sexta-feira, maio 9

Nova mudança

Coisas do Campo mudou-se. Agora está aqui.

domingo, março 30

Moranafilosofia

Moranafilosofia será descontinuado por algum tempo, por razões e motivos que não vem ao caso tentar explicitar aqui. Lembro apenas que este blogue começou como uma retomada de um jornalzinho automático que circulava no corredor do curso de Filosofia da UFSM; a conversa foi aumentando e acho que chegou a hora de hospedá-la em outro lugar. Aproveito o ensejo para fazer, com o nome do blogue, uma homenagem ao Antonio Augusto. O nome do novo blogue é Coisas do Campo, um de seus últimos livros. Para acessar, clique aqui.

quinta-feira, março 27

Mundo ideal

Trecho de uma entrevista com a atual Secretária de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena Guimarães de Castro, na edição 2047 da Revista Veja, 13 de fevereiro de 2008:
Veja - Qual seria o melhor caminho para elevar o nível dos professores?
Maria Helena – Num mundo ideal, eu fecharia todas as faculdades de pedagogia do país, até mesmo as mais conceituadas, como a da USP e a da Unicamp, e recomeçaria tudo do zero. Isso porque se consagrou no Brasil um tipo de curso de pedagogia voltado para assuntos exclusivamente teóricos, sem nenhuma conexão com as escolas públicas e suas reais demandas. Esse é um modelo equivocado. No dia-a-dia, os alunos de pedagogia se perdem em longas discussões sobre as grandes questões do universo e os maiores pensadores da humanidade, mas ignoram o básico sobre didática. As faculdades de educação estão muito preocupadas com um discurso ideológico sobre as múltiplas funções transformadoras do ensino. Elas deixam em segundo plano evidências científicas sobre as práticas pedagógicas que de fato funcionam no Brasil e no mundo. Com isso, também prestam o desserviço de divulgar e perpetuar antigos mitos. Ao retirar o foco das questões centrais, esses mitos só atrapalham.

terça-feira, março 18

Palavras


"As palavras constituem a textura definitiva e o material de nosso ser moral, dado que elas são, dentre os simbolismos pelos quais nos expressamos em existência, os mais refinados, delicados e detalhados, bem como os mais universalmente usados e compreendidos. Nós nos tornamos animais espirituais quando nos tornamos animais verbais. As distinções fundamentais somente podem ser feitas em palavras. Palavras são espírito. Naturalmente, a eloqüência não é garantia de bondade, e um homem inarticulado pode ser virtuoso. Mas a qualidade de uma civilização depende de sua habilidade para discernir e revelar a verdade, e isto depende da abrangência e pureza de sua língua."

Iris Murdoch, em Salvation by words.

Boa Páscoa!

Tocaio, fotografado por Gabriel Pillar

Canção para um entardecer

(...)
Depois de mim, o que será do mundo,
além de mim, o que será que existe?
Nos mistérios da vida onde me afundo
tenho razões de sobra pra ser ser triste.
(...)
O caranguejo quer cortar-me a carne,
afia as garras, mas eu sou de cerno.
Acredito que um dia vá matar-me.
(...)
Ah! que medo que eu tenho da velhice!
Querer fazer as coisas sem poder,
viver do que passou, dizer tolice,
despertar compaixão, fazer sofrer.
Ah! que medo que eu tenho da velhice!
Tenho razões de sobra pra ser triste.
Agarro-me na fé que é turva e pouca
e tento uma alegria, se é que existe
...Só esta alma ingênua e meio louca
que teima em pôr-me um pássaro na boca.

Antonio Augusto Ferreira, Sol de Maio.

segunda-feira, março 17

Antonio Augusto Brum Ferreira


Antonio Augusto Ferreira faleceu. Ele estava hospitalizado desde a noite de lançamento de "A Nona Assassina" e depois de diversas complicações veio a morrer na tarde de hoje. Paulo, que me deu a notícia, disse que o velório será nas capelas do Hospital de Caridade.
Para quem não o conheceu: Antonio Augusto não foi apenas o conhecido autor de letras vencedoras, como Veterano, Entardecer, Pago Perdido, Contrabando, e poemas poderosos como Sonho Criador, talvez os seus versos mais queridos e conhecidos. Ele sempre esteve associado com o nativismo, mas há uma vertente cosmopolita em seus escritos que eu admiro muito. Um exemplo notável são seus versos sobre a morte, merecedores de lugar em qualquer antologia universal de poesia sobre esse tema:

A PONTUAÇÃO DA MORTE

Leia-se bem a MORTE:
morte, vírgula ou morte, ponto.
Atente-se à pontuação:
depois da vírgula, segue
mas depois do ponto, não.

Para os da vírgula
é preciso crença.
O ponto, não,
o ponto dispensa.

Há quem pontue a morte
com uma interrogação,
estes, estão no escuro.
Há também os reticentes...
morte em cima do muro.

E eu, afinal?
depois da morte,
ponto final.

Antonio Augusto Ferreira
19.12.01

Dele disse um dia Barbosa Lessa: que era um homem que sabia dizer as coisas que sentimos, nós, que aos poucos não nos importamos mais "com a fúria desses ventos." Não é pouco. Eu não sei o que mais me impressionava nele, se eram essas pontes que ele construía entre o nativismo e os temas universais, se era a paixão que ele investia em horas e horas de conversa sobre literatura e poesia, nas quais tirava proveito da prodigiosa memória que tinha. Participamos juntos de uma sessão no 13 de maio, na qual eu declamei versos de Prado Veppo e ele trouxe o seu Sonho Criador. Naquela ocasião prometi a ele que em uma próxima oportunidade eu diria um poema dele. Ele, diligentemente, registrou o compromisso na dedicatória que fez para mim de Sol de Maio: "gostaria de ouvir um poema meu em sua boca". Felizmente pude cumprir a promessa, lendo para ele o meu favorito, que transcrevi acima.
Na "Pontuação da morte" ele fala em ponto final. Para quem conviveu com ele e com seus versos, essa ocasião é um ponto de partida para mais uma vez lembrar e homenagear sua paixão pelas letras e pela vida.
Hoje é um dia de repetir com ele,
meu mundo ficou pequeno
e eu sou menor do que penso
.

domingo, março 16

Inauguração


A julgar pelo que começa a ver na Internet, a partir de agora as agências do centro do país vão começar a incluir o caso Rodão em suas pautas. Afinal, tem um ex-reitor de federal indiciado - mais um para fazer companhia ao Timoteo, tem deputado no meio, professores universitários, as zelites do país, etc - . O que me intriga nessas coberturas é a forma como se lida com o relato sobre a gênese do que se considera errado no caso Rodão. Por exemplo, as informações sobre o início, em 2003. Qualquer jornalista poderia ter questionado as autoridades no dia 17 de junho, em Santa Maria, em 2003. O press-release abaixo está até agora no sitio do Detran:
A Fundação de Apoio à Tecnologia e Ciência - FATEC, vinculada à Universidade Federal de Santa Maria, realiza nesta sexta-feira dia 17 de junho, às 11 horas, a solenidade de inauguração do centro de pesquisa no trânsito, com ênfase na segurança. Trata-se do programa Trabalhando pela Vida! , que irá prestar serviços especializados na área. A FATEC é encarregada pelo Detran-RS da criação e aplicação das provas teóricas e práticas para a certificação da Carteira Nacional de Habilitação.
O Prédio de Pesquisa, Desenvolvimento e Serviços está localizado no Campus da UFSM, numa área de 680m². Dentre os setores que compõem essa Unidade, destacam-se os de Desenvolvimento de Softwares, Digitação e Diagramação, Elaboração de Exames Teórico-Técnicos, Estudos das Tecnologias de Última Geração, Leitura Óptica, Pesquisa e Desenvolvimento de Ações Pedagógicas, Pesquisa e Desenvolvimento de Estatísticas.
Além da equipe do Trabalhando pela Vida!, e de seu coordenador, Professor Dario Trevisan de Almeida, estão previstas as presenças do Governador do Estado do Rio Grande do Sul (RS), Germano Rigotto, do Secretário de Estado da Justiça e Segurança do Estado do Rio Grande do Sul, José Otávio Germano, do Diretor-Presidente do Detran-RS, Carlos Ubiratan dos Santos, e do Reitor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Paulo Jorge Sarkis.

Rigotto veio, viu, assinou, sob o testemunho do Reitor e de todos os jornalistas presentes. Até ali, como dizia aquela senhora, estava tudo bem. Nem as pedras podiam ignorar que ali se assinava um contrato com dispensa de licitação. Acho curiosa é a ênfase que hoje se dá para uma informação que, se não era pública, a responsabilidade de não se saber isso devia cair nos curiosos. Eu não diria a mesma coisa sobre as cláusulas de sigilo que haviam no contrato de 2003. O tal contrato, no entanto, não foi remetido pelo ex-reitor ao Conselho Universitário para aprovação, muito embora ele envolvesse servidores e bens da Ufesm. Ele diz que apenas apresentou a Fatec e a Ufesm ao Detran. Por que o contrato não subiu até ao Consu?
O diretor de Centro que assinou o contrato pagou caro por esses detalhes. Foi indiciado.
Na foto, uma tapera da Serra do Caverá, por onde andava Honório Lemes, o Leão do Caverá.
Ainda pago uma visita ao túmulo dele, nas areias de Rosário. Essa história de ser gaúcho, sabe como é.

Páscoa


Vai até o dia 19 a segunda edição do bazar de páscoa do Tribunal de Contas do Estado. A exposição está localizada na entrada do edifício-sede do TCE, na Rua Sete de Setembro, 388. Mais não diz o sítio do tribunal sobre as novidades da semana da páscoa.
No prédio do Cetê, da Ufesm, tem bazar de páscoa também. Os ovinhos estão expostos no saguão, junto à parede decorada por Trevisan, o pintor.
No Cetê nasceu e firmou-se a liderança exercida na Ufesm pelo Prof. Paulo Sarkis. A história da Ufesm, desde os anos oitenta, não pode ser contada sem o capítulo dedicado ao trabalho do Prof. Paulo, em especial ao seu papel na reorganização do movimento docente sob uma perspectiva alternativa àquela que era dominante. Durante muitos anos ele alimentou o projeto de chegar à Reitoria, em vão. Perdeu duas eleições, finalmente chegou lá, e durante seus oito anos de reitorado exerceu o comando na Universidade de uma forma comparável a poucos, no que diz respeito à hegemonia que conquistou nos Conselhos Superiores, por exemplo. Seu candidato perdeu a eleição para o Prof. Lima por poucas dúzias de ovos. Seu grupo facilmente retornaria ao poder, se os ninhos tivessem continuado como estavam.
Nessa Páscoa termina, com todos os simbolismos possíveis, um ciclo. A consternação dos apoiadores do grupo que apontaria um "novo rumo" para a Ufesm não poderia ser maior.
O que virá? De onde virá a renovação que a Universidade precisa?
Tem gente se babando no discurso moralista, acreditando que é por aí.
A orquídea com jeito de anjo tem perfume de chocolate.

sexta-feira, março 14

Listão

No sítio do Claudemir está o listão da Federal. Caiu o rei de ouros.

Caverá


No imaginário pampeano há uma região de lendas chamada Serra do Caverá, nas bandas do Alegrete. Nessas horas de passamentos, vou assuntar os serros. Até segunda.

Palavras


O Claudemir Pereira, dias atrás, falou sobre a experiência de acompanhar de perto o caso Rodin, na medida em que algumas pessoas conhecidas, colegas de trabalho, quase amigos, estão envolvidos. Num caso desses, que não é comum na vida da gente, não dá para encher a boca e ficar falando como se fosse gente lá do planalto central de Zilbra; você pode exagerar na dose, generalizar, e ter que morder a língua logo ali; ou vai cruzar com o cujo na rua e ele pode querer conversar sobre o seu ataque de boquirrotismo. E assim o Claudemir recomendava vagareza no andor e comedimento no clamor. Fiquei pensando no assunto, acho que ele está tapado de razão.
Enquanto isso, recebi uma correspondência de um conhecido, que desgostou de minha crítica ao uso das metáforas de doença em análise política. Isso foi logo depois da Gisele escrever aquela bela nota com a citação da Susan Sontag, maravilhosa. Obrigado, Gisele.
Bom, fiz minhas as palavras de Sontag e acrescentei, na resposta a esse conhecido - ele disse que eu deveria me indignar era com os criminosos, e não com as metáforas! - que ainda não sei bem qual a palavra que eu usaria para qualificar meus sentimentos em relação às pessoas indiciadas no inquérito; é muita gente, de todo o tipo e feitio, com todo tipo de responsabilidade. Acho que seria ruim usar uma única palavra para resumir sentimentos ainda imprecisos, e em qualquer caso ela não seria ainda "indignação", acrescentei; por exemplo, faz pouco tempo que alguns dos alegados chefes da quadrilha eram incensados pela esquerda local, quando se montou o famoso acordo PT-PDT. E eram o protótipo de gente boa, que levava legiões de professores, estudantes e servidores às urnas. Alguns deles estavam em campos opostos ao meu, em termos de política da universidade, e não me interessa misturar as coisas. Pão é pão e beijo é beijo.
Ainda estou tentando entender como chegamos a isso. O delegado Gaspareto, hoje pela tarde, ao explicar que não poderia dizer nenhum nome além dos já revelados, insistiu, no entanto, em chamar a responsabilidade para os ombros do Zé Fernandes, por exemplo. O Zé: tinha horas que eu me pegava com ele, quando ele insistia nas experiências administrativas que inventava e às quais sempre me opus, de forma educada. E tinha horas que eu me orgulhava de votar com ele nos conselhos, defendendo coisas que achávamos progressistas e eu achava que a gente tinha alguma coisa em comum. O que é que eu faço com o Zé agora? Eu não posso decidir de uma hora para outra que devo odiá-lo ou algo parecido.
O Zé é qualquer um de nós, de certa forma.
Como diria o polidor de lentes, não me interessa rir como um tomatinho do campo, ou chorar, eu queria mesmo era compreender. Estúpido como sou, sei não.

Metáforas (II)

Gisele Secco fez uma contribuição na postagem sobre metáforas que resolvi colocar aqui na página principal. Ela escreve:

"Fui buscar ali na minha estante um livrinho que reúne dois ensaios de Susan Sontag sobre metáforas de doenças (Doença como metáfora e AIDS e suas metáforas, pela Companhia de Bolso, 2007), pra trazer esse trecho que complementa o que dizes:

“Apresentar um fenômeno como se fosse um câncer representa uma incitação à violência. O uso do câncer no discurso político estimula o fatalismo e ‘justifica’ medidas severas – bem como reforça com veemência a noção de que a doença é necessariamente fatal. Embora as metáforas de doença jamais sejam inocentes, seria possível afirmar que a metáfora do câncer é um caso pior: implicitamente genocida. Nenhum ponto de vista político específico tem o monopólio dessa metáfora. Trotski chamava o stalinismo de o câncer do marxismo; na China, no ano passado [que, aqui é 1976]o Bando dos Quatro tornou-se, entre outras coisas, ‘o câncer da China’. John Dean assim explicou Watergate para Nixon: ‘Temos um câncer interno, perto da presidência, e está crescendo’. A metáfora recorrente nas polêmicas dos árabes – ouvidas por israelenses no rádio todos os dias, ao longo dos últimos vinte anos – é que Israel é um ‘câncer no coração do mundo árabe’ ou ‘câncer do Oriente Médio’, e um oficial que, junto com as forças direitistas libanesas, participava do sítio ao campo de refugiados palestinos de Tal Zaatar, em agosto de 1976, chamou o campo de ‘um câncer no corpo do Líbano’. Para quem deseja suscitar a indignação, parece difícil resistir à metáfora do câncer. Assim, Neal Ascherson escreveu em 1969 que o caso Slanksy ‘era – é – um enorme câncer no corpo da nação e do Estado da Tchecoslováquia’; Simon Leys, em Sobras chinesas (Chinese shadows), fala do câncer maoísta que está corroendo a face da China’; D. H. Lawrence chamou a masturbação de ‘o mais profundo e perigoso câncer da nossa civilização’; e eu certa vez escrevi, no calor do desespero com a guerra dos Estados Unidos contra o Vietnã, que ‘a raça branca é o câncer da história humana’. (...) As modernas metáforas de doença são todas indelicadas. As pessoas que sofrem da doença real em nada se beneficiam ao ouvir o nome de sua doença constantemente mencionado como a síntese do mal. Só no sentido mais restrito um fato ou problema histórico se assemelha a uma doença. E a metáfora do câncer é particularmente grosseira. Sempre representa um estímulo a simplificar algo complexo e um convite ao farisaísmo, quando não um fanatismo”. (p. 72-3) "

quinta-feira, março 13

Afundações

A pergunta feita pelo jornal do sindicato (Março, 2008) foi: "a extinção das fundações de apoio é positiva para as universidades?"
Me lembrei daqueles exemplos que a gente estuda em lógica informal, sobre perguntas capciosas, indutoras, do tipo "você já parou de bater na sua mulher?"
A Profa. Maristela disse sim, orientando-se pela posição atacadista do Andes, "tomada de posição de projeto de Universidade e de projeto de nação". Ok, entendo, também sou a favor de comer mingau quente pela beirada do prato. Mas o varejão, como fica?
Já o Prof. Koff, em defesa do não, subiu nas tamancas de Maquiavel para invocar uma atitude realista, acabou se queixando daqueles que se aproveitam da crise para bater no cachorro fraco.
O legal é que a conversa continua.
Lembro-me do entusiasmo dos que fundaram a Fatec, numa salinha do Cetê, Benetti entre eles. Eles nunca imaginaram isso que aconteceu. Por outro lado, no movimento docente, o que foi que fizemos, de concreto, para mudar o modelo jurídico das universidades? Esperar por uma mudança no projeto de nação? O que seria isso? Acho boa essa pressão pela transparência, por exemplo. Mas vale perguntar: quem reclamou um ai quando o projeto do Detran não passou pelo conselho universitário? Quem reclamou um ai quando o ex-reitor implementou seu estilo trator, simbolizado ao presidir a reunião que o elegeu?
2008 vai começar amanhã. E não vai terminar muito cedo.

Metáforas



"O desenvolvimento da consciência nos seres humanos está inseparavelmente ligado ao uso de metáforas. Metáforas não são meramente decorações periféricas ou mesmo modelos úteis, elas são formas fundamentais da consciência que temos sobre nossa condição: metáforas de espaço, metáforas de movimento, metáforas de visão."

A frase é de Iris Murdoch, na abertura do ensaio "A soberania do bom sobre outros conceitos".

Lembrei dela ao ler hoje o jornal do sindicato da Ufesm. O editorial tem como título "O câncer que destrói a universidade".
Nele, encontramos as seguintes expressões qualificativas para as fundações universitárias: "câncer que tem consumido a universidade pública", "um tumor a sugar recursos", são "tumores" que é "preciso ter a coragem de extirpar".
O sindicato escolheu metáforas de doença para pensar nossa crise.
Dentre as doenças, escolheu o câncer.
Quero fazer duas observações.
Em primeiro lugar, fiquei surprêso com a escolha de metáforas ligadas à biologia para pensar problemas sociais e humanos. Desde a críticas a conceitos como "país subdesenvolvido", nos anos setenta, achei que o povo havia abandonado esse tipo de matriz retórica; conceitos como "sub-desenvolvimento" ou "doença" supõem, com razão, a tipificação de estados normais de desenvolvimento e saúde. Ora, pensar instituições sociais com essa matriz só pode dar chabu, e isso faz décadas que as ciências sociais se deram por conta. Assim, o editorial descambou para o lado moral.
Em segundo lugar, se eu tivesse câncer, ficaria puto da cara com o sindicato. Ninguém escolhe ter câncer. Ninguém é condenado moralmente por ter câncer. Ninguém é punido por ter câncer. O câncer não é um "mal terrível", como diz o sindicato. É uma doença que ninguém quer ter, mas não há um oposto para ela, um "bem maravilhoso". Assim, o editorial conseguiu ser politicamente incorreto.
Mais do que puto da cara, fiquei chateado.

Sapos


O Diário de hoje tem uma excelente matéria da Jaqueline Silveira, dando conta das relações perigosas entre a Fatec da Ufesm e a Intercorp, a empresa do Lima, não o daqui, mas o de Brasília. A Fatec teria contratado os "serviços" da Intercorp, pagando uns bons tostões em projetos de programas de computadores (aquele que determinou a interdição dos bens do ex-reitor da Ufesm).
O Prof. Rogério Koff, atual presidente da Fatec, de boa vontade e humor, deu a seguinte declaração, conforme o Diário:
Não sei se não tem mais um sapo enterrado.
Mantendo o humor, coisa importante numa hora dessas, eu diria: até pode estar enterrado, mas continua bem vivo.
E são muitos.
Já A Razão conta que a Fatec suspendeu a emissão de carteira de motorista. O setor que fazia os exames foi fechado ontem, até o dia 19 de março, à espera do dinheiro, coisa de dois milhões e meio de reais que faltam no caixa.
A gritaria vai ser grande, pois a Fatec processa mais de 60.000 exames por mês.
Tem um sapo querendo saber o que a Fundae vai fazer com tanto dinheiro. Tem gente que pensa que a Fundae é pouco mais do que uma padaria.
Era mesmo. Virou uma lavanderia, dizem os investigadores no documento da juíza Simone.
O sapo aí de cima me lembra vagamente alguém.

quarta-feira, março 12

Universidades


Bolonha é a universidade mais antiga do mundo, teve seus estatutos aprovados em 1158.
A universidade de Paris foi denominada universitas em 1208, pelo Papa Inocêncio III.
A Ufesm, nos anos sessenta, foi a primeira universidade fora de uma capital.
O povo das capitais dizia que isso não daria certo.
Quando a gente vê o anúncio de certos cursos e palestras de aperfeiçoamento de recursos humanos da Ufesm, nos quais comparecem floristas bachianos, ontopiscólos, terapeutas rolistas e quejandos, lembra do que o povo da capital dizia.
Nem sempre foi assim, é o que consola. Mas já faz um tempo que a esperança anda muito anêmica, atacada pelos gafanhotos.

O Listão da Federal (II)


Na inauguração dos cursos da Universidade do Distrito Federal, no distante ano de 1935, Anísio Teixeira, nomeado seu primeiro reitor, dizia sobre a função das universidades:
"A função da universidade é uma função única e exclusiva. Não se trata somente de difundir conhecimentos. O livro também os difunde. Não se trata, somente, de conservar a experiência humana. O livro também a conserva. Não se trata, somente, de preparar práticos ou profissionais de ofícios ou artes. A aprendizagem direta os prepara, ou, em último caso, escolas muito mais singelas do que universidades. Trata-se de manter uma atmosfera de saber, para se preparar o homem que o serve e o desenvolve. Trata-se de conservar o saber vivo e não morto, nos livros ou no empirismo das práticas não intelectualizadas. Trata-se de formular intelectualmente a experiência humana, sempre renovada, para que a mesma se torne consciente e progressiva. Trata-se de difundir a cultura humana, mas de fazê-lo com inspiração, enriquecendo e vitalizando o saber do passado com a sedução, a atração e o ímpeto do presente. O saber não é um objeto que se recebe das gerações que se foram, para a nossa geração, o saber é uma atitude de espírito que se forma lentamente ao contato dos que sabem. A universidade é, em essência, a reunião entre os que sabem e os que desejam aprender. Há toda uma iniciação a se fazer. E essa iniciação, como todas as iniciações, se faz em uma atmosfera que cultive, sobretudo, a imaginação... Cultivar a imaginação é cultivar a capacidade de dar sentido e significado às coisas. A vida humana não é o transcorrer monótono de sua rotina cotidiana; a vida humana é, sobretudo, a sublime inquietação de conhecer e de fazer. É essa inquietação de compreender e de aplicar que encontrou afinal a sua casa. A casa onde se acolhe toda a nossa sede de saber e toda a nossa sede de melhorar, é a universidade."
Anísio foi, como se sabe, perseguido, cassado, etc.
O tempora, o mores.
A foto acima é do centro de Rocha, Uruguay. Lá não há universidade, nem indústrias, nem empregos. O sonho da gurizada é vir para Santa Maria da Boca do Monte, onde tem universidade.

O listão da Federal


As universidades por vezes são chamadas de “academias”. Diz o Aurélio que a Academia, que era a escola de Platão, localizava-se nos jardins consagrados ao herói ateniense Academus. Academus é um herói mitológico, um semi-deus que vivia distante do povo, como sugere a etimologia de seu nome: héka (longe, distante), e demos (povo).
Academo age independentemente do povo.
Como é possível administrar uma instituição que já foi definida como um lugar onde os professores e os estudantes fazem o que bem entendem e o reitor leva a culpa? Como deixar de lembrar aqui Aluízio Pimenta, que comparou o reitor a um rei momo?
As universidades atravessam os séculos. Elas ainda continuam sendo instituições especiais, com certos privilégios e charmes ou são apenas empresas como outras? Professores, pesquisadores, acadêmicos são mesmo administráveis? Em que sentido? Dentro de quais limites? Sobre isso, vale lembrar o que o sociólogo italiano, Saverio Avveduto, escreveu sobre as reformas da universidade italiana: “a universidade registrava ritmos de renovação tão lentos que fazia pensar naquele rio gálico sobre o qual César escreveu que se movia tão devagar que não dava para perceber em qual dos dois sentidos ele corria.”
Há, no entanto, uma especificidade do trabalho acadêmico que nem sempre é lembrada, e que faz justiça à história de Academo. Pense no caso de uma equipe de pesquisadores competentes. Eles se dedicam a investigar um certo problema: eles querem mapear a genética de uma certa bactéria. Será que pelo simples fato de ter boas condições de trabalho eles conseguirão descobrir ou provar o que desejam, produzir o conhecimento visado, tendo controle completo do tempo que levarão para atingir os resultados que buscam? Pense no que acontece com as pesquisas de cura de certas doenças.
Pense agora no caso de políticos e administradores, que trabalham com orçamentos e prazos.
No primeiro caso, da equipe dos investigadores, como se dá a relação com o tempo? O quanto o tempo é importante, decisivo? E no segundo caso, a relação com o tempo é do mesmo tipo? E qual a relação com o tempo no caso da formação de pessoas?
Gestores, professores/pesquisadores e estudantes tem, cada um deles, uma relação diferente com o tempo.
No âmbito da ação humana o tempo é uma variável sempre presente, no sentido de que, se não agimos, as coisas agem por nós. No domínio da ação humana, o tempo é um constitutivo absoluto. Ao contrário disso, no âmbito do conhecimento humano, em que se procura descobrir ou estabelecer a verdade sobre isso ou aquilo, o tempo é uma variável externa e não decisiva. Dizendo de outra forma: se não descobrimos o que queremos hoje, quem sabe faremos isso amanhã depois ou ainda depois. Há pesquisas que consomem décadas de trabalho, e não é por falta de dinheiro que não se descobre tal e tal coisa. É apenas porque no âmbito do conhecimento, é assim mesmo.
Por exemplo, para lembrar um assunto da hora, o ex-deputado João Luis Vargas rezou para que a verdade sobre o Detran fosse descoberta. Se ela vai ser descoberta ou não, isso nada tem a ver com as preces do atual presidente do Tribunal de Contas do Estado, e sim com os esforços de escuta da polícia federal. E azar do Valdemar. Nesse caso, do Luís.
Nos últimos anos, diz a amiga Marilena, a universidade brasileira vem deixando de ser uma instituição para ser uma organização. Preciso reler o que ela escreveu sobre isso. Mas na prática dá pra ver. Só que o sentido de "organização" é bem especial.
Padrão acadêmico, por exemplo, parece ser uma expressão cada vez mais carente de sentido.
Se não é a versão tupiniquim do "publica ou periga", é a tal da entregração empresa-academia. Bem pertinho do povo.
Na sexta-feira vai sair o tal de listão da Polícia Federal, mais esperado do que o resultado do vestibular.
Que venha.
A Universidade de Bolonha tem um cepeéfe de miletantosanos.
A Ufesm tem só uns quarentaepoucos, mas, com um mínimo de zelo administrativo e sensibilidade humana pode se sair bem dessa. Mas seria bom ter mais opinião, né?
A foto é de Jaguarão, RS, onde não há nem sinal dessas tais de universidades. Bem que Jaguarão queria.