sábado, novembro 10

Devassa

Os jornais de hoje noticiam que a diretoria da FATEC decidiu contratar, por licitação, uma auditoria nos mais de 400 projetos da Instituição, para ver se há algo errado no reino.
Acho que não caiu a ficha para esse povo. Não se deram por conta do tamanho do buraco em que nos metemos.
A UFSM, a partir de agora, vira sinônimo de falcatrua, mesmo que fique provado que a grande maioria dos presos é inocente. Eu não acredito que todos os citados e afastados até o momento sejam desonestos, quadrilheiros, etc. Mas a mancha veio para a instituição, ponto, e vai ser difícil reverter isso.
Isso de fazer auditoria lembra outro rumor que corre na instituição. Um dos projetos da FATEC, que envolvia a área da saúde e uma das empresas citadas no imbroglio, foi motivo de auditoria no ano passado. A empresa contratada, segundo esse rumor, pertence a um dos presos pela PF...
A diretoria da FATEC poderia esclarecer isso, informando ao distinto público qual foi a empresa contratada para fazer a auditoria do projeto distinguido pela atenção da bancada estudantil no Conselho Universitário?
Digamos que venha a tal da auditoria, que vai dizer que está tudo ok ou mais ou menos.
Fica tudo lá dentro.
Tem 400 projetos? Que a FATEC publique uma página na internet, com os seguintes datos:
1. Nome do projeto.
2. Quem o desenvolve?
3. Quais são as instituições e ou empresas que o financiam?
4. Há bolsas e remuneração a docente, servidores estudantes? Para quem e quanto?
Ponto.
Depois disso, que venha a consultoria, auditoria. Antes disso, tudo parece como antes no quartel do abrantes.

quinta-feira, novembro 8

Acabou

Uma das possíveis candidaturas a um dos centros de ensino da UFSM terminou nas páginas da denúncia oferecida pela juiza, que justificou o pedido das preventivas. A ver. O documento da juíza pode ser lido na página do www.claudemirpereira.com.br. Alguém lembra de uma conversa aqui no morana sobre tapetão? A ver. E então tá.

Lista


Começam os protestos no Campus. Haviam hoje dois enormes cartazes como esse, um no arco e outro na frente do Hospital Universitário.
O Departamento de Filosofia fez uma proposta muito interessante hoje ao Conselho Superior da FATEC, por meio do Diretor do CCSH, prof. Koff. O pedido foi que a FATEC publicasse uma página na internet contendo o numero de matricula de todas as pessoas que tem projetos ali, seguidos do valor das bolsas recebidas, das empresas vinculadas, etc. Afinal, essas pessoas são trabalhadores da UFSM, uma entidade publica, e o tempo para esse trabalho é tempo público. Depois e ademais: vamos parar com essa história que todo mundo ganha bolsa. Alguns ganham. Certamente merecem e não temem. Pois vamos mostrar isso, para o povo deixar de ficar falando mal e que não existe transparência-brasil aqui na Ufesm. O Prof. Koff garantiu que iria apresentar essa proposta hoje à tarde. Isso é que é Departamento, meu!

terça-feira, novembro 6

Ex

Pois não é que gogleando se descobre que um certo ex-deputado (na verdade, são quase dois ex-deputados) tem relações de assessoria com algumas das vítimas da prepotência da polícia federal?

O Sitio da Ufesm

São quase onze da noite. Até agora o sítio da Ufesm não disse um "ai". Faz mais de vinte anos que se discute o papel das Fundações de apoio. Há quem diga que as universidades federais não funcionariam sem elas. Pois quem sabe agora, tapados de manchetes, a gente ache um tempo para pensar como as universidades poderiam funcionar sem elas. Os incomodados, quem sabe, deveriam se mudar. E se o ministério público começar a investigar algumas ligações que começam a ser feitas entre professores da Ufesm e instituições de ensino superior bocamontinas para o funcionamento de projetos milionários, envolvendo empresas privadas na outra ponta do triângulo? Eu, hein? Como disse o ex-deputado, rei-tor ou rei-momo?

Fundae

O sítio da Fundae continua fora do ar. Antes que pensem qualquer coisa, ponho minha mão no fogo pelo Mario Gaiger e pelo Padre Chico e vários outros, da direção da Fundae. Não duvido, no entanto, que eles queiram colocar algumas coisas ou outros no fogo.

Yahoo

No Yahoo:
"Segundo policiais que comandaram a operação, o Detran contratava sem licitação a Fundação de Apoio, Ciência e Tecnologia (Fatec), e sua sucessora, a Fundação para o Desenvolvimento e o Aperfeiçoamento da Educação e da Cultura (Fundae), ligadas à UFSM, para elaboração dos exames de avaliação teórica e prática de habilitação de motoristas.
"Como isso não é pesquisa universitária, a licitação era necessária", destaca o delegado Alexandre Isbarrola, chefe do Núcleo de Repressão a Crimes Financeiros da Polícia Federal no Rio Grande do Sul. Na seqüência, as fundações também cometiam a irregularidade de terceirizar os serviços que prestariam ao Detran para empresas privadas, pagando preços superfaturados e também por serviços não prestados.
Quando recebiam o pagamento, as fundações ficavam apenas com o valor equivalentes aos seus custos e repassavam o restante às terceirizadas. Estas, por sua vez, faziam parte da verba chegar aos agentes públicos que haviam dispensado as licitações."
O que me parece: alguém fez sarcasmo com os promotores e procuradores e eles aceleraram o troco. Se houver prova do superfaturamento e serviços não prestados, aí, como diria o Mestre, bomba atômica. Caso contrário, chabu radioativo.

Imprensa: O Globo digital

"A Polícia Federal já cumpriu 12 mandados de prisão durante a "Operação Rodin", desencadeada em conjunto com a Receita Federal e o Ministério Público, na manhã desta terça-feira (6). O objetivo é desmontar uma quadrilha suspeita de desviar recursos do Departamento Estadual de Trânsito (Detran). A Receita Federal estima que cerca de R$ 40 milhões tenham sido desviados dos cofres públicos desde 2002.
Segundo as investigações, o grupo utiliza fundações de apoio universitário e empresas administradas por "laranjas".
A operação foi desencadeada em Porto Alegre e Santa Maria, no Rio Grande do Sul, e São Luís, no Maranhão. Catorze mandados de prisão temporária foram expedidos pela Justiça Federal, a requerimento da Procuradoria da República.
O seqüestro de bens e de contas bancárias, além da realização de buscas de documentos e computadores foram autorizados pela Justiça. Cerca de 50 auditores e analistas da Receita Federal e 250 policiais federais participam da operação nos dois estados.
Na investigação, a polícia federal identificou que a organização atuava no Detran/RS, efetuando contratos para a avaliação teórica e prática na habilitação de condutores de veículos automotores -- sem licitação -- com fundação de apoio universitária. Os serviços eram prestados com a utilização da estrutura física e de pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (Ufsm).
Na fraude, os responsáveis efetuavam subcontratações ilegais, cujos serviços, quando prestados, eram superfaturados. Tanto o Detran/RS quanto a Ufsm são vítimas do grupo investigado.
Os presos vão responder pelos crimes de formação de quadrilha, fraude a licitações, tráfico de influência, sonegação fiscal e estelionato."

Coperves

O Prof. Jorge Cunha assumiu temporariamente a presidência da Coperves. O Prof. Dario foi afastado, temporariamente. A notícia não saiu ainda no sitio da Ufesm, que por enquanto - 18.09 - desconhece o assunto. As prisões - chegariam a uns 10 ou 12 ao todo, entre os da casa e dos de fora - são temporárias, como se sabe, para investigação e pirotecnias. A ZH chegou a dizer que o ministro Tarso Genro recomendou não liberar assim no mais os nomes, de pessoas e de empresas. Então tá, de novo.

Assunto antigo por aqui

O leitor curioso leia as postagens aqui do "morana" feitas no dia 7 de maio de 2006, "Daqui para frente" e "Afundações". Um dos citados ali vai passar uma ou duas noites dando explicações na PF.

Reitoria

A Reitoria sabia disso? Lasier Martins, da Rádio Gaúcha entrevista o vice-reitor da Ufesm. Ele responde que o acontece lá na Fatec não é da responsabilidade da Reitoria. Então tá.

Afundações

Uma fundação com sede em Santa Maria presta serviços em Viamão. Veja o que o sítio da cuja informa:
"Em Viamão, o Programa Nacional de Inclusão de Jovens: Educação, Qualificação e Ação Comunitária (ProJovem) está sendo desenvolvido desde novembro de 2006, quando foi assinado o contrato entre a Prefeitura e a Fxxxxx. As atividades estão previstas para começar em janeiro de 2007 com a implantação de 05 núcleos e a Fxxxxxx já selecionou os educadores que irão atuar no Programa e que em breve estarão sendo contratados."
Esse ProJovem vai dar o que falar.

Much

Much ado, vai dar chabu. Não senti muita firmeza na operação. Mas ficará essa fumaceira horrível em torno da Ufesm. O curioso é que durante o dia algumas páginas na internet foram desaparecendo. Estou tentando entrar na página da Fundae, por exemplo, e ela está fora do ar desde as onze da manhã.

Núcleo Pensante

Diz o delegado Alexandre, em entrevista para a Rádio Gaúcha, que havia um "núcleo pensante" que "bolava as operações" em Santa Maria, na Universidade...

Na Folha

Folha Online
A Polícia Federal prendeu nesta terça-feira ao menos 12 acusados de fraudes em contratos públicos realizados pelo Detran (Departamento Estadual de Trânsito) do Rio Grande do Sul.
A operação Rodin também já cumpriu 43 mandados de busca em apreensão em Porto Alegre, Canoas e Santa Maria.
Estimativas da Polícia Federal apontam prejuízos de cerca de R$ 40 milhões aos cofres públicos desde 2002. De acordo com as investigações, o órgão contratava, sem licitação, a Fundação de Apoio, Ciência e Tecnologia da UFSM (Universidade Federal de Santa Maria).
A fundação seria a responsável pela avaliação teórica e prática para habilitação de condutores de veículos automotores, e usava a estrutura física e os servidores da universidade.
Os presos devem responder pelos crimes de formação de quadrilha, fraude a licitações, tráfico de influência, sonegação fiscal, estelionato, peculato e corrupção ativa e passiva.

Pensando bem

A escultura mais conhecida de Rodin chama-se "O Pensador". Uma das empresas que presta serviços as afundações
(afinal, são duas afundações boca-montenses) que prestam serviços ao Detran tem um nome parecido com esse, pensare, pensant, algo assim. Alguém na PF não resistiu à ironia, dupla, quem sabe, para cutucar os pensadores.

Nunca antes

Deu no sítio da Polícia Federal:
"OPERAÇÃO RODIN DESMONTA ESQUEMA DE FRAUDE EM CONTRATOS PÚBLICOS
PORTO ALEGRE/RS - A Polícia Federal desencadeia, na manhã de hoje, 06, a Operação Rodin, que desarticula uma quadrilha especializada em fraudes em contratos públicos realizados pelo Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Sul (Detran-RS). Participam da ação 252 policiais federais e 46 servidores da Receita Federa que já cumpriram 12 mandados de prisão temporária e 43 mandados de busca em apreensão em Porto Alegre, Canoas e Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Estimativas da Polícia Federal apontam prejuízos de cerca de R$ 40 milhões aos cofres públicos desde 2002. De acordo com as investigações, o órgão contratava, sem licitação, a Fundação de Apoio, Ciência e Tecnologia (FATEC) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Esta fundação seria a responsável pela avaliação teórica e prática para habilitação de condutores de veículos automotores, e usava a estrutura física e os servidores da universidade. Ocorre que esse tipo de contratação só é permitida para a promoção de ensino, pesquisa e extensão, mas os responsáveis legais burlavam a legislação e efetuavam a subcontratação de empresas que prestavam serviços superfaturados ou inexistentes. Funcionários dessas empresas eram ligados, indiretamente, a determinados dirigentes do órgão estadual, os quais eram responsáveis pelas licitações ou pela dispensa delas, e que recebiam benefícios pecuniários indevidos em razão do esquema. Os presos estão sendo encaminhados para a Superintendência Regional da Polícia Federal no Rio Grande do Sul, onde serão ouvidos. Eles responderão pelos crimes de formação de quadrilha, fraude a licitações, tráfico de influência, sonegação fiscal, estelionato, peculato e corrupção ativa e passiva. Também participaram das ações o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, o Tribunal de Contas do Estado do Rio Grande do Sul e a Receita Federal. Será concedida entrevista coletiva na Superintendência Regional da Polícia Federal em Porto Alegre às 14h30 , localizada na Av. Ipiranga, 1365 – Porto Alegre/RS."

Operação Rodin


Deu no Claudemir Pereira:

"Operação Rodin. Ação contra fraude envolve Fatec, UFSM e Detran. Já são 12 pessoas presas
Santa Maria está em ebulição. Pelo menos as que, de alguma maneira, são ligadas à UFSM. Já teriam sido detidos, segundo informações divulgadas pelas emissoras de rádio da cidade, o presidente da Coperves/UFSM, Dario Trevisan, o ex-reitor da UFSM, Paulo Sarkis; e o diretor geral da Fundação de Apoio à Ciência e Tecnologia (Fatec), Luiz Pelegrini. Informações oficiais a respeito ainda não foram divulgadas pela Polícia Federal, que realiza a operação que já prendeu 12 pessoas no Estado, inclusive o presidente do Detran-RS, Flávio Vaz Neto - como conta reportagem distribuída pela versão digital do jornal Zero Hora."

Pós-escrito: no dia 7, quarta-feira, a informação acima foi confirmada apenas em parte. Paulo Sarkis e Luiz Pelegrini não haviam sido detidos.

A ver

Achei a coisa meio mal descrita. O triângulo UFSM/FATEC/Detran sempre foi público. O próprio governador do Rio Grande esteve ali na sede hoje invadida pela Policia Federal, de manhã cedo, inaugurando o programa "Trabalhando pela vida". O problema é essa acusação: "Os responsáveis legais estariam burlando a legislação e efetuariam a subcontratação de empresas que prestavam serviços superfaturados ou inexistentes." A ver.

Zero Hora

Deu na Zero Hora Digital:
"A Polícia Federal realiza desde a madrugada desta terça operação para desarticular um grupo suspeito de realizar fraudes em contratos públicos realizados pelo Departamento Estadual de Trânsito do Rio Grande do Sul (Detran- RS). Entre os presos estão o atual diretor-presidente do órgão, Flavio Vaz Netto, e o ex-diretor-presidente Carlos Ubiratan dos Santos. A prisão é temporária para efeitos de investigação.
Participam da operação 252 policiais federais e 46 servidores da Receita Federal, que já cumpriram 12 mandados de prisão temporária e 43 mandados de busca em apreensão em Porto Alegre, Canoas e Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Estimativas da Polícia Federal apontam prejuízos de cerca de R$ 40 milhões aos cofres públicos desde 2002. De acordo com as investigações, o órgão contrataria, sem licitação, a Fundação de Apoio, Ciência e Tecnologia (FATEC) da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). De acordo com a PF, esse tipo de contratação só é permitida para a promoção de ensino, pesquisa e extensão. Mas os responsáveis legais estariam burlando a legislação e efetuariam a subcontratação de empresas que prestavam serviços superfaturados ou inexistentes.
Também participaram das ações o Ministério Público Federal, o Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul, o Ministério Público de Contas do Estado do Rio Grande do Sul e a Receita Federal."

Explicações

É bom que venham e que sejam claras, de um lado e de outro. O que a cidade espera é que tudo seja muito bem esclarecido. O preço que a Ufesm vai pagar pela madrugada de 5 de novembro será muito alto.

Afundações

Afundou.

Um dia bom

"Porque assim é a natureza humana: as penas padecidas simultaneamente não se somam em nossa sensibilidade; ocultam-se, as menores atrás das maiores, conforme uma lei de prioridades bem definidas." (Primo Levi, É Isso um Homem? Editora Rocco, 1988, p. 83)

segunda-feira, novembro 5

A Vida de Johnson


Em meio a uma discussão sobre provas e refutações em Filosofia, na aula da semana passada, lembrei de recomendar a um aluno em apuros alguns procedimentos inspirados pelas narrativas de Boswell em "Life of Johnson". Aqui vai o original:
"After we came out of the church, we stood talking for some time together of Bishop Berkeley's ingenious sophistry to prove the non-existance of matter, and that every thing in the universe is merely ideal. I observed, that though we are satisfied his doctrine is not true, it is impossible to refute it. I nevel shall forget the alacrity with Jonhson answered, striking his foot with mighty force against a large stone, till he rebounded from it, "I refut it thus.! This was a stout exemplification of the first truths of Pere Bouffier, or the original principles of Reid and of Beattie; without admitting which, we can no more argue in metaphysicks, than we can argue in mathematics without axioms."
(Life of Samuel Johnson, LL.D, by James Boswell)

sexta-feira, novembro 2

Ensino noturno

Saí do prédio do CCSH ontem por volta de 22.25, depois de aplicar uma prova. Caía uma chuvinha fina. Meu carro era o único no estacionamento.

terça-feira, outubro 30

Os 18 da UFSM

Acabou o prazo para a UFSM aderir ao Reuni. Ficamos no grupo de universidades federais que passaram o recibo de não ter dezoito alunos por professor. Há quem diga que aderiu ao Reuni somente o povo do fundão do Brasil. Sei não, a UFRJ só é fundão por apelido do bairro. Enquanto isso, a afundação vai em frente, rumo ao interesse de cada um. Em tempo: parece que faltam quatro alunos para cada professor. Eu acho que tenho vários sobrando...

O Sócrates do Brecht

O texto abaixo intitula-se “Sócrates” e pode ser lido no livro de Bertold Brecht, "Histórias do Senhor Keuner", tradução de Luís Bruhein, Hiena Editora, Lisboa, 1993.

Ao acabar de ler um livro de história da filosofia, o senhor K. emitiu um juízo desfavorável sobre as tentativas dos filósofos para apresentar as coisas como fundamentalmente incognoscíveis. 'Quando os sofistas afirmavam que sabiam muito sem ter estudado nada', disse ele, 'surgiu o sofista Sócrates a garantir com arrogância que apenas sabia que não sabia. Esperava-se que acrescentasse à frase: porque eu também não estudei. (Para se saber alguma coisa há que estudar.) Parece, no entanto, que nada mais disse, embora os estrondosos aplausos a essa primeira frase, que duraram dois mil anos, chegassem para abafar qualquer outra frase que viesse a seguir.'

segunda-feira, outubro 29

Porto Alegre, lado B

 

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Centro de Porto Alegre, visto do décimo-sétimo andar do Hotel Continental, amanhecer de sábado, 27 de outubro.

Everson

 
Everson apresentou uma comunicação sobre cinema e filosofia.

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Patrícia

 
Patrícia Ketzer falou sobre problemas de interpretação de textos filosóficos.

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Mariano, Katiuska, Tatiana

 
Mariano, Katiuska e Tatiana apresentaram em Uberlândia os trabalhos que desenvolvem sob a orientação da professora Elizete Tomazetti.

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Gisele Secco

 
Gisele Secco apresentou um trabalho de análise das questões do vestibular da UFSM.

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Desidério

 
Desidério Murcho falou, no evento da UFU sobre ensino de filosofia, sobre a natureza da filosofia e seu ensino.

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domingo, outubro 28

Estação UFU


Estação da Universidade Federal de Uberlândia, MG.

Webbom

O nome é estranho: http://www.webbom.pt
O site é de uma livraria portuguêsa. Ali se pode comprar o Arte de Pensar e as outras produções do grupo. Fiz a compra da nova versão e do livro de textos de filosofia faz poucos minutos, vamos ver quanto tempo leva para chegar até a boca do monte. Fica muito mais em conta do que nas livrarias paulistas, nas quais estão pedindo mais de cem contos pelo Arte.
Quando chegar eu conto.

sábado, outubro 27

Uma impressão, by the way

Last but not least? A frase abaixo sobre "the last military dictatorship" dá a entender que a fila é grande e pode andar. Getúlio, nacionalista e populista, é um fenômeno de outra natureza. Não gostei.

Relatório da Unesco sobre Filosofia: uma polêmica

O Relatório da Unesco sobre Filosofia despertou uma polêmica. Nele há um box de informações sobre a situação do ensino de Filosofia no Brasil, assinado pelo Prof. Walter Kohan. No Jornal da Ciência, o Prof. Paulo Ghiraldelli publicou uma resenha do relatório (http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=51713) na qual, num trecho, atribui ao Prof. Walter Kohan diversos erros de fundo histórico. Kohan "traz informações distorcidas a respeito da história da educação brasileira e sua relação com a prática da filosofia nas escolas", diz Ghiraldelli. Entre esses erros estaria a forma como Kohan conta a história das relações da ditadura militar com a filosofia na escola média.
Li o artigo de Paulo e o de Kohan. Kohan de fato foi impreciso. Ele passou por cima do fato que o ensino de Filosofia seguiu em frente em muitas escolas apesar das leis que deixaram de lhe consagrar um lugar nobre no currículo. Essa falta de precisão ocorre em nove entre dez comentários sobre ensino de Filosofia no Brasil. A imprecisão de Kohan está contido na frase "with the establisment of the military dictatorship, philosophy was again officially deleted from the secondary curriculum by law 5692". Algumas linhas depois ele repete a mesma idéia, escrevendo que a disciplina foi "excluded by the last military dictatorship".
Segundo Ghiraldelli, Kohan, ao dizer isso, "endossou um erro fatal a respeito da história do ensino de filosofia no Brasil, que é a conversa sobre a repressão da Ditadura Militar à filosofia."
Transita com facilidade essa afirmação sobre a história de nossa disciplina, que atribui aos militares a "exclusão" da Filosofia dos currículos. Pouca gente qualifica o tópico ou vai aos detalhes. Vamos aos fatos. A ditatura militar, por meio de seus prepostos e fantoches, nunca publicou ou mandou publicar um documento "oficial", excluindo, deletando ou proibindo o ensino de filosofia. Alguns professores de Filosofia nas universidades foram cassados, (Ernildo Stein, por exemplo!), a disciplina tornou-se opcional nos currículos, mas não foi "officially deleted" por algum decreto ou norma com o brasão da coisa pública. A menos que Kohan estivesse aqui a pensar que a falta de menção à Filosofia na lista de disciplinas do núcleo comum do currículo significasse ser "officially deleted". Todos sabemos que na parte diversificada muitas escolas a mantiveram sem problemas.
Eu estudei no Maneco, em Santa Maria, RS, entre 1968 e 1970, e havia Filosofia. A partir de 71, ano da Lei 5692, algumas escolas fizeram a opção de mantê-la. O Maneco a manteve, fiz meu estágio ali em 1973, na terceira série noturna. E a disciplina continou existindo na escola até hoje. Ali a Filosofia não vai voltar ao currículo, pois dele nunca saiu, tendo sido, através de quase quarenta anos, local dos estágios curriculares do curso de filosofia da UFSM. Casos como o do Maneco não foram a maioria mas houve permanência, sim.
Kohan ofereceu a versão vaga e pouco acurada da nossa história, que, de resto, é repetida pela maioria dos estudos sobre o assunto. Essa versão da exclusão colide com os fatos. No Rio Grande do Sul, nos anos setenta, havia cursos de Licenciatura em Filosofia na UFRGS e na PUC de Porto Alegre, em Viamão, em Pelotas, em Caxias, em Santa Maria, em Ijuí, em São Leopoldo, etc, e em todas essas cidades houve ensino de Filosofia no nível médio ininterrupto desde o início dos anos sessenta.
Conversei com um professor que conhece bem a experiência de Portugal. Ele disse que o relatório sobre a situação portuguêsa não é bom. Bem, talvez tenhamos que ler o relatório da Unesco "com água no bico", como s diz no Algarve.
As frases que citei de Kohan estão na página 78 do relatório.

terça-feira, outubro 23

"A filosofia como escola de liberdade"

Está na web o relatório da Unesco, “Philosophy: A School of Freedom”. O relatório é dedicado ao ensino e aprendizado de Filosofia, e é um grande levantamento sobre a situação do ensino de filosofia em todo o mundo. Começa com filosofia e crianças, ensino médio, universitário e vai em frente, em trezentas páginas que podem ser lidas em inglês ou francês. O documento pode ser baixado no endereço de documentos da Unesco:
http://unesdoc.unesco.org
Vale a pena ler. Para além de um relatório, o documento inclui sugestões de metodologias e atividades. Chamou-me a atenção o capitulo sobre atividades interdisciplinares, a partir da página 95, da versão em inglês.

segunda-feira, outubro 8

Concurso

"O Estado do Paraná realizará no dia 25/11/2007 um novo concurso público para contratação de 186 professores de filosofia para atuarem no ensino médio. As vagas estão distribuidas por todas as regiões do Estado do Paraná.
Para maiores informações vocês podem acessar o site www.diaadiaeducacao.pr.gov.br ou o site do núcleo de concurso da UFPR www.nc.ufpr.br e consultar o edital do concurso."

quinta-feira, outubro 4

Jeff Malpas

 
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Mudança

O leitor atento do sítio "Crítica na Rede", dos melhores em nossa língua, não terá deixado passar desapercebido a mudança de endereço profissional de Desidério Murcho. A notícia ali é essa:
"Os leitores brasileiros podem agora subscrever a Crítica em reais, fazendo uma transferência bancária para o Banco do Brasil, Agência 0473-1 Ouro Preto, conta número 19.742-4 (nome: Desidério Murcho). A assinatura semestral custa 50 reais; a mensal custa 10 reais. Nesta modalidade, não há assinatura diária. Depois de efectuada a transferência, envie um e-mail com o seu nome; receberá os seus dados de acesso por e-mail."
Ganha a UFOP, ganha a filosofia no Brasil com a presença de Desidério entre nossos quadros. Seja benvindo, Professor!

segunda-feira, outubro 1

Ensino médio

Deu na Folha de hoje:
"Quase a metade dos estudantes do Estado de São Paulo acaba o ensino médio (antigo 2º grau ou colegial) com conhecimentos de escrita e leitura esperados para um aluno de oitava série. O resultado aparece em dados inéditos do último Saeb, exame de avaliação de aprendizagem. Nas escolas públicas, a situação é ainda mais dramática."

sábado, setembro 29

quarta-feira, setembro 26

Loraine Oliveira e Plotino

A Professora Loraine Oliveira, pesquisadora do GT de Neoplatonismo da Anpof, estará em Santa Maria nos dias 2, 3 e 4 de outubro, minitrando um minicurso sobre Plotino. O título é "O mito na filosofia de Plotino". As aulas serão no prédio do CCSH no Campus, prédio 74, sala 2323, pela tarde. Informações pelo mail minicursoplotino@gmail.com. O curso é gratuito.

Jeff Malpas em Santa Maria

Na próxima segunda-feira, dia 1 de outubro, às 19h.30min, no Anfiteatro da Cesma, teremos uma palestra com o Prof. Jeff Malpas, com entrada franca. O título é "Geografia, Biologia e Política: Heidegger, sobre Lugar e Mundo". A palestra será em inglês, com disponibilização de tradução pelos organizadores. O Prof. Jeff é australiano, leciona na Universidade da Tasmânia e entre seus livros estão Donald Davidson and the Mirror of Meaning, de 1992 e Place and Experience: A Philosophical Topography, de 1999. É organizador de diversos volumes. Em português, ao que sei, é autor de um dos capítulos do livro Davidson e a Filosofia, organizado por Plinio Smith e Waldomiro Silva Filho.

sábado, agosto 18

Balthazar Barbosa Filho

O Prof. Balthazar Barbosa Filho faleceu hoje. Será cremado no domingo, dia 19, às 16.00 horas, no Crematório Municipal de Porto Alegre.
A morte do Prof. Balthazar fecha um ciclo no ensino de Filosofia no Rio Grande do Sul. Eu o conheci em julho de 1977, quando fiz um curso na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, intitulado “Conhecimento e Fundamento: Esboço de uma teoria analítica do conhecimento”, em um curso de especialização em Filosofia. Naquela época isso era o máximo em termos de pós-graduação. Tive como colegas Valério Rohden, Rejane Carrion, Jaime Rabelo e outros. Tempos depois Balthazar, que era professor na Unicamp, veio trabalhar em tempo integral em Porto Alegre. Muitos anos depois, em 1992, voltei a fazer estudos com ele, no já então curso de Doutorado em Filosofia na UFRGS.
Em uma hora de luto como essa fico pensando que depois de trinta anos o que consegui fazer profissionalmente teve a influência de alguns nomes. Do povo da Filosofia da UFRGS, preciso escrever os nomes de Ernildo Stein, Valério Rohden, Rejane Carrion, Paulo Faria e Balthazar Barbosa Filho; sem essas companhias eu não pensaria a filosofia na forma como a vejo hoje, cada vez mais próximo do espírito desses versos que li, pela primeira vez, quando fui aluno de Carlos Scarinci em 1970:

We shall not cease from exploration
And the end of all our exploring
Will be to arrive where we started
And know the place for the first time

Eu me lembro deles nessa hora de despedida de Balthazar. Espero que tenha morrido em paz.

quinta-feira, agosto 2

Incentivo para docentes

Circula a seguinte notícia: O MEC, em 2008, vai lançar um programa para fortalecer a formação de professores.Os estudantes universitários que pretendem ser professores terão um incentivo, com um programa chamado "Programa Institucional de Bolsas de Incentivo à Docência (Pibid). O ministério diz que com isso quer "corrigir as lacunas na formação de professores para os ensinos fundamental e médio, especialmente nas áreas ligadas à ciência, como Matemática, Física, Química e Biologia."
Mingau pela beirada, até certo ponto. Se o MEC quisesse mesmo melhorar a formação dos professores, fecharia os departamentos de metodologia de ensino, removendo os respectivos docentes para suas áreas originais de trabalho. É impressionante como se mantém essa esquizofrenia, que todo mundo vê mas ninguém tem coragem de meter a mão. Minto. O Departamento de Geografia da Ufesm teve essa coragem e desembarcou o cujo departamento.

segunda-feira, julho 30

Odisséia

Reconciliado com Penélope e tendo devastado os pretendentes, Odisseu vai ao encontro de seu velho pai, Laertes, e junto com ele liquida mais alguns desafetos. Assim termina a Odisséia, da qual continuo dizendo: Donaldo Schüler fez um belo trabalho! Aproveitei as longas horas de espera entre Congonhas e Guarulhos e terminei o terceiro volume - Ítaca - que contém as histórias de Odisseu de volta à sua terra, como se infiltra em sua própria casa e ali promove a chacina dos pretendentes à mão de sua dileta. O texto, vertido do grego por Donaldo Schuler, traz até algum regionalismo, como esse na página 237 do segundo volume: "Guascaços de água arrombam paredes, quebram barrotes, arrancam a quilha, que monta no dorso da onda afoita." Guasca, para quem não sabe, é uma tira de couro ou uma forma de chamar o gaúcho, guasca de fora, como se diz. Mas está no Houaiss. Outras vezes Schuler concede-se a liberdade de recriar o texto de uma forma radical, usando e abusando de xingamentos que farão os homeristas corar: "Com essas ameaças Iros tremia de cu na mão", na passagem em que Odisseu, disfarçado de mendigo em sua própria casa, é desafiado por outro mendigo, Iros, que vai sentir a força do braço do herói. Como essa, há uma boa dúzia.
Quem sabe depois do Harry Potter, que afinal, morreu, a gurizada começa a encarar o Odisseu varão astucioso?

sábado, julho 28

Tendências

1. Haverá, penso eu, uma pequena explosão na área de manuais e bibliografias auxiliares; mas o MEC parece ter firmado posição, no sentido de apoiar a elaboração, a cargo da Anpof, de um livro de referência, escrito por professores renomados para professores; o MEC, no caso da Filosofia, não vai indicar livro didático; poderá haver um refinamento das sugestões de conteudos, mas sem imposições de nenhum tipo, pois a realidade não comporta isso; por outro lado, o grupo dos que entendem o ensino de filosofia como "adquirir o instrumental crítico para atuar numa perpectiva transformadora" parece ser ainda muito forte, em especial em São Paulo, e estes estão dispostos a lutar por programas mais definidos.
2. O sistema universitário está alheio ao ensino de filosofia. Nenhum professor da USP ou da PUC de SP foi ao encontro; os palestrantes, em grande parte, apenas davam a palestra e iam embora; não há um clima de produção teórica, não houve nenhuma boa vontade em criar-se uma fórmula que permitisse troca de experiências entre os participantes; é como se todos já soubessem o que fazer, bastando criar-se um momento de expressão e protesto contra problemas conjunturais, como o desinteresse do Estado de São Paulo em apoiar o ensino de Filosofia. Se isso persistir, o ensino de Filosofia no médio cada vez mais será algo que não terá nada a ver com o ensino de filosofia nas universidades; em suma, estamos à beira de um pequeno desastre.
3. Pouco se estuda, pouco se lê; apenas uma pessoa, em todo o evento, em uma das intervenções de dois minutos, fez sugestões de leituras não esperadas; foi um professor de Ribeirão Preto, leitor de Pierre Hadot. Foi comovente e dissonante, em meio aos apelos generalizados por "filosofias da libertação", ufa, ufa e mais bufa.
4. Os palestrantes, felizmente, apontaram para rumos importantes; Salles e Severino foram muito claros em falar em escola, currículo e pressionaram os participantes para sair da casinha filosófica e ler as Orientações Curriculares, as 500 páginas; Gallo, Apel e Favareto também foram objetivos em suas posições, não ficaram comendo mingau pela beirada, o que costuma ser a regra nesses debates. Mas fica-se com a certeza que o caminho vai ser comprido, há muito o que se fazer, em especial, há muito o que se estudar para sair-se da superficialidade.
5. Em especial, a escola continua sendo o alvo do dicionário das idéias feitas. Lucia Lodi teve toda a razão em chamar a atenção para o fato que a Filosofia não pode ir para a escola assim no mais, sem se dar conta dos problemas pelos quais passa o ensino no Brasil, em especial as dificuldades de ensino-aprendizagem.
6. No mais, há muitas diferenças importantes entre Sociologia e Filosofia. Enquanto os sociólogos falavam sem pudor em problemas trabalhistas e sindicais dos sociólogos, os filósofos apenas escutavam, pasmos. Para eles, que trabalham dentro de uma tradição de 2.500 anos, não faz sentido falar em sindicato de filósofos. Tampouco se pode falar em regulamentação da profissão...
7. Dos anões, como diria Mestre Guina, sou o menor; mas não me convidem para conversas gerais; nunca mais ponho meus pés em eventos que, em vez de ensino de filosofia, querem discutir apenas a filosofia do ensino.

Departamentos de Metodologia de Ensino

Uma das moções a ser votada no final do evento assim rezava:
"As disciplinas de Sociologia da Educação e Metodologia e Prática de Ensino em Sociologia devem ser ministradas por sociólogos e devem ser alocadas nos cursos de Ciências Sociais e respectivos departamentos de sociologia, bem como os cursos de Filosofia da Educação e Prática de Ensino em Filosofia devam ser lecionados especificamente por professores de Filosofia e devem ser alocadas respectivamente nos Cursos de Filosofia e não nas Faculdades de Educação das Universidades".
A redação não é boa, mas se entende o espírito. Em todo o caso, a votação da moções finais foi um dos momentos mais tristes do evento, pois era um arremedo de luta sindical com troca de acusações e disputas fúteis por detalhes.
O povo em geral ficou muito triste, pois muita gente foi para São Paulo, em pleno caos aéreo e na maioria dos casos em longas viagens de onibus, para discutir ensino, e o que se via era uma disputa tola por detalhes, sintoma de disputas entre tendências e posições políticas.

Metodologia severina

Antonio Joaquim Severino referendou as posições de Silvio Gallo. É preciso superar as posições idealizadas sobre o papel da filosofia, da educação e da escola; não podemos esperar delas mais do que podem dar, como se ouve por aí nos diversos salvacionismos invocados para solucionar os problemas da humanidade; a filosofia não pode ser confundida com messianismo ou chave universal. Ela deve estabelecer uma parceria com as demais disciplinas escolares, em espírito inter e multidisciplinar; o professor de filosofia deve conviver com a prática efetiva das demais disciplinas, conhecer seus conteúdos, acompanhá-los. A Filosofia, mais do que um acervo de habilidades ou de erudição, deve representar, no currículo, uma possibilidade de amadurecimento da experiência conceitual do educando. Nesse sentido Severino acompanhou as posições de João Carlos Salles Pires.
Os debates foram razoáveis; faltou tempo, pois a sessão começou muito tarde. Houve de tudo um pouco; as críticas a Deleuze e a essa idéia de "criação" de conceitos (que de resto havia sido amenizada por Gallo que falou, em certo momento, em "recriação" de conceitos; os projetos pedagógicos das escolas são documentos apenas formais, que nada refletem de um planejamento conjunto, coisa que se deve buscar; esse tema foi objeto da fala da presidente da Anfope, profa. Helena, que não deixou de lembrar as dificuldades e impasses na formação de professores.

A mesa da metodologia

O cardápio da mesa de metodologia foi servido por Silvo Gallo e Antonio Joaquim Severino. Foi de bom tamanho, não ficaram atrás da outra mesa. Silvio Gallo começou dizendo que é impossível dissociar o quê e como ensinar, no caso da Filosofia. Que a Filosofia não é uma só, e que precisamos tomar partido para não cair no ecletismo. Devemos declinar de qual perspectiva filosófica falamos, é preciso tomar uma posicão sobre o que é Filosofia. Entende que há três eixos para o currículo: temático, histórico e problemático. Quanto a ele, entende a Filosofia na perpectiva de Deleuze e Guatari, como atividade de criação de conceitos. Ele considera boa essa posição pois ela entende a filosofia como uma atividade de pensamento, define o objeto e o produto da mesma - o conceito - e tem a pretensão de validade universal, delimitando o campo de ação da Filosofia, criacão de conceitos. Considera que essa posição supera a armadilha contida na definição da filosofia como atitude, pois ficar nisso implica uma perda de conteúdo filosófico; evita-se, também, o conteudismo absoluto, que faz do ensino de Filosofia uma transposição de conteudos prontos. Não basta ensinar conceitos prontos, há uma pedagogia do conceito, um exercicio da paciência do conceito, contida na posição de Deleuze, entende Gallo. Depois disso ele expos os quatro passos metodológicos: a sensibilização, a problematização, a investigação e a finalização. Em primeiro lugar a aula consiste na mobilização do estudante para um problema filosófico, com os mais variados recursos, de modo que ele crie empatia com um problema; vale até usar um rap, diz ele. No segundo momento o tema vira um problema; no terceiro o estudante pesquisa na história da filosofia os conceitos criados sobre o tema; no final ocorreria a recriação do conceito do filósofo, no qual o estudante pode, em algum sentido, inventar ou reinventar um conceito que faça sentido para ele. Com isso se pode ver o professor de Filosofia como um intercessor ou mediador, que sai de cena no minuto final.

A mesa dos conteúdos


No dia 23 à tarde tivemos a mesa sobre conteúdos de ensino, na qual falaram João Carlos Salles Pires e Celso Favaretto. Salles perguntou aos participantes - eram umas trezentas pessoas - quem ali havia lido todas as Orientações Curriculares do MEC. Apenas uma moça levantou a mão. Salles convidou todos a conhecer a totalidade dos documentos, e não apenas o documento da Filosofia, em defesa de uma forma de trabalhar com Filosofia que valoriza a contextualização da escolarização do estudante. Explicou que os conteúdos listados no documento da Filosofia são sugestões que originalmente destinavam-se a avaliar os currículos de graduação, e que não devem ser pensados como conteúdos mínimos de ensino; reforçou os argumentos contrários à política de livro didático privilegiado e em favor de antologias ou livros de referência; as respostas que podemos dar sobre o que ensinar, para um país do tamanho do Brasil, são "precisamente vagas". Salles defendeu uma maior aproximação entre o sistema de pesquisa, composto pela rede de Departamentos e dos cursos de pós-graduacão em Filosofia, e o ensino de Filosofia no médio; contou que ele mesmo está empenhado em trabalhos de formação na Bahia; sem esse tipo de política haverá um progressivo distanciamento com consequencias ruins para ambos.
Celso Favaretto falou a seguir, abordando o tema das condições concretas para a legitimação da disciplina de Filosofia nas escolas. Como podemos e devemos pensar a filosofia disciplinarmente, em termos de aprendizagens filosóficas desejáveis e possíveis para alunos de ensino médio? Reconhecendo as dificuldades de se pensar em conteúdos de filosofia, já que ela, acima de tudo oferece uma certa experiência de pensamento, uma certa orientação de pensamento, ele teve a coragem de se perguntar de seria possível a gente chegar a um acordo sobre algumas funções e conceitos gerais, "coisas muito gerais, muito de base", certos conjuntos mínimos de regras, processos, procedimentos fundamentais, presentes nas argumentações humanas, para, a partir daí, se chegar inclusive aos textos e à história da filosofia. Conceituar, argumentar e problematizar seriam uma tríade de procedimentos a ser focados, valorizando-se uma certa inseparabilidade entre conteúdos e procedimentos filosóficos. Celso não defendeu um consenso sobre conteúdos mínimos, mas sim um acordo sobre uma formação básica que envolve o domínio de "regras de funcionamento que ligam os conceitos"; reconheceu o longo caminho que isso supõe que percorramos. Foi das melhores, a mesa sobre conteúdos.

Ensino Médio


Na mesa sobre ensino médio quem falou primeiro foi o Prof. Emmanuel Appel, que defendeu o ensino de filosofia no nível médio baseado nos textos dos filósofos: "A filosofia some sem os clássicos, cujos textos devem ser a primeira e a última referência do ensino de filosofia no nível médio". Essa posição, diz ele, deve representar um enfrentamento à indústria cultural e ao barateamento dos conceitos. Lúcia Lodi, do MEC, organizadora dos PCN e das Orientações Curriculares, fez uma bela apresentação sobre o estado de coisas no ensino médio, defendendo o alargamento do debate sobre o ensino de Filosofia e Sociologia. Ela explicou que a posição do MEC é pela constituição de bibliotecas escolares com obras de referência em Filosofia, sem a indicacão de manuais ou livros didáticos. O MEC vai apoiar a elaboração de um livro de referência para professores, sob responsabilidade da Anpof, mas sem a característica de livro didático. O terceiro palestrante sobre ensino médio, Edeum Sauer, da Bahia, falou sobre a falta de identidade do ensino médio - tema que havia sido abordado por Lucia -.
A posição de Apel foi recebida com receios, em nome do perfil do aluno de nível médio, eventualmente pouco afeito às leituras. Teve gente que foi direto ao ponto, dizendo que era contra essa coisa de ler os clássicos enquanto a barbárie campeava solta...
A soma das vontades individuais resultaria num impossível: uns querem que a Filosofia seja uma disciplina curricular com muitas horas de aula, enquanto outros gastam o verbo para falar contra o conhecimento fragmentado, disciplinar...

Primeiro Encontro Nacional sobre Ensino de Sociologia e Filosofia


Depois de um adiamento, finalmente saiu o encontro, entre 22 e 24 de julho. No domingo à noite tivemos apenas a mesa de abertura, sem o Ministro da Educação. Veio gente de todo o Brasil, desde Roraima até o Rio Grande do Sul, ao redor de 700 professores. A frustração foi grande, no entanto. As mesas específicas sobre ensino de Filosofia foram muito boas. Foram ótimas as falas de João Carlos Salles, Celso Favaretto, Silvio Gallo, Joaquim Severino na tarde de segunda e na manhã da terça. A mesa sobre ensino médio, com a Profa. Lucia Lodi, do MEC, Emmanuel Appel e Edeum Sauer, Secretário da Educação da Bahia, foi muito boa, mas o mesmo não se pode dizer dos debates, todo ele centrado em questões pouco pertinentes, voltadas para o mundo sindical de São Paulo. A APEOESP é o maior sindicato de professores do Brasil, e tamanho poder se transforma em fonte de disputas contínuas entre as tendências internas. Isso prejudicou muito os debates e irritou profundamente os participantes, que esperavam uma honesta conversa e troca de experiências.

sexta-feira, julho 6

Odisséia


Conheço duas traduções da Odisséia para nossa língua. A mais famosa delas é a de Manuel Odorico Mendes (1799-1864), publicada pela primeira vez em 1928. Odorico é um maranhense, que fez seus estudos em Portugal e que veio a falecer na Inglaterra, literato, político, e tradutor. A sua versão da Odisséia foi republicada em 1996, numa edição muito bem cuidada, pela editora da USP. É dificílima de ser lida, por causa da sintaxe ali adotada.
Outra tradução foi publicada pela Abril Cultural, em 1981, feita por Antonio Pinto de Carvalho, a partir da tradução francesa. Já havia sido publicada pela Difel. Nunca fui estudioso de Homero e imagino que existam outras.
Saiu agora uma nova tradução, feita por Donaldo Schüler, em Porto Alegre, e publicada pela LPM. Ontem fui na Cesma e ela havia chegado, estava ainda na caixa. Gilmar fez a bondade de me vender os três volumes. Ela saiu em três pequenos volumes, o primeiro - Telemaquia - ao módico custo de sete reais. Comecei a ler ontem antes de dormir, para ver se engrenava. Foi dificil largar o livro. Hoje dei mais duas pegadas e terminei o primeiro volume.
O texto ficou ótimo, escorreito, esplendente, auroral e com hecatombes impecáveis, como dizia Homero. O tradutor, Schüler, adotou a forma de prosa e faz do Homero um legítimo contador de histórias, que a gente vai acompanhando com o maior encantamento.
O primeiro volume conta as atribulações de Telêmaco, filho de Odisseu/Ulisses, agoniado por obter notícias de seu pai, já que sua mãe, a paciente Penélope, sofre assédio dos pretendentes, certos da morte do herói; enquanto esperam a decisão da senhora, comem todas as cabritas da família. Telêmaco faz sua pequena viagem de herói, completando sua adultez na medida em que sai em busca das notícias do pai.
As novas gerações deveriam agradecer muito ao Donaldo pelo serviço.
Na ilustração, em um vaso grego, o jovem Telêmaco conversa com o velho Mentor, que o orienta...

sábado, junho 30

O Rei

Deu no The Economist desta semana:
"Lula's Workers' Party lacks a strong candidate to follow the president, who under the constitution cannot run in 2010 (but might be able to in 2014). For now, however, Lula stands supreme in Brazil. Rather than governing, he reigns above party while “Brazil is on automatic pilot,” says Gaudêncio Torquato, a political consultant in São Paulo. Unlike some of its would-be air travellers, at least it has taken off."

sexta-feira, junho 29

Cachorrada




Deve ter sido um caso de ferormônio. Ou foi só algum descaso? Eram na volta de dúzia, infernizando nos arredores da rótula da Ufesm, na sexta, meio-dia e pouco, bem na cara dos brigadianos. Na segunda de manhã, quem sabe, eles poderão ser vistos com mais calma, quando as gentes estiverem bem trancadas na avenida Roraima.

Arco trancado


Na segunda-feira, 1 de julho, os servidores "em greve" dão uma resposta ao endurecimento do Rei de Zilbra, que mandou descontar dos salários dos brevistas os dias descansados. Os brevistas vão fechar o arco de entrada da Ufesm. Eles acham que isso de trancar os salários é uma barbaridade, tchê, e dão o troco no tranco.
Em 1981 fizemos a primeira greve na Ufesm. Uma das primeiras providências que o Prof. Sérgio Pires tomou foi formar um fundo de greve. Todos sabíamos que fazia parte das estratégias do outro lado cortar o salário da gente.
Depois, deu no que deu.
Fizemos greve de mais de oitenta dias com o salário em dia.
Aí até alguns patetas como eu começaram a desconfiar que havia algo errado.
Mas a ficha não caiu para muita gente ainda.
Bem, eles não são patetas, são?
E assim vão fechar o arco da ufesm na segunda-feira e mandar um tucufum para o barbudo.
Enquando isso as amanitas vão florescendo.
Vou convidar os amigos para um chazinho.

quarta-feira, junho 27

Amanitas


Floresceram.
O campus da ufesm está de novo com amanitas em flor.
A 'amanita muscaria' (fly agaric), como se lê nas notas de Martin Gardner para a edição comentada de "Alice no País das Maravilhas", "tem chapéus de um vermelho vívido que parecem ter sido salpicados com pedacinhos de ricota." Ver a página 50 da edição da Jorge Zahar, capítulo 5, "Conselho de uma Lagarta".
Quem me deu a dica da localização foi Dom Bressan. A identificação vem do Carrol e do blog de um dos nossos estudantes de Filosofia, o "issoeocio".
Daqui a uns dias eu coloco mais fotos das amanitas no flickr. São lindas.

terça-feira, junho 26

"Alfabetização de segunda ordem".

Ando lendo as "Orientações Curriculares para o Ensino Médio", publicação do MEC em três volumes, 500 páginas no total. Representa, em algum sentido, o estado da arte em termos do pensamento curricular aplicado ao médio. Li tudo e fiquei surpreso com muitas coisas. Para a maioria delas gostaria de aplicar o dito de Cervantes, "no quiero acordarme". Uma das coisas que me chamou a atenção foi a insistência em se falar em "alfabetização científica", "alfabetização cultural", "letramento crítico" e assemelhados.
No documento da área de Biologia, por exemplo, está a seguinte definição para a “alfabetização científica”:
“Esse conceito implica três dimensões: a aquisição de um vocabulário básico de conceitos científicos, a compreensão da natureza do método científico e a compreensão sobre o impacto da ciência e da tecnologia sobre os indivíduos e a sociedade.” (Orientações Curriculares, p. 18).
No documento da área de Artes, temos a seguinte passagem: “(...) o que se chama de alfabetização cultural: possibilitar que o aluno desenvolva competências em múltiplos sistemas de percepção, avaliação e prática de arte”. (Orientações Curriculares, p. 177).
Com pequenas variações esse conceito está presente em outros documentos oficiais do ensino básico, desde dos PCN, creio eu.
A alfabetização em sentido estrito diz respeito ao domínio de habilidades de leitura e escrita na língua materna; se poderia dizer, trata-se do domínio pleno de um código. Não se deveria falar em "código", parece rebaixar a língua materna. É preciso falar em código, no entanto, porque o aprendizado da escrita e da leitura implica muitos conhecimentos de natureza para-linguística: a correspondência entre espaços no papel e intervalos de silêncio ou não-significatividade, a direção do olhar, o ponto do papel onde o olho começa, e por aí vai. Como entender essas outras alfabetizações? Eu proponho chamá-las de alfabetização de segunda ordem. Elas se referem ao domínio de conhecimentos e habilidades que supõem a boa realização da alfabetização em sentido restrito e que vão além do domínio de informações para memorização e mesmo aplicação; posso dominar um conjunto de noções científicas mas ter poucas habilidades quando se trata de ter uma atitude científica diante de um problema qualquer porque não compreendo adequamente a natureza do conhecimento científico. Grande parte do que chamamos de 'consciência crítica' nada mais é do que alfabetização de segunda ordem, espécies do mesmo gênero, como diria McGinn.
Seria possivel pensar que a ênfase que se vê por aí nisso que chamo de alfabetização de segunda ordem indica uma preocupação com aspectos da formação curricular que tem sido desatendidos e para os quais tornam-se necessárias estratégias de trabalho que vão além dos limites de cada disciplina em particular. São raras, no entanto, as iniciativas de formação e o desenvolvimento de competências em desenho curricular que visem exatamente tal área de conhecimentos e habilidades. Aqui entraria uma honesta aula de Filosofia na escola média.
Fica aqui o copiráiti: "alfabetização de segunda ordem".

Saber sem crer

Uma das indicações dada pelo McGinn para reforçar sua tese, que em algum sentido da palavra "conhecer" a crença não fica implicada é um livro de Jonathan Bennett, Linguistic Behaviour, publicado pela Cambridge em 1976. Alguém tem? O ponto de partida do McGinn, como se sabe, é a constatação das variedades do conhecimento: saber como, saber quem, qual, onde, saber de, e, certamente, saber que p. Sua intuição é que o "'saber-que' surge como uma espécie de algum tipo mais básico de conhecimento". A nave-mãe do conhecimento é o que ele chama de "discriminative capacity".
Voltando ao Bennett. Na teoria do significado apresentado no livro, de acordo com um apresentador de seu livro, Bennett oferece uma elucidação sobre como podemos explicar de forma razoável e teleológica alguns aspectos do comportamento de criaturas desprovidas de linguagem, em termos de seus objetivos e do que ela 'registra'. "Registrar, diz o resenhista - e aqui apenas estou traduzindo - é um conceito primitivo introduzido por Bennett; registrar, diz ele, torna-se crença quando certas condições de educabilidade e (talvez) e de questionamento (inquisitiveness) se dão. Bennett mostra de forma convincente de que modo o comportamento pode tornar razoavel atribuir-se progressivamente mais crenças complexas e intenções a criaturas desprovidas de linguagem; crenças gerais, crenças acerca do passado, crenças e desejos acerca das atitudes dos outros, e finalmente, as atitudes requeridas para um caso de significado de falantes." O Alexandre, no comentário do post abaixo, lembra a possibilidade de se pensar a crença como uma relação direta com o mundo e com isso se preservar a dependência entre conhecimento e crença. Não consegui pensar isso adiante.
Dias atrás fiquei pensando que no final das contas se trata de uma coisa completamente simples. Bertrand Russell pubicou um um livrinho chamado "Deixa o povo pensar" (Let the People Think), uma seleção de ensaios. Em um deles, chamado Free thought and official propaganda" ele sugere que as escolas primárias deveriam ensinar a arte de ler os jornais com incredulidade. Afinal, diz ele, tem gente que pensa que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas, confundem a verdade com o corpo doze.

sexta-feira, junho 15

Podemos saber sem crer?

Nove entre dez filósofos dirão que isso é uma bobagem, pois evidentemente o saber supõe a crença, como reza a definição tradicional de conhecimento. Mas é essa, em algum sentido - eu friso, em algum sentido!!! - a tese implicada pelo artigo do McGinn mencionado na postagem anterior. Nessa postagem faço uma correção do final do trecho traduzido e acrescento o final do parágrafo. Demorei alguns dias para fazer isso pois havia perdido de vista o artigo. Agora já posso fazer uma cópia para a Gisele, que se interessou pelo mesmo.
Aqui vai:

"Mas o que acontece com o conhecimento proposicional? Ele não implica a crença? As considerações anteriores me encorajam a duvidar que isso ocorra: o que é exigido pelo conhecimento-que é algum tipo de atitude proposicional , mas precisamos de um argumento para nos persuadir que esta atitude deva ser a da crença. Por que não exigir somente algo como registrar e reter a informação que p, onde essas 'atitudes' são concebidas como estados cognitivos sub-racionais? Quando dizemos que o rato sabe que o gato está atrás da porta, não implicamos que ele acredita que o gato está lá; implicamos apenas que os sentidos do rato funcionaram para registrar a informação que o gato está lá. Isso me parece uma elucidação plausível de nossas práticas com tais atribuições, e ela está em harmonia com a análise do conhecimento como uma capacidade discriminativa. Se isso está correto, então o conhecimento proposicional é também mais primitivo que a crença; ele não é, como a tradição supôs, uma forma de crença especialmente rarefeita, que apela para alguma faculdade cognitiva mais elevada do que a mera crença; ao contrário, ela é uma condição que mesmo animais não-racionais podem aspirar.”

Nos dedos!

quarta-feira, junho 13

Sobre conhecimento e crença: Colin McGinn

O texto que segue é de Colin McGinn. É um trecho de um artigo intitulado "O Conceito de Conhecimento", publicado pela Midwest Studies. Eu o traduzi por provocante, como material de reflexão para, entre outras coisas, alimentar os pensamentos sobre o "minimalismo" no debate sobre "consciência crítica". Acho que uma renovação no ensino de filosofia no nível médio é simplesmente impossível sem uma renovação da bibliografia básica disponível em nosso país. O que se lê sobre tópicos como esse nos melhores manuais disponíveis na praça não é bom.

"Se a noção raiz de conhecimento é a noção de uma capacidade discriminadora, então não será uma surpresa que o conhecimento seja logicamente independente da crença. Que o conhecimento não implica a crença parece óbvio para o conhecimento não proposicional, dado que a crença é uma atitude proposicional, e esses outros tipos de conhecimento não são atribuídos completando-se ‘saber’ com uma clausula-que; se eles envolvessem crença, isso teria que ocorrer indiretamente. Parece-me, então, que estamos preparados para fazer atribuições literais de saber-como, saber-qual e saber uma coisa a partir de outra à criaturas cujo status como crentes (believers) nós somos (corretamente) relutantes em reconhecer; dizemos sem forçar (without strain) de várias espécies de animais que eles tem um tipo de conhecimento não-proposicional, muito embora um elemento de metáfora se ligue a qualquer atribuição de crença a eles. A razão dessa diferença é, eu sugiro, esta: a posse de crenças autenticas pressupõe a capacidade de raciocinar, de pesar evidencias, tirar inferências, e assim por diante; mas o conceito de conhecimento per se exige apenas uma capacidade de discriminar, de responder diferencialmente – e este tipo de capacidade é possível na ausência de uma capacidade de raciocinar.
Conhecimento, portanto, é uma realização sub-racional, enquanto que crenças são essencialmente estados cognitivos que são formados e interagem de acordo com os ditames da racionalidade. Nesse sentido, o conhecimento está junto à percepção (e também à memória), pois a percepção é também possível na ausência da crença e do raciocínio; muitos animais dos quais podemos dizer que vêem, ouvem, cheiram, etc, o que está acontecendo ao redor deles, não podem ser considerados sujeitos de crenças. Tais animais podem, é verdade, ser considerados portadores de estados informacionais que são, se você quiser, análogos à crenças genuínas; mas processar informações sobre o meio-ambiente não é a mesma coisa que raciocinar sobre ele. Assim, tanto a percepção e o conhecimento são, num sentido claro, mais primitivos do que a crença. O conhecimento e a percepção predam a crença na história evolucionista.
Mas o que acontece com o conhecimento proposicional? Ele não implica a crença? As considerações anteriores me encorajam a duvidar que isso ocorra: o que é exigido pelo conhecimento-que é algum tipo de atitude proposicional , mas precisamos de um argumento para nos persuadir que esta atitude deva ser a da crença. Por que não exigir somente algo como registrar e reter a informação que p, onde essas 'atitudes' são concebidas como estados cognitivos sub-racionais?...”

(Publicado em MIDWEST STUDIES IN PHILOSOPHY, IX, 1984)

Deflacionismo

Teorias deflacionistas tornaram-se populares na Filosofia. O caso mais relevante parece ser o que cerca a discussão do conceito de "verdade". Para finalidades de ensino de Filosofia venho tentando caracterizar o que chamei de concepção deflacionista de "consciência crítica". Como se sabe, o conceito de "formação de consciência crítica" tem sido um cavalo de batalha para muitos defensores do ensino de filosofia para jovens e crianças. Essas palavras, no entanto, perderam o gume, o canto e a plumagem, como diria Rosa. Deveríamos ser capazes de trocá-las em miúdos, como se diz, para renovar nossa compreensão do tema. O "pacote crítico", no entanto, tem muita coisa dentro, alhos e bugalhos, e separá-los não é fácil. Fiz uma postagem maior sobre o tema no outro blogue, para começar a conversa e apontar ao menos uma característica de tal compreensão deflacionista de "consciência crítica". Como diria o Prof. P., ela é um tanto desapontadora; mas é assim que são as tais "teorias" filosóficas...

quinta-feira, junho 7

O som e a fúria

Na quarta-feira, 6, por volta do meio-dia, um carro de som foi estacionado nas imedições da Afatec e um grupo de estudantes se revezou ao microfone, até por volta de três horas da tarde gritando palavras de ordem contra o que eles caracterizam como a contribuição da cuja para a "privatização da Ufesm". Alguns postes atrás transcrevi um panfleto no qual eles colocavam a afundação na alça de mira do movimento estudantil, falando em "corrupção".
Não entendo muito desses assuntos, mas parece que a coisa funciona mais ou menos assim: o projeto "x" é aprovado pelo financiador, o dinheiro vem para a Ufesm, entra na conta da Afatec e o trabalho começa. O executor do projeto, um professor da Ufesm, começa a tocar o barco; vai na empresa ou na loja que tem uma coisa que ele precisa e simplesmente a adquire ou contrata; a firma tira a nota, em nome da cujatec e passa na boca do caixa para receber. A atenção plena do executor parece ser a coluna vertebral da coisa; se ele se distrai, pode sair uma nota mal preenchida ou um serviço mal-executado.
Dizem que em Boca do Monte fechada não entra mosquito.
Entrou. Até os dormentes dos trilhos da Boca do Monte estão cansados das histórias de notas fiscais certificadas na base do olho grosso e úmido.
Vai longe esse tema, pelo jeito.

Ensino de Filosofia

Para os interessados sobre ensino de filosofia, coloquei um texto no outro blogue sobre a pretensa oposição entre a turma da lógica e a turma da política, no que diz respeito à escolha de temas para o nível médio. O material que eu coloquei ali está, como se diz, em construção. Use moderadamente.

domingo, junho 3

Tetas


Tinha nada para fazer, liguei o automático e deu o rumo da ufesm no domingo de tarde e sol. Cruzo na ponte sem rio, vejo a barrosinha pastando flor azul no verde. Pouco sei das marcas, parece uma jérsei - nem tudo que parece é, como dizem as otoridades - e ela está ali, amarrada por uma cordinha de nylon num toco bem cravado no gramado. Ela pasteja na sombra, chego perto, me olha com curiosidade e vem chegando demansinho. Se lhe permito ela gruda o focinho lambido na lente da máquina. Lhe pergunto, ô dona vaca, aqui nessas proximidades do prédio da química - ou seria das comunicações sociais - que surprêsa, não lhe pergunto o que faz por óbvio, ela pasta o que o tratorzinho lhe deixou, que a grama está baixa, lhe pergunto dona vaca, de onde vem, para onde vai, depois dessa pastada? E ela me olha, parece que com vontade de me contar alguma coisa, mas meneia a cabeça, quem sabe dessas coisas, e ruma para o pauzinho onde está amarrada a corda.
Eu fico ali como um pateta olhando as tetas gordas da vaca.
Na segunda-feira, quem sabe, ela vai dar seu leite para alguma criancinha aqui na beirada do campus.
E eu concluo que há muito mais coisas entre a ufesm e as tetas da barrosinha do que sonha a minha pobre filosofia.

sábado, junho 2

Afasta de mim esse vinho!

Não foi longe, como eu pensava. O Conselho Universitário cedeu à pressão dos ocupantes da Reitoria e retirou de pauta o processo que previa a venda do antigo hospital. Acabou uma função mas parece que outra está recém começando. A gurizada ocupante da Reitoria pedia, entre as reivindicações, que a Fatec fosse investigada (veja post abaixo). Deviam ter alguma informação privilegiada. O Diário da Boca do Monte de hoje dedicou duas páginas para as relações entre a Ufesm e sua dileta afundação, a Afatec. O título da matéria é esse: "Ministério Público investiga contas da Ufesm". A preocupação do Ministério Público é com o fato que o INEP contratou os serviços da Ufesm (do Cepedê), pagou 4,3 milhões para a criação de um software e desse troquinho 2,3 foram gastos em coisas que aparentemente não tem relação com o objeto do contrato, como pacotes turísticos para Sergipe, garrafas de vinho e carne para churrasco. Entrevistado pelo Diário, o ex-reitor da Ufesm garante que não bebeu uma gota de vinho. "Posso garantir que não bebi nenhuma gota de vinho".
Há quem garanta mais.
Que isso é só a pontinha do iceberg. Nesses tempos de aquecimento global o vinho está esquentando. O Ministério Público estaria de olho em outras facilidades que as administrações superiores criaram por meio da afundação, sem falar em outras prestações de contas entaladas no Tribunal de Contas.
Eu disse "dileta" acima, porque agora cresce a olhos vistos a outra afundação, que atende pelo nome de Afundae, para onde estão migrando recursos e nomes poderosos da cidade e da Ufesm. De modesta padaria, a Afundae está virando um supermercado.
Depois do affaire das antenas, o Diário da Boca achou, como a gurizada dizia antigamente, uma moca de notícias.
Mas felizmente, como diz um dos entrevistados, "nem tudo que parece, é."

quarta-feira, maio 30

Vai longe




Imagens do saguão da Reitoria. As barracas apenas começavam a ser instaladas. Pelo que vi não pretendem sair muito cedo.

As bandeiras


Ali vão mais alguns alunos, carregando os colchões. Eles pretendem ficar bastante tempo, ao que parece. No meio da tarde alguns grupos passaram em salas de aula, pedindo auxílio em forma de comida, por exemplo. O mosquitinho pedia a doação de arroz, macarrão (tipo parafuso), guisado de segunda, óleo, cebola, molho de tomate, geléia, manteiga, açúcar, café solúvel, chá mate, farinha de mandioca, farinha de trigo e batata inglesa.
Há muito amido e pouca proteína nessa dieta.
Um estudante me passou o panfleto com as reivindicacões. A mais importante dela é o "cancelamento imediato das negociações de privatização do Prédio de Apoio". Depois dela vem a ampliação do RU. E na sequência, mais vagas na casa do estudante para a pós-graduação, conversão de bolsal de trabalho em bolsas de ensino, pesquisa e extensão, ampliação da biblioteca, ampliação das bolsas de iniciação científica e por aí vai. Há um item que pede "o fim da corrupção da FATEC, segundo indícios já levantados pelo Ministério público Federal".

Reitoria ocupada


Desde hoje a tarde estudantes da UFSM ocupam o saguão da Reitoria da UFSM. Vão passar a noite por lá. Instalaram barracas no saguão do prédio e montaram um fogão para fazer a janta. Quando passei por ali, depois de minha aula, haviam uns quarenta estudantes, muitos já com cobertores e colchões para se garantir, que a noite promete ser fria. Pelo que entendi, a decisão de ocupar a Reitoria foi tomada hoje, na assembléia feita ao meio-dia, no RU, e materializada no meio da tarde.

quinta-feira, maio 24

Temporada de Outono


Está aberta a temporada de outono de 2007. Na terça-feira, desde as sete horas da manhã, servidores da UFSM fizeram o tradicional funil de panfletagem, para expor as razões da indignação com as "malvadezas do Governo Lula", como dizia uma senhora no megafone. Indicam o início de uma greve no dia 28 próximo, segunda-feira. A pauta, pelo que se comenta, está distribuída entre a revolta por uma classificacão de cargos muito mal feita para os servidores de nível superior e as costumeiras bandeiras gerais, entre as quais as famigeradas acusações de privatização disso e daquilo. No momento, o alvo da vez são os hospitais universitários. Parece não vai ser greve de bojo, isto é, no geralzão do serviço público, e sim localizada nas Ifes. Vai ter jogo duro, então. De um lado, é muito possível que um grupo forte-firme-e-coeso de servidores sustentem um núcleo de paralização que, congelando o RU e a Biblioteca causam um barulho danado. De outro, o Lulinha deixou de lado a paz e o amor e disse, faz poucas horas, que servidor público que faz greve e recebe salário na verdade está em férias, e acena para o corte de salários. Porta-vozes do MEC anunciam que a greve é um "problema de governo", o que significa que fica descartado um tratamento em casa, à boca-pequena.
Na sequencia, por volta de onze e meia de hoje, os estudantes trancaram a ponte da avenida principal da Universidade. Era uma assembléia de protesto contra aquilo que está escrito ali na faixa: ampliar o RU, não vender o prédio de apoio. Dali seguiram em passeata até a Reitoria onde passaram a tarde da quinta-feira rufando tambor e ufanando as causas.
Semana que vem deve ter mais, como é tradição no outono.

domingo, maio 20

Estado Laico

Domingo, meio-dia e vinte. Ligo na Rádio Universidade, 800 AM. Um pastor prega, fala sobre as atividades da sua Igreja. A Rádio da Ufesm decididamente entregou parte de sua programação para algumas confissões, e faz isso diariamente, com mais intensidade aos sábados e domingos.
Com a visita do Papa, voltou o debate sobre o estado laico. Por aqui, ao que parece, a voz da assembléia de Deus vai bem obrigado, nas ondas da Rádio. Que negócio é esse de estadolaico?

Iris Murdoch

O sítio "Crítica na Rede" (criticanarede.com), coordenado por Desidério Murcho, acaba de publicar minha tradução de Iris Murdoch, "Sobre Deus e 'Bom'".

quinta-feira, maio 17

Castoriadis e as profissões impossíveis

Tem mais sobre as "profissões 'impossíveis'" no blog sobre ensino de filosofia, link ao lado: uma releitura do "métèque" Castoriadis.

O Labirinto do Fauno


Levei um soco no estomago meses atrás, quando um estudante de Filosofia deixou escapar que sonhava com um sistema educacional no qual não houvesse lugar para contos de fadas e papai noel, no qual predominasse a realidade, simplesmente. Meu estômago ainda dói ao lembrar essa conversa e talvez o do aluno também, espero. Lembrei ao estudante que um tal sistema roubaria das crianças a própria infância, mas ele não me pareceu comover-se muito; nos despedimos e pensei em tratar do tema de forma mais demorada e sutil em outro momento. Enquanto pensava nessa condenação da imaginação humana li um texto muito bonito do Daniel Galera sobre o filme "O Labirinto do Fauno", de Guilhermo del Toro, que poderia ser o recomeço dessa conversa. Quem sabe a gente passa o filme no Curso uma hora dessas?
Vai aqui o texto do Galera:
“O Labirinto do Fauno, de Guillermo del Toro, é o filme mais triste que já vi. Saí do cinema massacrado, e acho que o mesmo deverá ocorrer com qualquer pessoa cuja história pessoal esteja profundamente contaminada pela fábula (não no sentido de fábula infantil com moral, mas no sentido mais amplo de narrativa imaginada, de aceitação visceral da fantasia como um dos componentes essenciais da vida). Muitos vão gostar do filme - é graficamente lindo, é cruel e sádico, é assustador (contendo, inclusive, a criatura fantástica mais assustadora que já vi na tela), é protagonizado por uma menina adorável, tem excelentes atores no todo, comove qualquer um até a medula e consegue, sem ser chato em nenhum instante, combinar tudo isso com uma abordagem extremamente rancorosa dos traumas da guerra civil espanhola. Mas suspeito que apenas alguns sairão abalados pelo golpe final, uma declaração quase insuportável de que a realidade e a imaginação estão divididas por um abismo instransponível e já não podem ajudar uma à outra nos dias de hoje; de que só resta, à imaginação fantasiosa, a nobre função de fuga dos horrores da vida real; de que uma e outra não podem mais andar de mãos dadas. A ficção está morrendo, ou, para não soar dramático demais, cada vez mais perdendo o valor (”O seu livro é autobiográfico?”, me pergunta um fantasminha nesse momento, com um sorriso cheio de sarcasmo estampado na cara - ele sabe, como eu, que a resposta não existe). É um diagnóstico doloroso, que consegue ser belo somente no sentido de que temos um autor de cinema capaz de reconhecer o estado moribundo em que se encontra a fábula e de transformar esse triste fato num filme implacável."

quarta-feira, maio 16

Orientar as crianças

Postei no outro blog, sobre ensino de Filosofia, as passagens de Freud sobre as profissões impossíveis; foi junto uma frase dele sobre o objetivo da educação.

segunda-feira, maio 14

Jacques Bouveresse e a patrulha ideológica

Aos poucos Jacques Bouveresse é publicado no Brasil. Há dois livros dele por aqui, "Prodígios e Vertigens da Analogia - o abuso das belas letras no pensamento" (Ed. Martins Fontes) e "O Futuro da Filosofia", Editora Atlantica. Nascido em 1940, professor no Collège de France, foi dos primeiros franceses a estudar seriamente Wittgenstein, e tem um punhado de livros dedicados a ele. Agora publicou na França um livro sobre um tema muito atual: "Podemos não crer? Sobre a verdade, a crença e a fé". No domingo, ontem, a Folha publicou uma entrevista com ele. Selecionei alguns trechos:
"FOLHA - O filósofo Renan não identifica o progresso ao desaparecimento gradual da religião e "pensa não somente como uma possibilidade mas como certo e inevitável, como um progresso da religião". O sr. pode explicar o que ele via como progresso da religião?
BOUVERESSE - Renan pensava que as religiões nasceram pelo fato de a humanidade ter necessidade de saber, num momento em que não dispunha ainda de meios suficientes. A força da ciência está justamente em ser capaz de esperar e, enquanto espera, renunciar a toda certeza prematura.
Quando se torna possível saber, necessariamente a religião se transforma, mas não há nenhum motivo para pensar que ela desaparecerá, e Renan não desejava que ela desaparecesse.
O que é difícil é saber o que subsistirá da religião tradicional e se isso merecerá ainda o nome de "religião". Para Renan, que identificava a oração à especulação racional, um pensador autêntico não pode deixar de ser, no fim das contas, um homem religioso num sentido que ainda é, provavelmente, indeterminado.
O progresso da religião, tal qual ele o concebia, consiste numa redução progressiva da religião ao seu núcleo racional.
A única religião aceitável e a que ficará no fim das contas é o que podemos chamar a "religião da humanidade" (em vez da religião da divindade)."
(...)
"FOLHA - O senhor cita Habermas, que escreveu: "As tradições e as diversas religiões conquistaram uma importância política nova, inesperada até hoje, desde a mudança marcante dos anos 1989-1990". A volta da religiosidade e o crescimento dos fundamentalismos de toda espécie seriam, então, conseqüências do fim do comunismo e da utopia da construção do paraíso na terra?
BOUVERESSE - Não são unicamente conseqüência do desmoronamento do comunismo.
Mas, na medida em que este funcionava em grande parte como uma religião da salvação de caráter leigo e profano, sua derrocada deixou um vazio que um retorno à religião, no sentido tradicional do termo, pode dar a impressão, certa ou falsa, de estar em condições de preencher."
(...)
"FOLHA - Existe hoje uma patrulha ideológica contra os não-crentes?
BOUVERESSE - Hoje, são freqüentemente os não-crentes que podem parecer atrasados (que são acusados de defender posições consideradas "cafonas", o que, hoje, é considerado o argumento mais consistente).
Mas isso não é o mais preocupante, e sim o fato de que não são as pessoas que crêem cegamente que são vistas como intolerantes, mas, sim, as que não crêem e que pedem justificações e provas.
No mínimo, o que se pode dizer é que a credulidade leva mais facilmente ao dogmatismo e à violência do que o ceticismo."

Na próxima postagem tem mais.

sábado, maio 12

O Senhor Keuner

"Ao acabar de ler um livro de história da filosofia, o senhor K. emitiu um juízo desfavorável sobre as tentativas dos filósofos para apresentar as coisas como fundamentalmente incognoscíveis. “Quando os sofistas afirmavam que sabiam muito sem ter estudado nada”, disse ele, “surgiu o sofista Sócrates a garantir com arrogância que apenas sabia que não sabia. Esperava-se que acrescentasse à frase: porque eu também não estudei. (Para se saber alguma coisa há que estudar.) Parece, no entanto, que nada mais disse, embora os estrondosos aplausos a essa primeira frase, que duraram dois mil anos, chegassem para abafar qualquer outra frase que viesse a seguir.”.
O texto acima é do Bertoldo, o Brecht, aquele chato que, entre outras coisas, não tinha medo de meter a mão nessas coisas.
(O texto está no livro "Histórias do Senhor Keuner". Tradução de Luís Bruhein, Hiena Editora, Lisboa, 1993).

Somente o amor impossivel é verdadeiro

O programa do Sétimo Forum Sul sobre Ensino de Filosofia informa 128 comunicações. Destas, apenas duas trazem palavras como "currículo" ou "didática" no título. O autor mais estudado foi Kant, que consta em 7 comunicações. Nenhum pedagogo ou psicólogo (exceto Paulo Freire, uma vez) foi objeto de estudo. O grande tema do encontro foi a impossibilidade de ensinar filosofia. Como disse um dos professores de além-mar, Prof. Giuseppe, da mesma forma que somente o amor impossível é verdadeiro, é impossível ensinar filosofia, pelo que essas conversas sobre didática da Filosofia são fiadas.
Então tá.
Começou assim.

terça-feira, maio 8

Chão da Escola

Saiu o livro "Filosofia e Sociedade: Perspectivas para o ensino da Filosofia", organizado por Sergio Sardi, Draiton Souza e Vanderlei Carbonara, publicado pela Editora Unijuí. Já tenho meu exemplar, gentilmente enviado pela Editora. Esses rapazes de Ijuí são incríveis! Com uma infra-estrutura muito enxuta, fazem proezas como essa! O livro tem 568 páginas, um tijolaço.
Folheei o livro. Fiquei com a impressão de haver mais filosofia e sociedade do que perspectivas para o ensino de filosofia, na linha do que venho dizendo faz muito tempo: mingau pela beirada. Poucos autores dialogam com o professor que está na sala de aula; a maioria quer aprofundar o debate teórico, como se diz. A menor seção é justamente a de "praxis do ensino de filosofia".
Vou ler com cuidado e volto.

Minima Moralia

Antes de começar a escrever seu manual de Filosofia para as escolas de Zilbra, ele abriu Minima Moralia ao acaso e deparou-se com a seguinte passagem: "Aquele que ajuda porque sabe mais torna-se alguém que humilha os outros com o privilégio de quem pretende ter sempre razão".
Ele sentiu correr um fio de frio pela espinha.

segunda-feira, maio 7

"Daqui para frente"

Deu no Jornal do Comércio, no dia 17 de abril passado: O título era "Primeiras medidas":
"O presidente do Detran, Flávio Vaz Netto, confere hoje em Santa Maria o Programa Trabalhando pela Vida, onde são executados os procedimentos para a obtenção da CNH. Inspecionará o centro de pesquisa ligado à Universidade Federal de Santa Maria. Vaz Netto quer transformar o Departamento de Trânsito em modelo de gestão, tarefa que será desenvolvida daqui para a frente pela Fundae."
Daqui para frente é com a Fundae.
O assunto é de foro interno da Ufesm, alguém diria. Ou do Governo da dona Ieda?
Nesse caso, alguém lembra de algum TV Campus sobre o tema? A comunidade agradeceria saber mais sobre esse triângulo amoroso, para espantar as naturais curiosidades mal-sanadas.
"Centro de pesquisa".
Eita frio danado, só mesmo indo no mercadinho da esquina e comprando um Sangue de Boi.

Afundações

Na Folha de domingo, dia 6, Maria Sylvia de Carvalho Franco critica a interferência do governo estadual de São Paulo na gestão das políticas de ensino superior. Lá pelas tantas ela escreve que "via fundações, as universidades públicas privatizam-se, mediante convênios, suplementos salariais e cursos pagos. Para bem ou mal, todo o complexo até agora esteve sob asas acadêmicas. Não mais. Atentem para esse detalhe, os adeptos do modelo."
Como se sabe, aqui na Ufesm a gente convive com esse modelo, que começou mais para bem. Não conheço muito, posso falar pouco; lendo a Sylvia lembrei de ter lido ou ouvido algo que o Detran do RS teria rompido o convênio firmado com a Fatec, por volta de 2004. É dinheiro grosso, na época os jornais disseram que entraria por mês um milhão e meio de reais na Fatec. Leia matéria do Diário de Santa Maria, do dia 23 de julho de 2004: "A Fatec recebe cerca de R$ 1,5 milhão por mês do Detran, que encaminha à fundação parte do que é arrecadado nos centros de formação de condutores (as antigas auto-escolas). Parte desse montante - 7,5 % - vai para a universidade, que recebe, em média, R$ 100 mil mensais." De google em google descobri, se entendi bem, que agora a conveniada é a Fundae, daqui de Santa Maria também.
Pobre Maria Sylvia, da missa sabe quanto?
Se ela soubesse o frio que faz por aqui não se queixaria tanto.

Verde

O post abaixo saiu verde assim porque o bloguista havia tomado muito chimarrão. Desculpem.

Manual de Filosofia em Zilbra

Vai ter filosofia em Zilbra. Em Zilbra, quem menos corre anda de avião. Mais de um grupo de professores já deu as caras no Ministério da Educação, em Zilbrápolis, para fazer propostas de manuais de ensino de filosofia para todo o país. Outros grupos, mais moderados, pretendem se reunir brevemente para, como se diz, "tirar um programa mínimo unificado" de ensino de Filosofia e Sociologia, para todo o Zilbra. Mais ao sul, na Província de São Pedro, faz frio. O clima é ótimo para filosofar, aqui no Sul.
Esses assuntos de ensino são muito chatos, comenta-se aqui no Sul.
Deleuze-me uma preguiça daquelas!
Acho que a gente devia votar.
Quem quer manual levanta a mão!
Quem quer programa, levanta a mão!
Quem está com preguiça levanta a mão!
Depois disso a gente colocava todos esses aí no mesmo avião e deixava-os nas mãos dos controladores de vôos.
E largava toda essa gente a voar por aí.
E se sobrasse alguém que ainda quem quisesse trabalhar, a solução seria ir para as escolas de Zilbra, conversar com os professores e ver o que dá para ser feito.
Tem uns que pensam que currículo é aquele negócio que lattes mas não morde, e o negócio é faturar um manualzinho depois de outro, que a professorada é burra mesmo; outros pensam que lista de assuntos é um negócio muito do progressista, um derridá por aqui e um sartre por lá que tudo vai melhorar. Me dá uma preguiça aí que já estou cansado, dizem os terceiros.
Eita Zilbra. Como diria o Marquês, vai ser preciso muito mais do que um esforço...

Marcia Angelita


Marcia Angelita Tiburi esteve em Santa Maria, na Feira do Livro, no sábado, tardezinha, o sol deixava essa pouca luz para fotografar; ela vinha muito aqui nos tempos dos seminários de estética do Prof. Hamm. Antes do lançamento deu fala nos jornais, elogiou a presença da Filosofia no vestibular aqui da casa e ganhou de novo minha simpatia. Eu, que torço por ela no Saia Justa (e pela Soninha...) torcia para que os feirantes fossem generosos; pois não é que a moça vendeu exatos trinta exemplares e virou uma das recordistas?