de trabalho, quase amigos, estão envolvidos. Num caso desses, que não é comum na vida da gente, não dá para encher a boca e ficar falando como se fosse gente lá do planalto central de Zilbra; você pode exagerar na dose, generalizar, e ter que morder a língua logo ali; ou vai cruzar com o cujo na rua e ele pode querer conversar sobre o seu ataque de boquirrotismo. E assim o Claudemir recomendava vagareza no andor e comedimento no clamor. Fiquei pensando no assunto, acho que ele está tapado de razão.
Enquanto isso, recebi uma correspondência de um conhecido, que desgostou de minha crítica ao uso das metáforas de doença em análise política. Isso foi logo depois da Gisele escrever aquela bela nota com a citação da Susan Sontag, maravilhosa. Obrigado, Gisele.
Bom, fiz minhas as palavras de Sontag e acrescentei, na resposta a esse conhecido - ele disse que eu deveria me indignar era com os criminosos, e não com as metáforas! - que ainda não sei bem qual a palavra que eu usaria para qualificar meus sentimentos em relação às pessoas indiciadas no inquérito; é muita gente, de todo o tipo e feitio, com todo tipo de responsabilidade. Acho que seria ruim usar uma única palavra para resumir sentimentos ainda imprecisos, e em qualquer caso ela não seria ainda "indignação", acrescentei; por exemplo, faz pouco tempo que alguns dos alegados chefes da quadrilha eram incensados pela esquerda local, quando se montou o famoso acordo PT-PDT. E eram o protótipo de gente boa, que levava legiões de professores, estudantes e servidores às urnas. Alguns deles estavam em campos opostos ao meu, em termos de política da universidade, e não me interessa misturar as coisas. Pão é pão e beijo é beijo.
Ainda estou tentando entender como chegamos a isso. O delegado Gaspareto, hoje pela tarde, ao explicar que não poderia dizer nenhum nome além dos já revelados, insistiu, no entanto, em chamar a responsabilidade para os ombros do Zé Fernandes, por exemplo. O Zé: tinha horas que eu me pegava com ele, quando ele insistia nas experiências administrativas que inventava e às quais sempre me opus, de forma educada. E tinha horas que eu me orgulhava de votar com ele nos conselhos, defendendo coisas que achávamos progressistas e eu achava que a gente tinha alguma coisa em comum. O que é que eu faço com o Zé agora? Eu não posso decidir de uma hora para outra que devo odiá-lo ou algo parecido.
O Zé é qualquer um de nós, de certa forma.
Como diria o polidor de lentes, não me interessa rir como um tomatinho do campo, ou chorar, eu queria mesmo era compreender. Estúpido como sou, sei não.

Metáforas (II)

Gisele Secco fez uma contribuição na postagem sobre metáforas que resolvi colocar aqui na página principal. Ela escreve:

"Fui buscar ali na minha estante um livrinho que reúne dois ensaios de Susan Sontag sobre metáforas de doenças (Doença como metáfora e AIDS e suas metáforas, pela Companhia de Bolso, 2007), pra trazer esse trecho que complementa o que dizes:

“Apresentar um fenômeno como se fosse um câncer representa uma incitação à violência. O uso do câncer no discurso político estimula o fatalismo e ‘justifica’ medidas severas – bem como reforça com veemência a noção de que a doença é necessariamente fatal. Embora as metáforas de doença jamais sejam inocentes, seria possível afirmar que a metáfora do câncer é um caso pior: implicitamente genocida. Nenhum ponto de vista político específico tem o monopólio dessa metáfora. Trotski chamava o stalinismo de o câncer do marxismo; na China, no ano passado [que, aqui é 1976]o Bando dos Quatro tornou-se, entre outras coisas, ‘o câncer da China’. John Dean assim explicou Watergate para Nixon: ‘Temos um câncer interno, perto da presidência, e está crescendo’. A metáfora recorrente nas polêmicas dos árabes – ouvidas por israelenses no rádio todos os dias, ao longo dos últimos vinte anos – é que Israel é um ‘câncer no coração do mundo árabe’ ou ‘câncer do Oriente Médio’, e um oficial que, junto com as forças direitistas libanesas, participava do sítio ao campo de refugiados palestinos de Tal Zaatar, em agosto de 1976, chamou o campo de ‘um câncer no corpo do Líbano’. Para quem deseja suscitar a indignação, parece difícil resistir à metáfora do câncer. Assim, Neal Ascherson escreveu em 1969 que o caso Slanksy ‘era – é – um enorme câncer no corpo da nação e do Estado da Tchecoslováquia’; Simon Leys, em Sobras chinesas (Chinese shadows), fala do câncer maoísta que está corroendo a face da China’; D. H. Lawrence chamou a masturbação de ‘o mais profundo e perigoso câncer da nossa civilização’; e eu certa vez escrevi, no calor do desespero com a guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã, que ‘a raça branca é o câncer da história humana’. (...) As modernas metáforas de doença são todas indelicadas. As pessoas que sofrem da doença real em nada se beneficiam ao ouvir o nome de sua doença constantemente mencionado como a síntese do mal. Só no sentido mais restrito um fato ou problema histórico se assemelha a uma doença. E a metáfora do câncer é particularmente grosseira. Sempre representa um estímulo a simplificar algo complexo e um convite ao farisaísmo, quando não um fanatismo”. (p. 72-3) "

quinta-feira, março 13

Afundações

A pergunta feita pelo jornal do sindicato (Março, 2008) foi: "a extinção das fundações de apoio é positiva para as universidades?"
Me lembrei daqueles exemplos que a gente estuda em lógica informal, sobre perguntas capciosas, indutoras, do tipo "você já parou de bater na sua mulher?"
A Profa. Maristela disse sim, orientando-se pela posição atacadista do Andes, "tomada de posição de projeto de Universidade e de projeto de nação". Ok, entendo, também sou a favor de comer mingau quente pela beirada do prato. Mas o varejão, como fica?
Já o Prof. Koff, em defesa do não, subiu nas tamancas de Maquiavel para invocar uma atitude realista, acabou se queixando daqueles que se aproveitam da crise para bater no cachorro fraco.
O legal é que a conversa continua.
Lembro-me do entusiasmo dos que fundaram a Fatec, numa salinha do Cetê, Benetti entre eles. Eles nunca imaginaram isso que aconteceu. Por outro lado, no movimento docente, o que foi que fizemos, de concreto, para mudar o modelo jurídico das universidades? Esperar por uma mudança no projeto de nação? O que seria isso? Acho boa essa pressão pela transparência, por exemplo. Mas vale perguntar: quem reclamou um ai quando o projeto do Detran não passou pelo conselho universitário? Quem reclamou um ai quando o ex-reitor implementou seu estilo trator, simbolizado ao presidir a reunião que o elegeu?
2008 vai começar amanhã. E não vai terminar muito cedo.

Metáforas



"O desenvolvimento da consciência nos seres humanos está inseparavelmente ligado ao uso de metáforas. Metáforas não são meramente decorações periféricas ou mesmo modelos úteis, elas são formas fundamentais da consciência que temos sobre nossa condição: metáforas de espaço, metáforas de movimento, metáforas de visão."

A frase é de Iris Murdoch, na abertura do ensaio "A soberania do bom sobre outros conceitos".

Lembrei dela ao ler hoje o jornal do sindicato da Ufesm. O editorial tem como título "O câncer que destrói a universidade".
Nele, encontramos as seguintes expressões qualificativas para as fundações universitárias: "câncer que tem consumido a universidade pública", "um tumor a sugar recursos", são "tumores" que é "preciso ter a coragem de extirpar".
O sindicato escolheu metáforas de doença para pensar nossa crise.
Dentre as doenças, escolheu o câncer.
Quero fazer duas observações.
Em primeiro lugar, fiquei surprêso com a escolha de metáforas ligadas à biologia para pensar problemas sociais e humanos. Desde a críticas a conceitos como "país subdesenvolvido", nos anos setenta, achei que o povo havia abandonado esse tipo de matriz retórica; conceitos como "sub-desenvolvimento" ou "doença" supõem, com razão, a tipificação de estados normais de desenvolvimento e saúde. Ora, pensar instituições sociais com essa matriz só pode dar chabu, e isso faz décadas que as ciências sociais se deram por conta. Assim, o editorial descambou para o lado moral.
Em segundo lugar, se eu tivesse câncer, ficaria puto da cara com o sindicato. Ninguém escolhe ter câncer. Ninguém é condenado moralmente por ter câncer. Ninguém é punido por ter câncer. O câncer não é um "mal terrível", como diz o sindicato. É uma doença que ninguém quer ter, mas não há um oposto para ela, um "bem maravilhoso". Assim, o editorial conseguiu ser politicamente incorreto.
Mais do que puto da cara, fiquei chateado.

Sapos


O Diário de hoje tem uma excelente matéria da Jaqueline Silveira, dando conta das relações perigosas entre a Fatec da Ufesm e a Intercorp, a empresa do Lima, não o daqui, mas o de Brasília. A Fatec teria contratado os "serviços" da Intercorp, pagando uns bons tostões em projetos de programas de computadores (aquele que determinou a interdição dos bens do ex-reitor da Ufesm).
O Prof. Rogério Koff, atual presidente da Fatec, de boa vontade e humor, deu a seguinte declaração, conforme o Diário:
Não sei se não tem mais um sapo enterrado.
Mantendo o humor, coisa importante numa hora dessas, eu diria: até pode estar enterrado, mas continua bem vivo.
E são muitos.
A Razão conta que a Fatec suspendeu a emissão de carteira de motorista. O setor que fazia os exames foi fechado ontem, até o dia 19 de março, à espera do dinheiro, coisa de dois milhões e meio de reais que faltam no caixa.
A gritaria vai ser grande, pois a Fatec processa mais de 60.000 exames por mês.
Tem um sapo querendo saber o que a Fundae vai fazer com tanto dinheiro. Tem gente que pensa que a Fundae é pouco mais do que uma padaria.
Era mesmo. Virou uma lavanderia, dizem os investigadores no documento da juíza Simone.
O sapo aí de cima me lembra vagamente alguém.

quarta-feira, março 12

Universidades


Bolonha é a universidade mais antiga do mundo, teve seus estatutos aprovados em 1158.
A universidade de Paris foi denominada universitas em 1208, pelo Papa Inocêncio III.
A Ufesm, nos anos sessenta, foi a primeira universidade fora de uma capital.
O povo das capitais dizia que isso não daria certo.
Quando a gente vê o anúncio de certos cursos e palestras de aperfeiçoamento de recursos humanos da Ufesm, nos quais comparecem floristas bachianos, ontopiscólos, terapeutas rolistas e quejandos, lembra do que o povo da capital dizia.
Nem sempre foi assim, é o que consola. Mas já faz um tempo que a esperança anda muito anêmica, atacada pelos gafanhotos.

O Listão da Federal (II)


Na inauguração dos cursos da Universidade do Distrito Federal, no distante ano de 1935, Anísio Teixeira, nomeado seu primeiro reitor, dizia sobre a função das universidades:
"A função da universidade é uma função única e exclusiva. Não se trata somente de difundir conhecimentos. O livro também os difunde. Não se trata, somente, de conservar a experiência humana. O livro também a conserva. Não se trata, somente, de preparar práticos ou profissionais de ofícios ou artes. A aprendizagem direta os prepara, ou, em último caso, escolas muito mais singelas do que universidades. Trata-se de manter uma atmosfera de saber, para se preparar o homem que o serve e o desenvolve. Trata-se de conservar o saber vivo e não morto, nos livros ou no empirismo das práticas não intelectualizadas. Trata-se de formular intelectualmente a experiência humana, sempre renovada, para que a mesma se torne consciente e progressiva. Trata-se de difundir a cultura humana, mas de fazê-lo com inspiração, enriquecendo e vitalizando o saber do passado com a sedução, a atração e o ímpeto do presente. O saber não é um objeto que se recebe das gerações que se foram, para a nossa geração, o saber é uma atitude de espírito que se forma lentamente ao contato dos que sabem. A universidade é, em essência, a reunião entre os que sabem e os que desejam aprender. Há toda uma iniciação a se fazer. E essa iniciação, como todas as iniciações, se faz em uma atmosfera que cultive, sobretudo, a imaginação... Cultivar a imaginação é cultivar a capacidade de dar sentido e significado às coisas. A vida humana não é o transcorrer monótono de sua rotina cotidiana; a vida humana é, sobretudo, a sublime inquietação de conhecer e de fazer. É essa inquietação de compreender e de aplicar que encontrou afinal a sua casa. A casa onde se acolhe toda a nossa sede de saber e toda a nossa sede de melhorar, é a universidade."
Anísio foi, como se sabe, perseguido, cassado, etc.
O tempora, o mores.
A foto acima é do centro de Rocha, Uruguay. Lá não há universidade, nem indústrias, nem empregos. O sonho da gurizada é vir para Santa Maria da Boca do Monte, onde tem universidade.

O listão da Federal


As universidades por vezes são chamadas de “academias”. Diz o Aurélio que a Academia, que era a escola de Platão, localizava-se nos jardins consagrados ao herói ateniense Academus. Academus é um herói mitológico, um semi-deus que vivia distante do povo, como sugere a etimologia de seu nome: héka (longe, distante), e demos (povo).
Academo age independentemente do povo.
Como é possível administrar uma instituição que já foi definida como um lugar onde os professores e os estudantes fazem o que bem entendem e o reitor leva a culpa? Como deixar de lembrar aqui Aluízio Pimenta, que comparou o reitor a um rei momo?
As universidades atravessam os séculos. Elas ainda continuam sendo instituições especiais, com certos privilégios e charmes ou são apenas empresas como outras? Professores, pesquisadores, acadêmicos são mesmo administráveis? Em que sentido? Dentro de quais limites? Sobre isso, vale lembrar o que o sociólogo italiano, Saverio Avveduto, escreveu sobre as reformas da universidade italiana: “a universidade registrava ritmos de renovação tão lentos que fazia pensar naquele rio gálico sobre o qual César escreveu que se movia tão devagar que não dava para perceber em qual dos dois sentidos ele corria.”
Há, no entanto, uma especificidade do trabalho acadêmico que nem sempre é lembrada, e que faz justiça à história de Academo. Pense no caso de uma equipe de pesquisadores competentes. Eles se dedicam a investigar um certo problema: eles querem mapear a genética de uma certa bactéria. Será que pelo simples fato de ter boas condições de trabalho eles conseguirão descobrir ou provar o que desejam, produzir o conhecimento visado, tendo controle completo do tempo que levarão para atingir os resultados que buscam? Pense no que acontece com as pesquisas de cura de certas doenças.
Pense agora no caso de políticos e administradores, que trabalham com orçamentos e prazos.
No primeiro caso, da equipe dos investigadores, como se dá a relação com o tempo? O quanto o tempo é importante, decisivo? E no segundo caso, a relação com o tempo é do mesmo tipo? E qual a relação com o tempo no caso da formação de pessoas?
Gestores, professores/pesquisadores e estudantes tem, cada um deles, uma relação diferente com o tempo.
No âmbito da ação humana o tempo é uma variável sempre presente, no sentido de que, se não agimos, as coisas agem por nós. No domínio da ação humana, o tempo é um constitutivo absoluto. Ao contrário disso, no âmbito do conhecimento humano, em que se procura descobrir ou estabelecer a verdade sobre isso ou aquilo, o tempo é uma variável externa e não decisiva. Dizendo de outra forma: se não descobrimos o que queremos hoje, quem sabe faremos isso amanhã depois ou ainda depois. Há pesquisas que consomem décadas de trabalho, e não é por falta de dinheiro que não se descobre tal e tal coisa. É apenas porque no âmbito do conhecimento, é assim mesmo.
Por exemplo, para lembrar um assunto da hora, o ex-deputado João Luis Vargas rezou para que a verdade sobre o Detran fosse descoberta. Se ela vai ser descoberta ou não, isso nada tem a ver com as preces do atual presidente do Tribunal de Contas do Estado, e sim com os esforços de escuta da polícia federal. E azar do Valdemar. Nesse caso, do Luís.
Nos últimos anos, diz a amiga Marilena, a universidade brasileira vem deixando de ser uma instituição para ser uma organização. Preciso reler o que ela escreveu sobre isso. Mas na prática dá pra ver. Só que o sentido de "organização" é bem especial.
Padrão acadêmico, por exemplo, parece ser uma expressão cada vez mais carente de sentido.
Se não é a versão tupiniquim do "publica ou periga", é a tal da entregração empresa-academia. Bem pertinho do povo.
Na sexta-feira vai sair o tal de listão da Polícia Federal, mais esperado do que o resultado do vestibular.
Que venha.
A Universidade de Bolonha tem um cepeéfe de miletantosanos.
A Ufesm tem só uns quarentaepoucos, mas, com um mínimo de zelo administrativo e sensibilidade humana pode se sair bem dessa. Mas seria bom ter mais opinião, né?
A foto é de Jaguarão, RS, onde não há nem sinal dessas tais de universidades. Bem que Jaguarão queria.

Moita administrativa


Recebi hoje na Ufesm uma correspondência enviada pelas autoridades, repassando um despacho do Procurador da República, Harold Hoppe. O Procurador tem a esperança que a "postura administrativa" das autoridades da Ufesm mude um pouco para reverter o quadro "cotidiano e rotineiro" de "falta de cuidado e zelo" com as coisas do campus. Trata-se do "considerável número de ocorrências de furtos de equipamento (sobretudo eletrônicos) ocorridos nos prédios da Universidade". O problema se agrava, diz o Procurador, pois a Ufesm não parece ter a menor vontade de "punir os responsáveis pela guarda dos equipamentos". Falta de zelo e cuidados, negligência, imprudência, omissão, ausência de responsabilização, vão por aí os qualificativos.
O documento foi dirigido ao Magnífico Reitor, sugerindo que sejam tomadas "medidas preventivas".
Dizia o Mário de Andrade: muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são.
Entender os males da Universidade pública brasileira não é coisa para amadores, ouço o Mestre Guina.
Vamos convir que faz muito tempo que os reitores tratam mesmo é de fazer campanha para se eleger, compondo com grupos de pessoas sem a menor afinação de idéias e levando adiante arremedos de políticas. Um reitor que pensou em defender o que ele achava ser o interesse genuíno da Ufesm foi declarado persona non grata por todo mundo, inclusive pelo sindicato.
Política de pessoal? Piada tem hora.
Faz pouco, alguns professores foram defenestrados por denúncias públicas. O que faz a instituição além de ficar na moita? Desde o dia 6 de novembro, alguém me mostra um gesto da Ufesm em torno do assunto?
Não contam aqui, por óbvio, as colheiradas de chá amargo servidas em entrevistas às potentes emissoras locais.
A foto acima ilustra o equi8pamento que tem sido mais usado nos últimos anos pela otoridades universitárias para acertar os próprios pés.
O Timóteo puxa a lista mas ela vem até aos pampas.

terça-feira, março 11

Pós-graduação

Um certo algoritmo do Google me fez chegar a uma entrevista que a repórter Jaqueline Silveira, do Diário de Santa Maria, fez com João Luiz Vargas, no dia 26/12/2007, sobre o assunto Rodin. Transcrevo a matéria:
"Diário - Como o TCE agirá com as denúncias em 2008, ano eleitoral?
Vargas - Nessa eu tenho pós-graduação. Há muitas denúncias infundadas. Acompanhamos aí de Santa Maria (fraude do Detran). Será que todas as denúncias são autênticas? A palavra-chave no tribunal é cuidado, mas não deixando de verificar denúncias.
Diário - Como o TCE atua com autarquias envolvidas em fraudes, como o Detran?
Vargas - As verbas do Detran são auditadas pelo TCE. Muitas questões eu não posso aprofundar porque há uma investigação, mas o tribunal vem apontando, alertando e, inclusive, penalizando. O TCE atua com o Ministério Público de Contas quando há denúncias. Havia uma denúncia, e o TCE autorizou a auditoria especial.
Diário - Em 2008, surgirão novos relatórios com denúncias envolvendo autarquias, além do Detran, que o TCE esteja trabalhando?
Vargas - Não. O tribunal continua na questão do Detran. Não termina este ano. Estamos analisando com profundidade e cuidado para não lançarmos suspeitas equivocadamente.
Diário - Como o senhor vê as denúncias sobre José Fernandes?
Vargas - Tenho grande admiração e respeito pelo professor José Fernandes e pelo (filho) Ferdinando. Os conheço há muitos anos. A gente sempre teve uma vinculação política muita forte. Ele (José Fernandes) teve uma vida ilibada (sem mancha). Seria precipitado qualquer julgamento. A questão levantada envolve, no momento, a Justiça Federal, e eu espero que seja esclarecida. Nos 30 anos que convivi com o professor, sempre o vi com dedicação muito grande em questões que trouxeram desenvolvimento não só a Santa Maria, como para a região. Ele conseguiu recurso para fazer o Banco da Esperança.
Diário - O senhor falou com ele depois das denúncias?
Vargas - Fui visitá-lo, levar a minha solidariedade. Estou rezando para que a verdade seja esclarecida."

Não acompanho o ex-deputado em matéria de fé e rezas, mas admito que por vezes elas fazem milagres.

Paisagem rural


A paisagem rural acima fica nas proximidades da propriedade de um dos "suspeitos com foro privilegiado", "alto servidor...", diz a ZH de hoje. Salvo grande engano, a ver.
O outro, o deputado federal, basta perguntar ao santo google que ele conta. É só digitar "deputado federal rodin" que ele entrega direitinho.

Pecados


A Igreja Católica apresentou nova lista de pecados. Agora, além dos sete capitais tradicionais (vaidade, soberba, ira, preguiça, avareza, gula, luxúria) foram apresentados os "pecados sociais": fazer modificação genética, poluir o meio ambiente, causar injustiça social, causar pobreza, tornar-se extremamente rico, usar drogas.
O dono do Vanguard Standard aí de cima não tem chance de cometer o pecado da riqueza.
Já o dono do C300 aí de baixo não sei não...

segunda-feira, março 10

Padre Lauro na Rolling Stone


"Um chrysler 300 preto corta silenciosamente as ruas de Santa Maria em uma manhã qualquer de janeiro, conduzindo um passageiro conhecidíssimo na cidade que boa parte do Brasil já ouviu falar devido à sua universidade federal, à sua base aérea e aos seus personagens fascinantes, o motorista do Chrysler dentre eles. São 11 horas e, ao som de uma voz grave que recita salmos no CD-player, Lauro Trevisan assim justifica seu patrimônio, não o espiritual, mas o material: “Faço a oração da riqueza. Sou um pregador da riqueza. Deus dá o que se pede e eu pedi isso”, sentencia, sem rodeios, quando o questiono sobre seu carrão, uma máquina empurrada por 340 cavalos de potência e quitada dias antes – R$ 170 mil, dos quais R$ 125 mil em cash (uma Mercedes conversível serviu para pagar o restante). Aos 73 anos, o padre Lauro, como é comumente chamado, é um peixe grande em uma cidade de cardume variado."
Eis o começo da matéria do Márcio Fernandes, na Rolling Stone de março, que deve estar chegando nas bancas hoje. Vamos aguardar. A foto é do Marcos Hermes.
Gostei do "cardume variado."
Falando em peixe grande, no blog da Rosane tem novidades sobre o caso Rodin. Escreve ela:
"Haverá surpresas no relatório da Polícia Federal que será divulgado na sexta-feira. Foi o que disse há pouco no Gaúcha Atualidade o Superintendente da Polícia Federal, Ildo Gasparetto. O número de indiciados, que já estava em 35, deve aumentar. E haverá a sugestão para que a Justiça solicite autorização ao Supremo Tribunal Federal ou a tribunais regionais para investigar pessoas que têm direito a foro privilegiado. Deputados federais, por exemplo, só podem ser investigados com autorização do STF. Deputados estaduais só com autorização do Tribunal de Justiça."
Usando a expressão do Márcio Rodrigues, parece que tem peixe grande nesse cardume variado dos pensadores bocamontenses.

domingo, março 9

Cinquecento


Dizem que a Fiat vai trazer para o Brasil o "Cinquecento". Esse vermelho aí, na frente do Mini Morris, deve ter uns trinta anos e fazia parte do rali no Uruguai. Haviam vários outros. O Cinquecento é um carro barato e charmoso e vai vender bem, acho. Mais barato que o cinquecento somente esses carros que a empresa contratada pela Fatec vendia para os professores, depois de encerrado o projeto. Um professor bem situado na hierarquia local me contou que uma alta autoridade foi contratada como consultor. Ganhou um carro para viajar pelo bem do Rio Grande ou coisa que o valha. Carrão legal, nada parecido com essa bostinha do Cinquecento. Depois que o projeto foi encerrado o dito dirigente ganhou o direito de comprar o bem propelido veículo pela módica quantia de uma lambreta. Quem sabe, em breve, a gente fica sabendo mais sobre isso.

Concurso na área de Filosofia

Ou, mais precisamente, em ensino de Filosofia. As inscrições estão abertas na Universidade Federal de Goiás até o início de abril. A área é "Filosofia: ensino de Filosofia". A inscrição pode ser feita pelo sítio da UFG na Internet (www.ufg.br). A titulação exigida é de Doutorado.

quarta-feira, março 5

Conselho Universitário

O Reitor da Unebê, Timóteo Mulholand, saiu-se ontem com a seguinte declaração, em depoimento dado a senadores em alguma dessas cepeís. "O apartamento foi decorado por decisão do conselho máximo. Mas eu não estava presente quando isso foi decidido." Os senadores queriam que ele explicasse os gastos de R$ 470 mil na reforma e decoração do apartamento funcional que ocupava. O conselho diretor da Fatec deles foi responsabilizado pelo reitor pelas despesas.
Essas histórias de Conselho Universitário ainda vão dar o que falar.
Os hábitos que cercam as relações dos reitores com os conselhos universitários, o tal do "órgão máximo" são os mais variados. Isso de decidir em interesse próprio, como diz a gurizada, é muito relativo.
Aqui, por exemplo, no dia 14 de dezembro de dois mil e um, o Conselho Universitário reuniu-se, junto com o Cepe e o Curadores, para escolher a lista tríplice para reitor da Ufesm.
Um dos candidatos à lista era o Prof. Jorge Sarkis, então reitor em busca da reeleição.
Sem piscar, ele presidiu a reunião que o elegeria.
Dois anos depois ele incentivou a vinda do Detran ao campus da Ufesm e deu o maior apoio para que um dos diretores de Centro e diretor da Fatec assinasse o contrato de prestação de serviços que hoje está na linha de tiro da Justiça.
O Conselho Universitário nunca tomou conhecimento do contrato com o Detran.